Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 8 de Outubro de 2005
Fim do Orgulho Alemão e Revolução de Novembro de 1918

"Vamos disparar as nossas últimas duas mil granadas", arengou o comandante do couraçado alemão Thüringen no dia 28 de Outubro de 1918 à guarnição formada no convés, acrescentando: "e iremos para o fundo com a bandeira desfraldada". Toda a esquadra alemã de alto mar estava reunida na baía do Jade, oficialmente para manobras, mas as guarnições reconheceram que não era isso de que se tratava, mas antes da tentativa de travar um combate desesperado na Mancha que aliviasse as condições impostas pelos aliados ao pedido de armistício enviado pelo governo imperial alemão ao presidente Wilson dos EUA. Iniciaram um movimento de resistência primeiro que degenerou rapidamente em revolta.



Já no dia anterior, 27 de Outubro, quando os cruzadores de batalha Derflinger, Moltke, Seydlitz e Van der Tann receberam ordens para largar as amarras dos cais de Wilhelmshaven, as guarnições atrasaram a saída dos navios, principalmente pela não comparência a bordo, salientando-se a falta de fogueiros. Só no Van der Tann faltaram 100 homens: No cruzador Strassbourg 45 chegadores de fogo ficaram em terra, pelo que o navio teve de acender as fornalhas com o pessoal do tombadilho, muitos dos quais voltaram a apagá-las e chegaram mesmo a tentar afundar o navio com a abertura de algumas válvulas de fundo.



No dia seguinte, o pessoal marinheiro e os chegadores de fogo recusaram içar as âncoras do couraçado Markgraf e acender as fornalhas, enquanto no König se formou o primeiro conselho de soldados e marinheiros. No couraçado Friederich der Grosse, ainda no mesmo dia, o pessoal suspendeu a estiva do carvão. No dia 29 de Outubro, já grande parte das guarnições se encontravam em estado larvar de amotinação. O Thüringen, o Helgoland e o Markgraf estavam imobilizados. Nos dois últimos navios foram mesmo içadas as primeiras bandeiras vermelhas. Os oficiais não estavam a ser obedecidos e não tinham a disposição para fazer cumprir as suas ordens com os tradicionais métodos de disciplina militar em situação de guerra. Apesar disso, mais de mil marinheiros foram, entretanto, encarcerados e a infantaria de marinha ocupou várias unidades, enquanto as guarnições fiéis de torpedeiros e submarinos colocavam-se em posição de fogo. Todavia, nada foi suficiente; a esquadra não podia combater com a marinhagem presa e, menos ainda, fuzilada se a justiça militar fosse aplicada.



A impotência da oficialidade da esquadra e a generalizada insubordinação deveu-se fundamentalmente ao facto de o marechal Ludendorff, o comandante-em-chefe das forças terrestres alemãs, ter declarado cerca de um mês antes, a 29 de Setembro, a guerra como perdida. Todo aquele verão foi negro para o exército alemão, apesar de reforçado tardiamente com as forças da antiga frente leste na sequência do acordo de Paz de Brest-Litovsk firmado com os bolcheviques de Lenine que se tinha apoderado do poder na Rússia.



As duas batalhas do Marne, em Maio e Julho de 1918, marcaram a viragem da guerra a favor dos aliados, consolidada que foi com a batalha de Amiens a 8 de Agosto de 1918, de St. Mihiel iniciada a 12 de Setembro e, por fim, Meuse-Argonne que entre 26 de Setembro e 11 de Novembro acabou com o grande saliente alemão em território francês e abriu as portas da própria Alemanha às forças aliadas cada vez mais fortes com a presença maciça dos americanos.



Para além disso, a esquadra britânica tinha sido reforçada com seis couraçados norte-americanos a carvão, o Florida, o Utah, o Arkansas, o Texas, o Arizona e o Delaware. Por sua vez, os britânicos incorporaram nos fins de 1917 dois novos cruzadores de batalha, os poderosos Courageous e Glorious armados com quatro peças de 381 mm e capazes de fazerem 32 nós.



Nos últimos meses, a guerra no mar limitou-se à actividade dos submarinos, cada vez mais confrontados com as poderosas defesas dos aliados que, entretanto, se organizaram em comboios. Isto, para além do episódio de Zeebruge, um notável feito de armas que levou os britânicos a afundar de propósito os três velhos cruzadores Intrepid, Iphigenia e Thetis carregados de cimento e explosivos no canal que liga a cidade belga de Bruge ao porto de Zeebruge por onde passavam os pequenos submarinos alemães da classe UB que atacavam a navegação aliada no Canal da Mancha. A operação decorreu entre 22 e 23 de Abril de 1918 e contou com o efeito de surpresa e o "eterno" nevoeiro daquelas paragens.



