Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005
A Guerra Espanhola no Mediterrâneo
Destryer Churruca.bmp



Contra-topedeiro Churruca de 1536/2087t armado com 5 peças de 120 mm. Deu o nome a uma classe de 15 navios iguais que estiveram quase todos ao serviço da forças legais da República Esanhola por a respectiva base de Cartagen não ser sido tomada pela forças sublevadas.



Com a presença de todos os contendores no Mediterrâneo começou uma guerra naval relativamente intensa em que ambas as partes procuravam bloquear as costas contrárias e dificultar os movimentos da navegação mercante que trazia apoios em víveres, combustíveis, material de guerra e até tropas.



As forças leais ao Estado sofreram logo no início um sério revés com a entrada deliberada e sem declaração prévia da marinha italiana na guerra. Assim, no dia 22 de Novembro de 1936, o submarino italiano Torriceli, sob o comando do capitão de corveta Giuseppe Marcello Zarpellon, consegue torpedear o cruzador espanhol Miguel de Cervantes ao largo de Cartagena, deixando-o fora de combate por um largo espaço de tempo. O Torriceli era um excelente submarino de 970t/1239t armado com 8 tubos para torpedos de 533 mm e duas peças de 102 mm com as quais bombardeou os depósitos de combustível da Campsa em Barcelona, em Fevereiro de 1937. Além deste submarino, também o Galilei, o Ferraris mais outros submarinos operaram no Mediterrâneo contra a Armada Espanhola e zonas costeiras da República Espanhola.



Apesar de o submarino não ser uma arma susceptível de ser muito vista do exterior, as potências signatárias de um pretenso "Tratado de Não Intervenção", desrespeitado por quase todas, acabaram por protestar. As nações democráticas e a URSS assinaram mesmo o chamado "Pacto de Nyon", que proibia o que foi denominado de ataques piratas por submarinos, naturalmente italianos. Isso levou as marinhas inglesas e francesa a patrulharem o Mediterrâneo. Por medo de enfrentar as referidas potências, Mussolini mandou incorporar na marinha de Franco os submarinos Torriceli com o nome de General Sanjurno, o Archimedes com o nome de General Mola, o Galillei com o nome de General Mola II, o Ferraris com o nome de General Sanjurno II.



O primeiro comandante espanhol do General Sanjurno" foi Luís Carrero Blanco que depois como almirante tornou-se no chefe do Governo de Franco até morrer numa rua de Madrid vitimado por uma bomba da Eta. Ao todo, operaram contra a Marinha Espanhola 57 submarinos italianos segundo a lista publicada no livro do insuspeito de Acofar Nassaes em "La Marina Italiana en La Guerra de España". Estes submarinos completaram 1247 dias de campanha em 87 missões nas quais afundaram grande número de navios mercantes, e não só. Isto, segundo dados oficiais do "Ufficio Storico" italiano.



Também operaram contra a Espanha legal, 12 cruzadores e 28 contratorpedeiros, tendo algumas destas unidades provocado importantes baixas à Armada e à Marinha Mercante Espanhola. Saliente-se o afundamento do petroleiro espanhol, o Campeador de 7937t, torpedeado pelo torpedeiro Saetta sob o comando do capitão de corveta Giovanni Cerrina-Ceroni a 12 de Agosto de 1938. O submarino Archimedes, já como General Sanjurno, torpedeou ao largo de Marselha o petroleiro também espanhol Campero de 8400t que ao serviço da Campsa transportava combustíveis líquidos.



Os submarinos Archimedes (General Sanjurno) e Ferraris (Mola 2) ficaram na marinha espanhola, tais como os contratorpedeiros Aquila (Ceuta) e Falco (Melilla) e os torpedeiros Guglieme Pepe (Huesca) e Alesandro Poerio (Teruel). Não eram navios muito novos, mas razoáveis e significaram um precioso auxílio às forças navais dos generais sublevados. Franco conseguiu no mar um apoio muito significativo de Mussolini como de Hitler, além de Salazar que permitiu a passagem de muito material de guerra através do porto de Lisboa em direcção a Badajoz. Os navios mercantes Pedro d'Alenquer e Santa Irene transportaram armas para as forças franquistas.



Com a saída da esquadra espanhola do norte, tornada cada vez menos necessária aí, dada a redução das costas cantábricas em poder do Estado espanhol, a guerra no Mediterrâneo tornou-se mais intensa. O Canárias e o Cervera mantiveram um certo domínio do mar, apesar da inferioridade numérica relativamente às forças da Armada Espanhola. Só que esta era mal comandada e os oficiais actuavam a contragosto. Os navios eram frequentemente sabotados, deixando-os avariarem-se quando não desertavam repentinamente. Por isso, o Governo não conseguia tirar partido do seu potencial, nem dos novos contratorpedeiros que iam sendo incorporados na Armada. Os navios espanhóis ocuparam-se principalmente da protecção dos comboios mercantes que traziam da União Soviética e de outros países material de guerra e produtos alimentares, pagos com as grandes reservas de ouro do Banco de Espanha. Os abastecimentos passavam pelas chamadas linhas de Odessa e Marselha. A esquadra revoltada, apoiada pela marinha de guerra italiana tentou sempre impedir esse abastecimento e bloquear as costas levantinas espanholas, mas sem grande sucesso pelo que muitos dos mercantes acabavam por passar.



