Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 18 de Fevereiro de 2006
Guerra no Mediterrâneo - II
Warspite201.jpg



Couraçado britânico Warspite 33.670t armado com 8 poderosas peças de 360 mm e muitas mais de outros calibres. Apesar de ser um navio de 1913 prestou excelentes serviços na II. Guerra Mundial.



No Mediterrâneo, a guerra naval foi, como a do Atlântico, a luta pela passagem ou interdição do espaço marítimo a comboios de navios que transportavam tropas e abastecimentos para os diversos teatros de guerra terrestre. A Itália nunca se sentiu com forças para conquistar o domínio marítimo aos ingleses como o fizeram os romanos contra os cartagineses. Mesmo assim esteve próximo disso.


Os ingleses fizeram da pequena ilha de Malta, ao sul da Sicília, o ponto fulcral da sua estratégia mediterrânica, apesar das dificuldades previsíveis em mantê-la sob os intensos bombardeamentos por parte dos aviões italo-germânicos.


Poucas horas após a entrada da Itália na guerra, Cunnigham zarpou com toda a sua esquadra ao encontro das forças italianas que teimaram em ficar retidas em Taranto. Os primeiros tiros foram disparados contra o porto de Bardia na então colónia italiana da Líbia, seguindo-se o afundamento do cruzador britânico Calypso de 4120/4950t de 1917 com 5 peças de 152 mm. A sul da ilha de Creta, o submarino italiano Alpino Bagnolini de 1148/1460 toneladas de 1939 despachou o cruzador britânico para o fundo no dia 12 de Junho de 1940. Pouco depois, a esquadra britânica atacou um comboio italiano protegido por três contratorpedeiros, conseguindo em combate demorado afundar o Espero de 1070/1670 toneladas (1927) o que permitiu a salvação dos restantes navios do comboio. Isto, graças ao espírito de sacrifício do seu comandante Baroni e guarnição de que só se salvaram 47 dos 179 elementos depois de enfrentarem com valentia o principal esquadrão de cruzadores britânicos naquela área.


Em vez do combate directo, os italianos procuravam atacar as forças navais inimigas com os seus bombardeiros “Savoia Marchetti” de três motores, os quais largavam as bombas a uns três mil metros de altitude, pelo que raramente acertavam. O pessoal da ponte observava o lançamento das bombas e procurava afastar os respectivos navios a grande velocidade do ponto de impacto das mesmas. Quase sempre com êxito, excepto num caso em que uma bomba acertou em cheio na ponte do cruzador Glucester de 9400/11650t de 1939 armado com 12 peças de 152 mm, matando quase toda a oficialidade do navio, sem que o navio perdesse o essencial da sua capacidade operativa.


Cunnigham quando saía para o mar levava quase sempre consigo o porta-aviões Eagle, o seu navio-chefe, o couraçado Warspite, bem como o Royal Sovereign e o Malaya, além da escolta de cruzadores de contra-torpedeiros. Foi com esta formação que enfrentou pela primeira vez a esquadra italiana sob o comando do almirante Inigo Campioni.


A 8 de Julho de 1940, enquanto a esquadra de Cunnigham era atacada na vizinhança da Ilha de Creta por bombardeiros italianos; zarpava de Gibraltar a Força H com o gigantesco Hood e outros dois couraçados, o Valiant e o Revenge, além do porta-aviões Ark Royal e os cruzadores ligeiros Entreprise, Emerald e Arethusa e 13 contratorpedeiros.


Os italianos tentaram evitar o encontro das duas forças, bombardeando a formação oriunda de Gibraltar logo a partir das ilhas Baleares. Os “Savoia” ainda conseguiram colocar duas bombas no Hood e uma no Ark Royal, sem provocarem danos incapacitantes.
O contratorpedeiro Escort foi torpedeado e afundado pelo submarino italiano Marconi.
No mar estavam, entretanto, os couraçados Giulio Cesar com o pavilhão do almirante Campioni e o Conte di Cavour mais 12 cruzadores e muitos contratorpedeiros.
Campioni regressava com a sua força naval de Bengazi e detectou a presença da esquadra inglesa pelas informações fornecidas por um hidro. Mas, desinformado pelos excitados comandantes das esquadrilhas de bombardeamento que davam como certa a destruição parcial dos navios britânicos, Campioni resolveu travar uma batalha decisiva com Cunnigham antes da chegada da Força H de Gibraltar, apesar de estar em inferioridade numérica, já que iria enfrentar uma esquadra com três couraçados e o porta-aviões Eagle com os perigosos aviões torpedeiros “Fairey Swordfish”.


