Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Terça-feira, 1 de Novembro de 2005
O Assalto à Noruega
Assalto Noruega.jpg



Pelas 5.19H da madrugada, o poderoso e novíssimo cruzador pesado alemão Blücher navegava lentamente a seis nós e a 600 metros da fortaleza norueguesa de Oscarsborg no estreito de Dröbak que dá acesso ao porto e cidade de Oslo. Já tinha passado sem novidade o porto militar de Horten, pelo que o comandante alemão não esperava nada de anormal. Subitamente dois tiros das velhas peças Krupp de 280 mm da fortaleza norueguesa fazem tremer o Blücher. Logo a seguir, dois torpedos disparados de terra, da bateria de Kahom, atingem o cruzador que em minutos vai para o fundo. Com a água do fiorde à temperatura de 2 graus C e o ar a 0 graus, a maior parte da guarnição e passageiros não conseguiu nadar os 300-400 metros de distância à terra firme. A marinha alemã não possuía então roupa térmica para a sobrevivência em águas frias, nem sequer normas médicas para o efeito.



Os dois canhões noruegueses e os tubos lança-torpedos estavam guarnecidos por recrutas chamados à pressa com pouco mais de dez dias de serviço, dado que a pacífica Noruega quase não possuía forças armadas quando, a 9 de Abril de 1940, o ditador germânico deu ordem para o assalto aos dois países nórdicos, Dinamarca e Noruega.
A marinha norueguesa tinha um conjunto de navios velhíssimos datados do início do Século, essencialmente quatro pequenos guarda-costas couraçados de 3851 e 4167 toneladas, armados com duas peças de 208 mm cada e, apenas, 7 torpedeiros modernos de 597 e 632 toneladas, além de 6 pequenos submarinos de 420 toneladas construídos nos anos vinte.



A bordo do Blücher seguia o almirante Kummetz, comandante da força 5, e o general Falkenhorst, além de 900 homens de Divisão de Infantaria 163 e umas centenas de agentes da famigerada polícia política alemã Gestapo que deveriam prender o Rei e o governo norueguês e assumir o poder em conjunto com o major Vidkun Quisling e a sua “União Nacional”, um partido “nacionalista” das direitas que traiu a Pátria, servindo o invasor como “testa de ferro”. O nacionalista traidor foi ministro da Guerra da Noruega antes da subida ao poder do Partido Social-Democrata da Internacional Socialista. O rei Haacon e o chefe do governo social-democrata Albin Hansson não aceitaram a proposta de Hitler de ficarem no poder com o país ocupado pelas forças nazis.



O Blücher era o navio-chefe da força naval 5 com o “couraçado de bolso” Lützow e o cruzador Emden, além de vários torpedeiros e draga-minas. Após o afundamento do Blücher, a força naval fez meia volta e desistiu de tomar Oslo pelo mar, permitindo assim ao Rei e ao Governo escapar para a Inglaterra e continuar o combate pela libertação da Pátria a partir do exílio até à vitória final consagrada com a condenação à morte do traidor Quisling e de alguns dos seus correligionários da “União Nacional”, além da condenação a prisão perpétua do almirante Raeder no tribunal de Nuremberg por ter comandado a operação militar que recebeu o nome de código “Weser-Übung”, a invasão e conquista de dois países neutros e pacíficos. Em 1955, Raeder, com 79 anos de idade, acabou por ser amnistiado.



O afundamento do Blücher, nas circunstâncias em que se verificou, afectou profundamente o orgulha da marinha germânica que sofreu muitas mais baixas no assalto à Noruega, se bem que tenha também causado importantes estragos na marinha inglesa e alcançou o objectivo estratégico e táctico de conquistar aquele país nórdico. O Blücher era irmão gémeo do Admiral Hipper e fora enviado para a Noruega ainda sem ter feito as últimas provas de mar. Deslocava 14.050/18.200 tons. e estava armado com 8 peças de 203 mm, 12 de 105 mm, 12 de 37 mm, além de tubos lança-torpedos e mais armamento menor. Fazia 32,5 nós com a força das suas turbinas Deschimag e caldeiras Wagner e a blindagem ia dos 30 mm no convés e 80 mm da cintura lateral aos 140 mm das torres de artilharia.



De acordo com muitos historiadores, o objectivo do assalto à Noruega era garantir os fornecimentos de ferro sueco através do porto de Narvique durante o Inverno, o que não parecia demasiado importante dado que o mesmo minério podia ser transportado desde o início da primavera ao fim do Outono pelo Báltico em excesso para garantir as necessidades da indústria bélica no Inverno.