Mas, o Canárias era, sem dúvida, um notável cruzador, pelo que aparecia onde queria, apoiando o avanço dos italianos e marroquinos na conquista de Málaga em Fevereiro de 1937 que bombardeou para depois atacar a ilha de Maiorca onde afunda o guarda-costas Marinero Cante e o vapor Manuel e captura o navio-correio Ciudadela. Seguidamente bombardeou as cidades de Almeria e Barcelona. Entretanto, os revoltosos recebem o importante reforço do gémeo do Canárias, o cruzador Baleares que entra em acção no Mediterrâneo no fim de Fevereiro de 1937, passando a actuar com o Cervera a partir da base de Palma de Maiorca, enquanto o Canárias regressa a El Ferrol na Galiza para reparações.



Em Abril, o Cervera é retirado do Mediterrâneo para ir para o Cantábrico apoiar os últimos avanços das forças revoltadas fortemente ajudadas pela "Legião Condor" alemã contra a República Basca. Nessa altura, a "Luftwaffe" ensaia o primeiro bombardeamento de uma cidade, arrasando Guernica, a urbe santa dos Bascos. Em Abril, com o Canárias de regresso ao Mediterrâneo dá-se um primeiro encontro entre as duas frotas frente a Cartagena, mas que não passou de uma troca de tiros entre o Canárias e o Baleares de um lado e o Libertad e vários contratorpedeiros do outro. Os navios espanhóis tinham saído de Cartagena para tentar safar o couraçado Jaime I encalhado numa praia frente a Almeria. Os revoltosos queriam destruir o maior navio espanhol, mas tiveram de se desviar primeiro para Cartagena, a fim de não serem surpreendidos pela Armada Espanhola e com o tempo perdido no desvio e troca de tiros acabaram por chegar muito tarde ao local em que o Jaime I encalhara. Não o encontraram pois o couraçado tinha-se safado pelos seus meios e com o auxílio de alguns rebocadores. O velho couraçado regressou a Cartagena, mas aí sofre alguns dias depois uma inexplicável explosão interna que o afunda. Alguns meses depois, foi posto a flutuar, mas não voltou a entrar em combate, o que foi uma grave perda para a Armada espanhola, depois de ter o cruzador Miguel Cervantes também fora de acção. Restava à Espanha legal o cruzador Libertad e os contratorpedeiros, além do cruzador Mendez Nunez que a partir de Barcelona protegia o acesso da navegação mercante àquele importante porto da Catalunha, entretanto tornada praticamente numa República independente.



O governo da República, nomeia o deputado socialista Bruno Alonso comissário da frota e inicia um trabalho em profundidade no sentido de implementar a disciplina e acabar com as eternas discussões sobre as ordens vindas de Madrid. Claro, a disciplina não repunha o pessoal técnico que faltava nem proporcionou aos oficiais o indispensável espírito de corpo. A guerra civil espanhola transformara-se numa guerra entre as antigas classes dominantes situadas na extrema-direita e aqueles que supunham defender o proletariado na extrema-esquerda, enquanto o Estado assistia impotente ao desabar da sua autoridade, servindo só para organizar os abastecimentos que as diferentes unidades armadas tinham de receber para combaterem na frente e fazerem a revolução que agradava a cada uma; anarquista na Catalunha, comunista noutros locais e socialista em parte alguma. As classes médias estavam entre os dois fogos e, no fundo, não desejavam a vitória de nenhum dos bandos, queriam só a Espanha legal e democrática. A essas classes médias pertenciam a maior parte dos tenentes de navio e capitães de corveta obrigados a comandar os navios, muitas vezes sem possuírem a experiência e competência técnica indispensáveis. As avarias raramente se reparavam como sucedeu com o contratorpedeiro Almirante Antequera que permanece três meses em Casablanca a reparar avarias nunca devidamente explicadas.



Com a nomeação do capitão de corveta Frederico Monreal para comandante da Flotilha de contratorpedeiros, a situação começou a melhorar, dado o intenso trabalho de treino a que submeteu as respectivas guarnições. Os contratorpedeiros passam a sair com mais frequência, conseguindo proteger das "garras" do Baleares e do Canárias muitos navios mercantes que demandavam Barcelona e Valência, quase sempre à custa de importantes trocas de tiros que causavam estragos nos contratorpedeiros espanhóis. Por isso, os cruzadores revoltados tentam apoderar-se dos navios mercantes com destino a Espanha mais longe das costas espanholas, o que obrigou a Armada a fazer sair os cruzadores Libertad e Méndez Nunez para proporcionar um maior apoio de tiro pesado aos contratorpedeiros, cujas peças de 120 mm não faziam frente ás de 203 mm do Baleares e do Canárias.



Em Setembro, os dois cruzadores espanhóis travam uma batalha a 30 milhas a oeste do cabo Cherchel, na costa argelina. O Libertad e o Mendéz Nunez abrem fogo a 16 mil metros contra o Baleares que recebe dois tiros de 150 mm, um a bombordo e outro na chaminé que causou muitas baixas. Do incêndio então provocado não resultou a destruição do navio porque um soldado de infantaria de marinha retirou as cargas que estavam em vias de serem atingidas pelas chamas e atirou-as à água até ser ele mesmo atingido pelo fogo e morrer das queimaduras. Outros combates se seguiram com maior e menor sucesso, nomeadamente um em que o Canárias consegue afastar os contratorpedeiros espanhóis, apanhando os navios mercantes que faziam parte de um comboio.






publicado por DD às 22:35
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