Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005
Os Portugueses na I. Guerra Mundial
Augusto Castilho_.jpg



Caça-minas Augusto de Castilho ao lado do U-139 depois da batalha com o escaler á popa onde navegaram os sobreviventes da refrega.



O Herói e o Ás

O comando do primeiro cruzador-submarino alemão, o U 139 de 1930 / 2483 toneladas, foi atribuído ao maior ás da respectiva arma, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére que trouxe consigo o seu inseparável e experiente comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr. Foi, talvez, o último dos submarinos alemães a travar combate com os inimigos do Império Alemão até ao dia 24 de Outubro de 1918 em que recebeu a mensagem rádio para cessar toda a actividade bélica e regressar à base. As três unidades desta classe foram, sem dúvida, os submarinos mais poderosos da marinha alemã, equipados como estavam com duas peças de 150 mm e um telémetro retractável, exemplar único em submarinos, além dos 6 tubos para a dotação de 19 torpedos.



Foi este U-139 que enfrentou, na madrugada de 14 de Outubro de 1918, o pequeno caça-minas português Augusto de Castilho, apetrechado com duas minúsculas peças, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. A denominação de caça-minas revela bem a natureza da unidade enquanto navio de guerra. Na verdade, tratou-se antes do vapor de pesca Elite com cerca de 500 toneladas de deslocamento médio, accionado por uma máquina a vapor de tríplice expansão, requisitado pela marinha de guerra e comandado primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, oficial tão abnegado como heróico que não teve medo de enfrentar o gigantesco U-139 com os seus 100 metros de comprimento.
Naquele dia fatídico, o navio português escoltava o paquete S. Miguel que seguia da Madeira para os Açores com 206 passageiros, entre os quais mulheres e crianças. O caça-minas tinha já escoltado de Lisboa para o Funchal o paquete Beira e, como a autoridade marítima da ilha não permitiu o desembarque da guarnição antes do período de quarentena, dado que em Lisboa grassava a peste, Carvalho Araújo ofereceu-se para fazer a escolta ao S. Miguel e assim aproveitar de uma forma útil os "dez dias da tabela" em que os seus homens teriam de ficar encerrados no vapor bélico. Depois, voltariam ao Funchal com direito a deambularem pelo morro da cidade.



A canhoneira Mandovi, escalada para a protecção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de Dezembro do ano anterior pelo também cruzador-submarino U-156. O comandante do Augusto de Castilho preferia a actividade e navegação à estadia contemplativa de guarda a um porto. Era um oficial brilhante e de uma nobreza de carácter perfeitamente equiparável à do seu ex-comandante almirante Leote do Rego, então exilado em França. Carvalho Araújo era um republicano e democrata convicto que aliava o pundonor militar aos ideais da liberdade e do bem-estar do povo, pelo que era detestado pelo ditador pan-germanófilo Sidónio Pais que o queria ver o mais longe possível de Lisboa e a bordo do mais pequeno dos navios.



Carvalho Araújo tinha estado com o batalhão de marinha na frente do sul de Angola em guerra com os alemães muito antes da entrada oficial de Portugal no conflito, pois como é sabido, as forças alemãs do Sudoeste Africano, hoje Namíbia, entraram em 1914 pelo sul de Angola e chegaram a Naulila, onde destroçaram a pequeníssima guarnição portuguesa num acto absolutamente ilegal, já que não existia então um estado de guerra declarado entre os dois países. Bateu-se como pôde, o então tenente Carvalho Araújo, na sua qualidade de segundo comandante do batalhão, até ter de ser retirado devido a doença malárica que o incapacitou. Mas, naturalmente, um oficial de marinha como Carvalho Araújo estava mais à vontade a sentir as brisas do mar que em terra sob o ardente sol africano.



Ao comando do seu caça-minas, Carvalho Araújo percorreu mais de 7 mil milhas e deu escolta a 22 comboios durante 20 meses de serviço de guerra. Quando chegava ao porto de Brest, escoltando navios com tropas do Corpo Expedicionário Português, fazia os possíveis para regressar imediatamente e iniciar novo serviço útil ao país. Como oficial, era um trabalhador incansável, capaz de se manter na ponte durante horas e horas a fio.