Os britânicos surgiram de repente e, enquanto o aviso Daffodil de 1.200t atacava o molhe, um grupo de assalto desembarcava no mesmo molhe do porto de Zeebruge, vindo do cruzador Vindictive de 5.750t de 1900 para atacar as guarnições dos canhões de 150 mm que defendiam a zona. Essa parte da operação foi bem coordenada com a acção do submarino C-3 carregado de explosivos que foi largado junto aos pilares do viaduto que liga a terra ao molhe. Depois de recuperada a guarnição por vedetas rápidas, o submarino explodiu de modo a inviabilizar o acesso dos reforços. Ao mesmo tempo, os cruzadores Thetis, Iphigenia e Intrepid entravam na rada protegida pelo molhe, afastando as redes de barragem do porto. As guarnições foram em grande parte recuperadas e regressaram no Vindictive, deixando para trás 214 mortos e 383 feridos.



A operação foi um êxito relativo dado que bloqueou o porto até ao dia 14 de Maio quando os alemães voltaram a fazer passar os seus submarinos pelo canal. Uma operação idêntica contra o porto de Ostende falhou logo à partida porque os alemães deslocaram as balizas de entrada do porto, levando os britânicos a afundarem o "blockship" Brillant, uma milha a leste do local de passagem dos torpedeiros e submarinos germânicos.
Estas duas acções heróicas tiveram o efeito de completarem a prostração moral dos alemães, conseguida mais com o bloqueio naval e a inerente escassez de víveres e quase tudo no interior do país do que com guerra nas frentes. Na realidade, as referidas operações poucos resultados deram, em termos práticos, como de nulo efeito foram as muitas ofensivas terrestres desencadeadas pelos britânicos no sentido de atingirem as costas da Flandres e libertarem a Mancha de submarinos, torpedeiros e lança-minas alemães. A "Royal Navy" não conseguiu uma vitória decisiva contra as forças navais alemãs, mas, como escreveu o comandante Richmond, "a guerra tem que ser vista como um todo e não se deve ter os olhos fixados sobre a esquadra alemã, mas o que devemos fazer é esfomear e destruir a Alemanha".



Nas frentes de batalha, a Alemanha perdeu dois milhões de jovens, enquanto na retaguarda epidemias e fome provocaram a morte de mais umas quatro milhões de pessoas. A classe dominante alemã perdeu de repente a sua tradicional arrogância e resolveu sair da cena política e militar.



Ludendorff envia a 28 de Setembro um memorando ao chefe do governo Conde von Hertling, dizendo que as forças sob o seu comando estavam em vias de sofrerem uma derrota total, pelo que o Governo deveria ser imediatamente remodelado com a entrada de ministros da esquerda SPD (Social-democrata) para numa base alargada iniciar conversações de Paz com os aliados. No mesmo dia, o ministro dos Negócios Estrangeiros almirante von Hintze e o chanceler imperial (chefe do Governo) deslocaram-se a Spa e em conferência com o generalato alemão decidiram-se por uma chamada "revolução de cima" que, por um lado, justificasse as desonrosas negociações de Paz e, por outro, evitasse um levantamento aos modos dos bolcheviques.



Nessa altura, já o alto-comando alemão tinha percebido o erro que foi a revolução de Outubro na Rússia liderada por Vladimir Ilitch Lenine, mas totalmente arquitectada e financiada pelos serviços secretos militares imperiais alemães. Para o efeito, foram buscar Lenine e mais umas centenas de apaniguados à Suíça e largaram-nos às portas de Petrogrado com armas, munições e muito dinheiro, depois de os fazerem atravessar todo território alemão no célebre "comboio selado". De barco, fizeram-nos atravessar o Báltico para desembarcarem secretamente na Finlândia, então um grão-ducado sob o domínio imperial da Rússia.



Segundo os generais e políticos alemães, o novo Governo deveria ter um cariz credível e apelar directamente ao presidente norte-americano Thomas Woodrow Wilson no sentido de aceitar e negociar a proposta de Paz baseada em 14 pontos, apresentada anos antes. Partiam do princípio que os Estados Unidos não tinham interesses territoriais na Europa e como potência nascente não estariam demasiado interessados num bloco anglo-francês excessivamente forte e dominante.