Provavelmente foi uma manobra para flanquear a Grã-Bretanha como no futebol, atacar pelos flancos, já que se verificou pouco antes da invasão relâmpago da França, portanto, numa altura em que os comandos nazis não sabiam que a França iria cair em poucas semanas. Por outro lado, o plano alemão obedecia à teoria explanada pelo Vice-almirante Wolfgang Wegener no seu livro “A Estratégia Marítima da Grande Guerra” no qual criticou o facto de a Alemanha não ter conquistado a Noruega na guerra de 14-18 para evitar o bloqueio inglês e a partir dos muitos fiordes noruegueses travar com êxito uma guerra naval contra a Grã-Bretanha. Ninguém na Noruega e na Inglaterra leu o livro daquele “Mahan” alemão, publicado em 1929, por isso foram todos apanhados de surpresa.
A Noruega revelou-se útil aos nazis para atacarem os comboios britânicos no Árctico que transportavam material de guerra para a resistência soviética à agressão hitleriana, mas não é imaginável que tenha sido esse o objectivo da conquista da Noruega em Abril de 1940, quando o ditador não sabia como iria acabar a invasão da França e criticara no seu livro “O Meu Combate” a guerra de duas frentes travada pelas forças do Kaiser em 14-18.
O assalto à Noruega foi a primeira operação militar coordenada na totalidade entre forças terrestres, aéreas e navais. Mas claro, com muitos erros à mistura, nomeadamente quanto ao reconhecimento aéreo de forças adversas que pouco ou nada foi praticado. A marinha germânica assumiu riscos com perdas tremendas e não pagou mais graças às indecisões dos britânicos.



Cinco forças navais e aéreas atacaram simultaneamente a Noruega, fazendo grande uso de pára-quedistas e tropas aerotransportadas. Oslo, Stavanger, Bergen, Trondheim e Narvik muito ao norte foram os locais escolhidos para os ataques.
Os aliados anglo-franceses organizaram uma expedição a Narvique que ocupou a cidade e expôs os alemães a um grave desastre naval e terrestre que não teve continuidade por os aliados não terem querido arriscar meios aéreos, tornados necessários para a defesa de outros objectivos mais vitais.



Quando o ditador alemão decide atacar a Noruega, Churchill acabava de abandonar um plano para ocupar com dez mil homens o norte da Noruega e decidira-se antes por minar uma parte da costa norueguesa para evitar a utilização das suas águas territoriais pelos submarinos e navios mercantes alemães, o que começou a ser feito no dia 8 de Abril de 1940. Depois voltou à ideia de conquistar o norte da Noruega.



Os alemães utilizaram toda a sua marinha de superfície organizada em cinco formações, fortemente apoiadas por forças aéreas que iam utilizando os aeródromos ocupados previamente por unidades pára-quedistas e por flotilhas de submarinos que estabeleceram um “arco protector”. Não fora a enérgica cobertura aérea, nomeadamente o constante ataque dos “Stukas JU-86” e dos bimotores “JU-88” aos navios e a “Kriegsmarine” teria sido totalmente obliterada.



A força que mais se arriscou foi, sem dúvida, a I., destinada a conquistar Narvique, e que integravam 10 contratorpedeiros da classe 1934, 1934A e 1936 com 2 mil soldados dos batalhões de caçadores alpinos, além dos couraçados rápidos Gneisenau e Scharnhorst para o apoio distante.



O vice-almirante Lütjens, a bordo do Gneisenau comandava a força. Os dois grandes navios couraçados acompanharam os contratorpedeiros até à entrada do Vestfiorden. Este é um longo estreito de umas cem milhas de comprimento entre as ilhas Lafoten e a costa norueguesa que termina muito no interior, precisamente em Narvique. Esse braço de mar começa com uns 90 km de largura e vai estreitando até às centenas de metros. Enquanto os couraçados não entraram naquilo que poderia ser uma ratoeira, navegando para o Árctico numa tentativa de diversão, os contratorpedeiros penetraram até Narvik e desembarcaram os caçadores de montanha sob o comando do general Eduard Dietl. Três outras forças navais alemãs desembarcaram tropas perto de Stavanger, ao sul, em Bergen, mais ao centro, e em Trondheim, mais ao norte. Os trimotores JU-52 num vaivém intenso lançavam pára-quedistas e depois aterravam em aeródromos conquistados com mais forças apeadas.



Mas, a reacção da Royal Navy não se fez esperar, apoiada por algumas unidades importantes da marinha francesa, como o porta-aviões Bearn e alguns grandes contratorpedeiros.