Claro, Cunnigham quando teve conhecimento que por perto das suas unidades navegava uma poderosa força italiana ordenou logo o ataque com os seus aviões lança-torpedos. O ataque não produziu quaisquer danos, dada a inexperiência dos pilotos britânicos.

O “deus” da sorte concedeu igual mercê aos britânicos, pois a “Reggia Aeronautica” falhou também na intenção de descobrir os britânicos e infligir-lhes baixas, apoiando assim a formação sob o comando de Campioni.


Cunnigham, por sua vez, avança a 24 nós no couraçado rápido Warspite, deixando para trás os mais lentos Royal Sovereign e Malaya. O almirante britânico estava disposto a correr todos os riscos, ou antes, a Inglaterra com então 16 couraçados e quatro novos em acabamento podia dar-se ao luxo de perder uma ou duas unidades numa batalha decisiva contra os italianos, que só dispunham de seis unidades capitais e os alemães apenas três.
Pelas 15.53, já depois dos cruzadores trocarem as primeiras salvas, avista-se da ponte do Warspite o Giulio Cesar a uns 25.000 metros de distância. Com as suas peças de 15 polegadas na elevação máxima, o Warspite inicia o disparo de salva sobre salva, enquanto os italianos respondem com a sua artilharia principal. Seis minutos depois, Cunnigham vê através dos seus binóculos uma enorme explosão de cor alaranjada no Giulio Cesar seguida de fumo intenso. Uma única granada de 381 mm avariou quatro caldeiras e provocou 115 baixas na guarnição, pois entrou pela chaminé da popa, explodindo no interior do navio. Depois de provocar um incêndio na casamata e nos alojamentos dos oficiais subalternos, o fogo propagou-se para baixo onde estavam as quatro caldeiras que tiveram de ser apagadas. O evento fez reduzir a velocidade do couraçado italiano para 18 nós.


Campioni ordenou a retirada dos seus navios, mas depois, perto do Estreito de Messina, simulou voltar ao combate para atrair os navios britânicos às bombas da aviação italiana com base em terra. Assim aconteceu; os “Savoia” bombardearam a grande altitude as esquadras em combate com uma notável imparcialidade, sujeitando ambas as forças aos seus “tapetes” de bomba. Felizmente para todos, nenhum navio foi atingido. Em 31 ataques, 235 bombardeiros lograram não provocar qualquer dano de natureza bélica, mas os britânicos suspenderam também a luta, pois estavam demasiado próximos das costas italianas e, portanto, do ineficaz mas altamente enervante bombardeamento contínuo, além de que os aviões torpedeiros italianos “Savoia Marcheti S.79” também lançavam à distância os seus torpedos que nunca acertaram, como aconteceu com os muitos ataques dos “Swordfish”, mas podiam por acaso acertar e Cunnigham via já os picos das montanhas da Calábria. Terminou assim sem grandes sucessos o primeiro verdadeiro encontro entre britânicos e italianos, denominado de Punta Silo pelos itálicos e da Calábria pelos anglos.


A esquadra de Gibraltar acabou por não se encontrar com a de Cunnigham; o medo dos ataques aéreos impediu os britânicos de fazer valer a imensa supremacia que poderiam obter em termos de artilharia naval concentrada contra a esquadra de Campioni.
Perante, este quadro táctico, Cunnigham decidiu preparar o ataque a Taranto, cujo êxito neutralizou por um certo tempo a esquadra italiana e provocou mesmo uma espécie de complexo de inferioridade que nunca permitiu aos italianos explorarem todas as suas possibilidades navais.


Depois do desastre de Taranto, a vontade de lutar dos italianos esmoreceu muito, o que dificultou a passagem de tropas e materiais para o norte de África. A Itália começa a sofrer derrotas na Líbia quando tenta conquistar o Egipto, então sob o domínio britânico. Ao mesmo tempo, falha na tentativa de conquistar a Grécia através da Albânia.