O encontro com o gigantesco submarino-cruzador deu-se pelas duas da madrugada, como escreveu Kurt von Piotr no seu relatório do combate artilheiro: "Estava de guarda no quarto do meio e havia um luar claro quando às 2.00 da madrugada avistei duas embarcações, uma maior e um vapor mais pequeno que o comandante, entretanto chegado à torre, resolveu atacar a tiro de canhão. Levámos três horas a aproximarmo-nos dos dois navios que tentavam escapulir-se com quanta força tinham as suas máquinas. Pelas 5.00 da madrugada, o comandante deu-me licença para abrir fogo, o que fiz com a peça de 15 cm de vante, apontando-a para o vapor mais pequeno, por tomá-lo como o navio escolta".



Carvalho Araújo já tinha tomado a decisão de enfrentar o inimigo para permitir a fuga do S. Miguel, apesar de o U-139 estar a disparar a uma distância totalmente fora do alcance das pequenas peças do Augusto de Castilho. Toda a guarnição correu para os seus postos de combate. Fogueiros e chegadores esforçavam-se até às últimas consequências para atingir os 10 nós, enquanto os marinheiros levam mais cunhetes para as peças e caixas de fumo para atirar à água e fazer fumo de encobrimento, caso seja necessário retirar, ajudados nessa tarefa pelos três passageiros militares e outros quatro civis, todos impedidos de desembarcarem no Funchal pela leis da quarentena.



O imediato, o jovem guarda-marinha Manuel Armando Ferraz, dirige o tiro, correndo da peça da proa para a da ré. Ambas eram disparadas a olho, pois o pequeno Augusto de Castilho não possuía telémetro. Enquanto isto, o U-139 disparou um primeiro tiro contra o escoltador português que não acertou e um segundo contra o paquete que cai a 10 metros da proa do S. Miguel. Os dois tecnocratas da guerra alemães, De La Priére e Von Piotr, estavam no seu meio. Ambos tinham uma predilecção pelo combate artilheiro e sabiam estar em condições de superioridade, pelo que podiam poupar os torpedos que restavam. Julgavam mesmo que o problema seria resolvido em instantes; até trouxeram para a torre uma máquina de filmar. Queriam fixar no celulóide a morte daqueles portugueses perdidos e praticamente indefesos em pleno Atlântico para a glória posterior de um "Reich" que pouco mais teria afinal do que umas parcas semanas de existência.



A terceira granada do U-139 rebenta na amura de estibordo do Augusto de Castilho, como relatou o sargento-ajudante Luís Simões em artigos publicados posteriormente no Diário de Notícias e reproduzidos pelo escritor e director da Biblioteca Nacional, João Palma Ferreira, na sua obra memorialista "Viagens, Fantasias & Batalhas".



Vendo o S. Miguel prestes a ser atingido, o bravo Carvalho Araújo ordena ao seu timoneiro que aproe directamente ao submarino, o que levou La Priére a mandar fazer marcha à ré, enquanto dispara salva sobre salva contra o pequeno pesqueiro a vapor. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do caça-minas, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloy de Freitas. A cabine do telegrafista desfez-se quase ao mesmo tempo que a peça de vante é posta fora de acção. Ficou só o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Entretanto, o S. Miguel vai-se afastando mais, daí a pouco estará fora do alcance dos canhões do U-139. Mesmo assim, os artilheiros do caça-minas não desarmam; continuam a disparar e o seu navio a receber granada sobre granada. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do Augusto de Castilho morta ou ferida. Do S. Miguel já nada se via. Por ordem de Carvalho Araújo, o sargento Simões ainda vai disparar o último cunhete sobre o submarino alemão que se encontrava a curta distância. Esgotado o último cartucho, o U-139 ainda dispara contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República.