Os couraçados e porta-aviões britânicos começaram por falhar o encontro com as cinco formações navais alemãs que não dispunham de poder bélico para enfrentar as grandes unidades inglesas. No início, só o contratorpedeiro britânico Glowworm da escolta do couraçado Renown viu o cruzador pesado alemão Admiral Hipper à saída de um banco de nevoeiro, quando se distanciara da sua formação em busca de um homem da guarnição que caíra ao mar no âmbito de uma operação de protecção a lançadores de minas. O radar do Admiral Hipper detectou a tempo a presença do Glowworm de 1.335/1.370 toneladas armado de 4 peças de 119 mm e 8 torpedos de 533 mm, pelo que à saída do nevoeiro cerrado disparou quase à queima-roupa com a sua artilharia menor. Mas, valentemente comandado, o Glowworm, depois de disparar os seus torpedos muito à pressa sem atingir o inimigo, abalroou o gigante alemão, causando-lhe um rombo antes de se afundar nas águas gélidas daquele início de primavera quase árctica. Tudo em pleno temporal. Apesar disso, o Hipper não ficou fora de combate. Conseguiu ainda fazer desembarcar tropas em Trondheim para onde se dirigia com quatro contratorpedeiros, apesar de ter metido 500 toneladas de água e navegar com uma inclinação de 4 graus, mas com todo o equipamento vital e armamento a funcionar.



O comandante Roope do navio britânico foi condecorado postumamente com a “Victoria Cross”. O resto da esquadra alemã, nomeadamente a força I, seguiu para o norte sob uma autêntica tempestade com os caçadores alpinos enregelados nas cobertas dos contratorpedeiros e nos tombadilhos, tendo alguns sido arrastados pelas vagas.
A oeste das ilhas Lafoten, perto da costa norte da Noruega, na manhã do dia 9, o couraçado britânico Renown de 32.730 toneladas e 6 peças de 381 mm teve um breve encontro com o Scharnhorst que recebeu três impactos das granadas pesadas britânicas e o Gneisenau que saiu incólume. As blindagens alemãs aguentaram bem, não se verificando avarias de monta no navio alemão, pelo que o almirante Lütjens manteve o rumo de diversão para o Árctico, depois de colocar dois tiros no Renown que também não causaram estragos significativos. Conseguiu assim desviar o poderoso couraçado britânico do fiorde que abria para o porto de Narvique e permitir o desembarque dos enjoados caçadores alpinos alemães. Os contra-torpedeiros alemães entraram no Vestfiord com tudo facilitado. Os noruegueses nem apagaram os faróis de costa e as bóias luminosas de sinalização. Só já no porto de Narvique, o guarda-costas norueguês Eidsvold mandou parar os intrusos, disparando um tiro que acertou no contratorpedeiro germânico Wilhelm Heidkamp, o navio-chefe do comodoro Frierich Bonte. Uma lancha com oficiais foi ao velho guarda-costas pedir licença para desembarcarem. E se esta não fosse concedido, deveria ser disparado um sinal vermelho; o que foi feito. Logo a seguir dois torpedos alemães despacharam para o fundo o velho navio norueguês. Outro guarda-costas, o Norge, ainda abriu fogo sobre os invasores, mas foi logo posto fora de combate pela artilharia dos barcos alemães que, entretanto, atracaram aos cais de Narvique. Tudo correu depois sem novidade porque o 13. Regimento de Infantaria norueguesa, aquartelado naquela cidade, era comandado por um membro da “União Nacional” e amigo do major Quisling, o coronel Konrad Sundlo, que traiu a Pátria não opondo resistência aos menos de dois mil militares alemães desprovidos de armamento pesado, tanques, etc. E em condições meteorológicas que impossibilitava a intervenção da força aérea nazi, de resto, ainda distante daquelas paragens.



A “Royal Navy” não conseguiu impedir os ataques bem sucedidos da marinha alemã que, à excepção de Oslo, fez desembarcar sem grande resistência as tropas que transportava. Mesmo quando os britânicos estavam no mar, falharam sempre o encontro com as colunas alemãs. Só o submarino polaco Orzel, integrado nas forças britânicas, é que detectou o navio de transporte alemão Rio de Janeiro na costa sul da Noruega, mandando-o parar com um tiro da sua peça de artilharia. Não tendo sido obedecido torpedeou-o de seguida. Alarmados, os polacos verificaram que os sobreviventes eram todos soldados alemães em uniforme. Por incrível que pareça, nem as autoridades norueguesas nem o almirantado britânico tiraram as devidas consequências do facto, deixando-se apanhar dias depois de surpresa pelas forças navais alemãs.



publicado por DD às 23:02
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1 comentário:
De Carlos a 3 de Dezembro de 2005 às 17:10
Por aqui vou continuar mais uns dias.
Parabens pelo seu blog
Força


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