Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005
As Duas Esquadras
Jaime I.bmp



Couraçado da Classe ESPAÑA. Cada um dos contendores da guerra civil ficou com um; o das forças rebeldes franquistas, España, afundou-se em abril de 1937 quando embateu com uma mina, enquanto o das forças legais, o Jaime I, sofreu a explosão de um paiol de munições que o deixou muito avariado.




AS DUAS ESQUADRAS

A marinha espanhola antes de iniciada a rebelião de Mola e Franco contra o Estado era no essencial constituída pelos seguintes navios:
Couraçados: España e Jaime I, incorporados entre 1913 e 1921. Fizeram parte de um grupo de três unidades iguais que deslocavam 15.452/15.700 toneladas, mas o primeiro que se chamou España perdeu-se depois de encalhar num fundo rochoso em 1923 ao largo de Marrocos.



Eram navios peculiares, dado serem os mais pequenos couraçados do tipo Dreadnought que se construíram, sendo muito curtos, 132,6 m, porque na época não havia em Espanha docas secas maiores. A economia em tonelagem foi conseguida à custa da blindagem para manter um apreciável poder de fogo proporcionado pelas 8 peças de 305 mm e 50 calibres, 20 de 102 mm e 4 de 76 mm. O arco de tiro era de 270 graus para as 4 peças da proa e popa e de 180 graus para as 4 de bombordo e estibordo, respectivamente.



O "Jaime I" ficou na esquadra leal enquanto que o España foi capturado pelas tropas revoltadas do Regimento de Infantaria 29 na base de El Ferrol.



Cruzadores pesados: Canárias e Baleares, ambos em fase de acabamento na base de El Ferrol, pelo que foram incorporados na esquadra rebelde. Deslocavam 10.113/13.070t, sendo versões modificadas da classe britânica Kent desenhada por Sir Phillip Wats. As modificações que o técnico inglês produziu para a marinha espanhola tiveram a ver com o aumenta da velocidade para 33 nós, conseguida através do aumento da potência das turbinas "Parsons" para 91 mil cavalos, redução do vau do casco em 4 pés e aumento ligeiro do comprimento. A organização das caldeiras em três comprimentos obrigava o navio a ter duas chaminés, mas os engenheiros espanhóis resolveram colocar uma só chaminé aparente que formava um arco na parte inferior, sendo na verdade duas chaminés ligadas a um corpo único no topo, o que dava um ar mais moderno. O armamento principal era constituído por 8 peças de 203 mm e o secundário por 8 de 120 mm AA retiradas do couraçado España e 8 de 40 mm AA, além de metralhadoras e 12 tubos lança-torpedos.



O Canárias foi aprestado à pressa e só conseguiu entrar em combate de surpresa no Estreito de Gibraltar, em Setembro de 1936, porque a marinha portuguesa emprestou um director de tiro de um dos Avisos da classe Afonso de Albuquerque. Provavelmente fez o mesmo para o Baleares, mas a documentação existente só refere o Canárias que entrou em operações navais em Fevereiro de 1937.



Cruzadores da classe Libertad: Libertad, Almirante Cervera e Miguel de Cervantes. Lançados ao mar entre 1925 e 1928, eram excelentes cruzadores também desenhados por Sir Phillip Wats na base dos congéneres britânicos da classe "E".
Deslocavam 7475/9237 toneladas e eram armados com 8 peças de 150 mm/50, 4 de 102 mm/45, 2 de 76 mm AA e 12 tubos lança-torpedos de 533 mm. Quando a liberdade acabou em Espanha, o Libertad passou a ser o Galicia. A marinha legal ficou com o Libertad e o Miguel Cervantes, enquanto que os sediciosos ficaram com o Almirante Cervera.



O Republica (Ex-Reina Victoria Eugenia), completado em 1923 de 5502t de deslocamento normal. O desenho veio da classe britânica Birmingham, mas com as caldeiras arrumadas em três compartimentos, pelo que apresentava um aspecto mais moderno com três chaminés apenas. Fazia 25,5 nós armados com 9 peças de 152 mm, 3 de 76 mm AA e 4 tubos lança-torpedos. Ficou na esquadra franquista, mas estava desarmado quando a guerra começou. Só em 1937, depois do afundamento do Baleares é que foi rearmado para ser um pálido substituto daquele cruzador, naturalmente não com o odiado nome de República, mas sim de Navarra.



O Mendez Nunez de 1924 deslocava 6450t com um desenho oriundo da classe "C" britânica. Fazia 29 nós com 6 peças de 152 mm e 4 de 76 mm AA, além de 12 tubos lança-torpedos. Actuou na esquadra governamental depois de ter estado durante um curto espaço de tempo ao serviço dos revoltosos.



Contratorpedeiros: Classe Churruca de 16 unidades lançados ao mar entre 1926 e 1933. Notáveis navios de 1536/2175 toneladas iguais aos "flotilla leaders" britânicos da classe Scott armados com 5 peças de 120 mm, 1 de 76 mm AA e 6 tubos de 533 mm. Faziam 36 nós com 42 mil cavalos vapor de força. Sete unidades ainda não tinham sido incorporadas à data do início do conflito espanhol mas algumas entraram muito rapidamente em serviço. Todos fizeram parte da Armada do governo democrático.