Carvalho Araújo não quis ir para o fundo com uma bandeira branca, por isso foi atingido por uma das últimas granadas que explodiu junto ao local em que se encontrava na cabine de comando. O herói cai no convés, morto, enquanto o imediato fica gravemente ferido.
Terminado o fogo pelas 08.30, os sobreviventes lançam a custo o escaler salva-vidas ao mar, fazendo-se a ele cheio de gente. O resto do pessoal, sob o comando do guarda-marinha Ferraz muito ferido, totalizando vinte homens tentava, quase sem o conseguir, pôr a baleeira na água. Os do salva-vidas ainda tentaram ajudar, mas receberam ordens com armas apontadas do submarino alemão para se afastarem imediatamente do local. Os sobreviventes desesperavam; não conseguiam mover a baleeira, pelo que aproveitaram um bote que estava dentro do picadeiro, mas também sem o conseguir. Por fim, 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço. Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses e, depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e bóias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo apareceu e, ajudado por uns camaradas, começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram. Tiveram o consentimento dos alemães, mas não permitiram que os náufragos portugueses levassem um sextante e uma bússola. Obviamente, temiam que aparecesse algum navio das esquadrilhas aliadas de S. Miguel, entretanto avisadas pelo paquete português e não queriam o local e o rumo do submarino devidamente assinalado. Os alemães limitaram-se a apontar a direcção da ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à ponta do Arnel na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas. Foi um autêntico martírio e esforço inaudito, a viagem por mais de duzentas milhas em seis dias quase sem água nem mantimentos. Eram 12 náufragos, dos quais 8 estavam feridos, sendo que um morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no Augusto Castilho, entre eles, o do bravo comandante Carvalho Araújo que quando soube que as munições estavam no fim disse ao imediato: -"Deixá-lo! Morro como português". O artilheiro Von Piotr ainda escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".



Este foi, sem dúvida, o episódio mais saliente da esforçada presença da marinha portuguesa na I. Guerra Mundial. O segundo terá sido o combate travado no Rovuma por parte da guarnição do cruzador Adamastor contra os alemães. Para além disso, a guerra naval travou-se principalmente em termos de longas escoltas a navios mercantes que transportavam tropas para Africa e França, bem como às operações do batalhão de marinha.



Ao contrário do que disseram durante décadas os detractores e inimigos do regime republicano e da democracia, nomeadamente os salazaristas, Portugal não entrou na I. Guerra Mundial por capricho dos seus governantes, nem sequer de livre vontade. As autoridades republicanas não tinham é certo conhecimento das propostas de acordo secreto feitas pela diplomacia britânica aos alemães, mas tinham a percepção clara que existiam tais propósitos. Num dos últimos protocolos diplomáticos, datado de 1913, os ingleses ofereciam as colónias portuguesas e mais qualquer coisa como o Império Holandês, por exemplo, em troca de um amplo acordo sobre armamentos navais que pusesse fim à corrida naval travada quase desde o início do Século entre as duas potências. Por outro lado, a França fizera idêntica proposta à Alemanha, oferecendo o Congo Belga à eventual gula colonial alemã. Só que os alemães não sabiam ao certo o que queriam; as colónias dos outros ou os grandes espaços russos. Em Africa, talvez só as minas de ouro e diamantes do Transval lhes interessavam, mas isso os ingleses não largavam. Sorte para Portugal foi não terem conhecimento dos diamantes da Lunda. E depois do começo da guerra, os governantes republicanos passaram a temer ainda mais uma "paz branca" entre as potências em conflito, na qual as colónias das pequenas nações europeias seriam imoladas.