O flanco esquerdo das tropas italianas na Líbia é sujeito a bombardeamentos constantes por parte da “Royal Navy” que para o efeito foi buscar as canhoneiras do Iang Tsé, enquanto os trimotores “Savoia-Marchetti” tentavam bombardear os navios britânicos chegados diariamente a Alexandria. Já no fim de 1940, os ingleses num contra-ataque fulminante derrotam os italianos em Sidi Barrani, expulsando-os do território egípcio. A Itália perde nesta campanha 400 tanques e deixa 130 mil homens prisioneiros dos ingleses.


Ao mesmo tempo, os couraçados Warspite e Valiant bombardeiam o porto albanês de Valona por onde passavam tropas e material para a frente italiana na Grécia em vias de soçobrar completamente. Em Abril de 1939, a Itália fascista tinha anexado subitamente o pequeno reino albanês expulsando o respectivo rei e o governo.


A pequena marinha grega mostrou-se muito activa com os seus seis contratorpedeiros modernos e seis submarinos também relativamente actuais para a época, para além de 2 velhos cruzadores e dois couraçados já desarmados à data do conflito.


O fiasco italiano levou o ditador alemão a ir em socorro do seu colega italiano. Para o efeito, começou por destacar para o sul da Itália o Corpo Aéreo X com cerca de 300 bombardeiros em voo picado “Stukas Ju 87” e os versáteis bimotores “Ju-88”, aviões para todo o serviço desde a interdição aérea ao bombardeamento e lançamento de torpedos. Também vieram os então extraordinários caças “Messerschmidt 109E-1”. Os pilotos deste “Fliegerkorps” foram especialmente treinados para o ataque a navios. A ordem era atacar e destruir navios britânicos.


O primeiro ataque teve lugar a 10 de Janeiro de 1941 contra um comboio de navios com material para as forças inglesas a operar na Grécia. Como de costume, a Força H de Gibraltar escoltou os transportes até às proximidades da Sicília, passando daí para a protecção da Esquadra do Mediterrâneo Oriental com base em Alexandria e sob o comando de Cunnigham. O porta-aviões Illustrious acompanhou o comboio. Os seus “gigantescos” caças “Fairey Fulmar MK 1” armados com 8 metralhadoras e tripulados por 2 homens tinham rechaçado um ataque de bombardeiros italianos quando o radar do Illustrious viu um “enxame” de umas três dúzias de aviões. Os experimentados britânicos identificaram-nos logo como sendo “Junkers 87” monomotores e “Junkers 88” bimotores da “Luftwaffe”. Em formações de três, os aviões alemães mergulharam sobre o Illustrious, volteando constantemente para esquivarem-se ao fogo antiaéreo. Cinco aeronaves germânicas foram abatidas, mas o porta-aviões britânico acabou por ser atingido por seis bombas de 500 quilos que deixaram a popa e a proa a arder.


O Illustrious foi obrigado a retirar-se para o porto de La Valetta em Malta e depois para Alexandria, de onde seguiu para os EUA a fim de ser reparado. Durante mais de um ano, o navio ficou imobilizado.


No dia seguinte, os “Stukas” afundam o cruzador pesado Southampton. Entretanto, as primeiras unidades terrestres do “Afrika Korps” de Rommel desembarcam na Tunísia. A campanha alemã dos Balcãs (“Balkanfeldzug”) tinha, entretanto, começado a 6 de Abril de 1941 com o assalto à Jugoslávia, seguido depois pelo ataque à Grécia através da Macedónia. A “Royal Navy” perdera o domínio dos ares, pelo que pouco pôde fazer em termos ofensivos. A Inglaterra cometeu o erro de enviar 58.000 homens do seu “Exército do Nilo” para a Grécia, desguarnecendo a ainda vitoriosa frente no deserto líbio. Daí que Rommel tenha averbado logo no início alguns êxitos espectaculares com forças extremamente reduzidas e com viaturas VW disfarçadas de tanques com telas e contraplacados. Como os ingleses não chegaram a conquistar Tripoli aos italianos, os alemães puderam chegar ao Norte de África confortavelmente instalados em navios e aviões, isto é, sem necessidade de uma operação aero-naval de desembarque.





publicado por DD às 15:36
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1 comentário:
De lucklucky a 22 de Março de 2010 às 12:28
Uma precisão os Savoia Marchetti S79 com Torpedos só entraram em operação em fins de Agosto 1940 e mesmo assim uma só esquadrilha com 5 aparelhos.


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