Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006
A Batalha do Atlântico
Athenia arde torpedeado.gif

O Paquete Athenia arde depois de atingido pelos torpedos de um submarino alemão que o confundiu com um dos muitos paquetes britânicosx transformados em cruzadores auxiliares de bloqueio.

Nas primeiras horas do dia 15 de Dezembro de 1941, o U-77 disparou dois torpedos contra o cargueiro Empire Barracuda do comboio HG76 que de Gibraltar regressava a Inglaterra. Iniciava-se assim uma das mais furiosas batalhas entre submarinos alemães e um comboio bem protegido ao largo das costas espanholas e portuguesas. Pouco depois, o U-77 da classe VIIC de 749/871 toneladas volta a atacar; desta vez contra um petroleiro que encaixa dois torpedos sem se afundar. O submarino continua a sua rota para o Mediterrâneo acompanhado pelo U-74. Simultaneamente, ao largo do Cabo São Vicente, o U-127 (Bruno Hansmann) justifica o nome a que o almirante Dönitz deu ao seu grupo de ataque, “Seeräuber”, piratas, e afunda injustificadamente o navio mercante português Cassequel com 9 passageiros e 48 tripulantes saído de Lisboa rumo a S. Tomé e Angola.

Dönitz ordenou a formação do referido grupo com os U-67, U-107, U-108, U-127, U-131 e U-574, logo que os agentes da marinha alemã, postados na baía de Algeciras, detectaram a saída do comboio HG76 de 32 navios mercantes. A protecção ao comboio era dada pelo Trigésimo Segundo Grupo de Escolta sob o comando do maior especialista de guerra anti-submarina britânico, o comandante Walker com pavilhão no aviso Stork. O grupo era formado pelo porta-aviões de escolta Audacity de 11.000 toneladas com 4 excelentes caças “Martlets”, denominação dada pelos franceses aos 81 F4F-3 “Wildcat” norte-americanos encomendados em 1939, mas que acabaram por ser recebidos pela marinha britânica em virtude da queda da França. Eram excelentes aviões armados com 2 metralhadoras de 7,6 mm e 2 de 12,5 mm e 91 kg de pequenas bombas. Além disso, o com. Walker contava com os destroyers Blankley, Exmoor e Stanley, quatro outros avisos e nove corvetas da classe Flower.

Depois do afundamento do Cassequel, o destroyer Nestor do grupo australiano da Força H, em patrulha na zona, conseguiu estabelecer contacto bélico com o U-127 e despachá-lo para o fundo com uma salva de bombas de profundidade a poucas milhas do Cabo de S. Vicente, mas ainda muito à frente dos navios do comboio HG76 que formavam nove colunas paralelas. No dia seguinte, 16 de Dezembro, um quadrimotor alemão de reconhecimento FW200 detectou os navios de comboio, o que permitiu a Dönitz ordenar um melhor posicionamento dos seus submarinos e acrescentar ao grupo o U-434 para o ataque imediato.

Os U-108 e U-131 procuraram uma posição de tiro, mas foram obrigados a submergir para não serem atacados pelos navios da escolta. Por isso, o U-131 deixou passar o comboio e emergiu à respectiva ré, escolhendo um dos últimos mercantes da linha para atacar, mas que ziguezagueava intensamente. O submarino não conseguiu realizar o ataque e viu-se mais uma vez obrigado a mergulhar para se safar à retaliação por parte dos navios da escolta.

No dia seguinte, o mesmo U-131 regressou à superfície para atacar o comboio. A velocidade imersa de apenas 7,3 nós daqueles submarinos não permitia a perseguição em mergulho. Entretanto, o com. Walker manda o Audacity aproximar-se da zona e pediu que os seus aviões pesquisassem intensamente a área. Descobriram rapidamente o U-131 a 22 milhas do comboio, o que levou Walker a ordenar o ataque com três destroyers e uma corveta. Antes disso, e na iminência de ser atacado por um Martlet, o comandante do U-131, Baumann, ordenou uma imersão de urgência, deixando a aeronave a disparar as suas metralhadoras para o mar. Baumann manteve o rumo de ataque ao comboio, apesar de então verificar que os seus hidrofones estavam avariados. Walker esperava isso do comandante alemão, pelo que deu ordens ao destroyer Blankney da classe Hunt para obter a respectiva confirmação pelo eco do seu Asdic. Efectivamente, Walker sabia que Baumann não se deixaria intimidar por tantas unidades rápidas e aviões, apesar de começar a ser submetido a uma autêntica tempestade submarina de bombas de profundidade. A superfície calma do Atlântico agitava-se violentamente devido às deflagrações de bombas e granadas.

O U-131 foi atingido por explosões junto ao seu casco que abriram pequenas fendas por onde entrou água de modo a provocar avarias nalguns motores eléctricos, enquanto um dos tanques de combustível começou a derramar o precioso líquido para o interior do compartimento das máquinas. O submarino mergulhou rapidamente com uma inclinação de 40 graus, o que agigantou os tormentos da guarnição, mas livrou o navio do impacto directo das cargas de profundidade. As baterias começaram a largar gases venenosos e a iluminação interna deixou de funcionar. Mesmo assim, já nos 180 metros de profundidade, Baumann e a sua tripulação conseguem endireitar o submarino e pôr alguns dos motores eléctricos a funcionar com a máxima velocidade para se afastar da zona de perigo e emergir duas horas depois com o oxigénio interno exausto e no limite da pressão de sobrevivência. Eram 12.20, o tempo estava claro com alguns raios de sol. O U-131 foi imediatamente visto por um dos aviões do Audacity. Já sem possibilidade de fazer uma imersão urgente, os homens do U-131 respondem ao fogo aéreo com as suas peças de 37 mm e 20 mm, respectivamente. O submarino fumegava ligeiramente e o casco apresentava-se muito amolgado, o que fez com que o piloto britânico se aproximasse, convencido que estava da impunidade proporcionada pela sua velocidade de mergulho de mais de 500 km horários. Antes mesmo de os seus tiros desbaratarem o pessoal da torre do submarino, o F4F foi atingido no motor e mergulhou no mar bem junto ao U-131. Mas, já o velho destroyer, ex-norte americano, Stanley, e o aviso Pentstemon se aproximavam para descarregar toda a sua artilharia no U-131 num fogo de barragem de 20 minutos, a que os artilheiros alemães responderam com a peça de 105 mm até esta ser atingida e os deixar desarmados. Baumann ordenou de seguida o abandono do navio pelos 48 membros da guarnição daquele submarino oceânico da classe IXC de 1102/1213 toneladas.

Enquanto a guarnição do U-131 e o cadáver do piloto britânico eram recolhidos, anoitecia, o que dava ao comboio alguma calma com a certeza de que recomeçaria tudo de novo apesar da força tremenda que o comandante Walker dispunha para combater os submarinos nazis. Os submarinos tentavam perseguir em grupo os navios do comboio, navegando à superfície, o que permitia a fácil detecção por parte dos aviões do porta-aviões de escolta Audacity que assim os obrigavam a imergir. Uma vez imersos, os navios de escolta dispunham de coordenadas para detectar a sua presença através do Asdic.



publicado por DD às 00:26
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1 comentário:
De Pedro Caleja a 21 de Fevereiro de 2006 às 12:01
Olá Dieter

Tenho alguns documentos americanos envolvendo o afundamento (a grande maioria por aviões) de cargueiros escoltados muito próximo da nossa costa.

Não me importaria de lhe ceder cópias.

Penso que tem o meu contacto de email, mas não obtive resposta do último email que lhe mandei.

Aqui fica também o meu TM 969675167.


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