O Imperador foi posto ao corrente da situação tida como inadiável e curvou-se às exigências dos seus generais, decretando a 30 de Setembro a parlamentarização do Governo com a demissão do chanceler. Ao mesmo tempo, o próprio Imperador informava os dois países aliados da Alemanha, a Turquia e a Áustria, que iria iniciar negociações de Paz na base dos 14 Pontos de Wilson. Ludendorff queria que o pedido de armistício fosse feito a 1 de Outubro, mas só no dia 3 é que foi possível obter o apoio dos partidos Social-democrata, Liberal e Popular Progressista para a formação de um governo sob a chefia do príncipe Max von Baden, tido como liberal e opositor da guerra, apesar de ser um membro da casa reinante da Baviera e familiar do próprio Imperador. Os socialistas do SPD não quiseram ir “tirar as castanhas do lume” e ficarem como bodes expiatórios do imenso desastre provocado pela classe dominante dos “Junkers”, aristocracia latifundiária, e alta burguesia empresarial à Pátria alemã e acabaram só por aceitar uma participação minimizada a nível de secretários de Estado.



Ainda antes de o novo Governo estar totalmente formado, reuniram-se os ministros empossados pelo parlamente na noite de 3 para 4 de Outubro e enviaram directamente ao presidente Wilson uma nota a aceitar o Plano dos 14 pontos. A 14 de Outubro veio a resposta do presidente Wilson. Esta exigia em primeiro lugar o fim da guerra submarina, o cessar das hostilidades em França e na Bélgica, bem como a retirada de todo o território não alemão e a abdicação imediata do Imperador Guilherme II.



Ludendorff não queria aceitar tal clausulado, principalmente a última parte e tentou demover o Governo para reiniciar a guerra com uma total mobilização popular. Para o efeito queria o apoio dos socialistas SPD do senhor Ebert. O ministro da Guerra comprometia-se a fornecer mais 600 mil homens até à Primavera do ano seguinte. O novo Governo alemã responde a 20 de Outubro que não aceita a abdicação do Imperador e, a 24 do mesmo mês, Wilson insiste nessa exigência. Ludendorff declara-se indisponível para tal e a 26 de Outubro é demitido pelo Governo que nomeia o general Groener para o seu lugar. A 27 de Outubro, o Governo pede ao presidente Wilson que defina concretamente as propostas para um imediato cessar-fogo, enquanto nos altos comandos terrestres e navais preparava-se uma grande ofensiva. Mas, as demarches tornaram-se conhecidas de civis e militares e já em muitas fábricas os operários e operárias cada vez mais esfomeados recusavam-se a trabalhar. Os espartaquistas saídos da ala esquerda da social-democracia alemã sob a liderança de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht apelavam a uma revolução nos moldes da bolchevique. A movimentação das massas obrigara o governo a libertar Liebknecht que chega a Berlim a 23 de Outubro onde é recebido por uma grande manifestação de uns vinte mil trabalhadores. O revolucionário alemão tinha sido preso em 1916 por no dia 1 de Maio desse ano ter pedido negociações de Paz. Tinha tido razão pois nessa data teria sido possível encontrar uma solução honrosa para ambas as partes.



Foi pois nestas condições, com os vários pedidos de cessar-fogo já nas mãos do presidente Wilson que as guarnições dos navios alemães se recusaram a sair para travar um combate desastroso que nunca iria modificar o destino da Alemanha, derrotada que estava em terra e sem forças suficientes no mar. Nessa altura, a guerra submarina tinha cessado e o Almirantado alemão esperava utilizar os submarinos para evitar o acesso ao Canal da Mancha da poderosa esquadra anglo-americana. Pretendia-se sair para o mar a 28 ou 29 de Outubro, tendo sido neste último dia que o Imperador Guilherme II saiu de Berlim com a consequente demissão de qualquer função política prática, culminada com a abdicação a 9 de Novembro e fuga para a Holanda. Dias antes, a 4, o marechal Hindenburg ordenou a retirada geral dos exércitos alemães em direcção ao Reno depois de linha Hunding ser rompida pelos aliados. A 7 de Novembro, os plenipotenciários solicitam directamente ao Marechal francês Foch o armistício que é assinado em Rethondes a 11 de Novembro de 1918.



Não pode dizer-se que o papel dos revoltados “chegadores de fogo” dos couraçados alemães tenha sido diferente do que foi assumido pelo Imperador desde Setembro quando se remeteu a um completo silêncio governativo.



Dois dias depois da fuga do Imperador, a Esquadra e toda a Alemanha estava em ebulição revolucionária. A guerra no mar e em terra terminava por completo. A 3 de Novembro começava efectivamente a revolução com o levantamento dos marinheiros em Kiel para conseguir a libertação dos camaradas presos dias antes. Para além desse objectivo foi conseguida a conquista da cidade e base naval com a aceitação por parte do respectivo governador, almirante Suchon, do poder dos conselhos de soldados e operários. A 4 de Outubro, o Governo conseguiu nomear o Social-democrata Noske para o posto de governador e assim acalmar as massas em revolução, mas nos dias seguintes, o processo revolucionário estendeu-se por quase toda a Alemanha.



publicado por DD às 01:07
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