Classe Alsedo de três unidades de 1145/1315t construídas entre 1922 e 1924 armados com 3 peças de 102 mm/45 e 2 de 76 mm AA, além de 4 tubos de 533 mm. O Velasco foi o único contratorpedeiro espanhol que foi incorporado na esquadra sediciosa. Posteriormente esta recebeu dois contratorpedeiros e dois grandes torpedeiros italianos.



Submarinos: Série "B" de 1921 a 1925 com 6 unidades de 491/715 toneladas de desenho norte-americano Holland armados com uma peça Vickers de 76,2 mm e quatro tubos lança-torpedos. Fazia 10,5 nós em imersão e 16,5 à superfície.
Série "C" de 1927 a 1919 com 6 unidades também de 914/1290 toneladas armados com 6 tubos lança-torpedos e uma peça de 30 mm AA. Faziam 8,4/16 nós.
A totalidade das unidades das duas esquadrilhas de submarinos ficaram nas mãos do Estado, mas de pouca serventia foram, dado que a falta de oficiais tornou os 12 submarinos espanhóis quase inoperacionais. Raramente se atreviam a mergulhar se é que o chegaram a fazer ao longo três anos que durou o conflito.



Para além disso, a marinha espanhola contava com numerosas canhoneiras, pequenos torpedeiros, lança-minas e vedetas de patrulha costeira e vigilância de pescas que ficaram distribuídos pelos dois lados.

OPERAÇÕES NO ESTREITO DE GIBRALTAR

A confusão na direcção do Estado espanhol foi aumentando com a deserção e revolta do exército e sua substituição por milícias ou unidades comandadas por quadros de patente excessivamente baixa e em número muito limitado. Assim, a 5 de Setembro, dá-se uma nova reorganização do Governo, cuja presidência passa para o dirigente do PSOE, Largo Caballero, e as pastas da Marinha e Ar passam para Indalécio Prieto, um socialista moderado. O novo Governo constatou que as forças sublevadas no Estreito de Gibraltar eram constituídas pela canhoneira Cánovas del Castillo, guarda-costas Alcázar e algumas pequenas unidades de patrulhamento ou navios de pesca artilhados em Cádiz, pelo que resolveu levar uma parte importante da frota para o Norte. Aí o dispositivo naval revoltado sob o comando do general Mola era bem mais forte com o couraçado España e o cruzador Cervera, além do contratorpedeiro Velasco e outras unidades menores. Cinco submarinos tinham já sido enviados, mas nada fizeram, sendo mesmo o "B-6" afundado pelos rebeldes que conseguem bombardear S. Sebastian e reduzir muito do abastecimento em armas e munições à recém-formada República Euzkadi ou Basca. Além disso, apoiavam com o seu fogo o avanço das forças do general Mola que conseguiram envolver Euzkadi, cortando-a da fronteira francesa de modo a depender só das comunicações navais. E foi isso precisamente que levou o ministro da Marinha Indalécio Prieto a ordenar o envio da esquadra espanhola para o Norte.



Assim, no Estreito ficaram 4 contratorpedeiros, enquanto o Jaime I com dois cruzadores e cinco contratorpedeiros foi tentar restabelecer o controle naval no Norte.
O comando naval rebelde aproveitou o ensejo proporcionado pelo desguarnecimento relativo do Estreito que ficou só com quatro contratorpedeiros e um submarino para enviar de surpresa os cruzadores Canárias e Almirante Cervera para o Sul. Terminar a construção do Canárias foi um grande esforço e sucesso dos franquistas. Ambos os navios chegaram ao Estreito a 29 de Setembro e apanham de surpresa os navios leais. O contratorpedeiro Ferrandiz é imediatamente afundado pelos tiros de 203 mm do Canárias, enquanto o Cervera ataca o Gravina e o deixa avariado nas superstruturas, mas sem ser apanhado pois escapuliu-se graças à sua alta velocidade.



A partir do fim de Setembro, o Estreito passou a estar controlado pelos revoltosos que fazem assim passar tudo o que restava do Exército de África bem como um número cada vez maior de mercenários marroquinos. Enquanto isto, o ministro da Marinha ordena o regresso da Esquadra do norte, o que não deixou de ser conhecido pelos oficiais revoltosos que tentaram fazer com que o Canárias e o Almirante Cervera interceptassem os navios governamentais. Tal não aconteceu; ambas as formações cruzaram-se na escuridão nocturna sem darem uma pela outra.



Entretanto, o dispositivo naval dos revoltados sofreu em Abril de 1937 uma importante perda, a do couraçado España que embate numa mina frente a Santander e afunda-se quando pretendia apoiar o contratorpedeiro Velasco na captura de um navio mercante.





publicado por DD às 23:55
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