A Incrível Reparação dos Navios Mercantes Alemães




A entrada oficial de Portugal na I. Guerra Mundial efectivou-se no dia 9 de Março de 1916 em consequência da declaração de guerra da Alemanha a Portugal. Esta era uma resposta à requisição dos navios mercantes alemães surtos em portos portugueses desde que se iniciara o conflito. O governo da República tinha preparado juridicamente o acto com a publicação dos decretos 2229 e 2236. Assim, a 24 de Fevereiro de 1916, pela manhã, forças da marinha tomaram conta de todos os navios ancorados no Tejo. Só que os alemães tinha recebidos ordens para sabotar os navios, deitando à água as válvulas distribuidoras das máquinas de vapor. Estas peças são de difícil produção, pelo que os alemães acreditavam que os portugueses não seriam capazes de as fabricar e, assim, pensaram neste tipo de sabotagem, em vez da tradicional abertura das válvulas de fundo. As válvulas foram previamente amarradas em picadeiros inclinados à borda, pelo que bastaram os golpes de faca para as levar para o fundo do rio e enterrarem-se no lodo. Foram ao todo 74, os navios de alto mar mandados requisitar pelo Governo da República e ninguém acreditava que os estaleiros e oficinas navais lusos fossem capazes de desenhar e executar novas válvulas com toda a perfeição e em pouco tempo. A engenharia naval portuguesa mostrou-se extremamente competente nas casas onde os trabalhos foram realizados, nomeadamente na H. Parry & Son, Parceria de Vapores Lisbonenses, Vulcano & Colares, Empresa Industrial Portuguesa e outras. Poucos meses depois, os navios ex-alemães estavam a navegar, uns ao serviço de Portugal que assim compensava algumas unidades mercantes perdidas no norte da Europa devido à acção de submarinos alemães. Outros ao serviço do esforço de guerra britânico.



Alguns desses navios integraram a marinha de guerra portuguesa como o Gil Eanes que começou por ser um cruzador auxiliar armado com duas peças de tiro rápido de 76 mm, uma em cada bordo do castelo, uma peça de tiro rápido de 65 mm Hotchkiss e quatro semi-automáticas de 47 mm para acabar depois da guerra como um prestável navio de apoio aos marinheiros e pescadores que aos mares do Gronelândia iam pescar o "fiel amigo", prometido, em plena guerra, a patacos pelo ditador Sidónio.



A sua arqueação era de 1.775 toneladas brutas. À velocidade normal fazia 10,5 nós e era um navio muito sólido e bem construído, tendo sido integrado na "Divisão Naval de Defesa e Instrução", um conjunto de unidades navais organizado por portaria de 5 de Julho de 1915 com Leote do Rego como comandante embarcado e grande organizador e que muito contribuiu para a defesa das costas portuguesas e escolta dos muitos navios que transportaram tropas para Angola, Moçambique e França. Para a "Divisão Naval" foram mobilizados 3 cruzadores, 3 contratorpedeiros, 1 aviso, 6 canhoneiras, 2 cruzadores auxiliares, 3 torpedeiros, 4 submersíveis, 12 caça-minas e 4 patrulhas. A armada portuguesa contava com cinco cruzadores pequenos, mas dois estavam quase sempre destacados para o ultramar.





O Adamastor no Rovuma



O pequeno cruzador Adamastor de 1757 toneladas e ligeira protecção de aço de 10 a 25 mm, armado com 2 peças de 150 mm, 4 de 105 mm e 2 de 37 mm, foi o navio mais andarilho da Armada. A 16 de Dezembro de 1915 foi desligado da Divisão Naval de Defesa para largar do Tejo com destino à Índia Portuguesa, fazendo rumo pelo Cabo da Boa Esperança. Assim, o Adamastor escalou o Cabo Verde, S. Tomé, portos angolanos e a Cidade do Cabo. A 11 de Fevereiro de 1916, o Adamastor entra em Lourenço Marques. Como, entretanto, a Alemanha tinha já declarado guerra a Portugal, a primeira missão do pequeno cruzador foi a de apresar os navios alemães refugiados naquele porto português do Índico. A seguir, navegou para a Beira e Ilha de Moçambique com idêntica missão, comboiando depois para Lourenço Marques o paquete "Portugal" que transportava as tripulações alemãs aprisionadas.



A 29 de Abril, o cruzador Adamastor recebe ordens para dirigir-se à fronteira norte da colónia. As autoridades da República tinham preparado secretamente uma expedição para ocupar o "triângulo" de Quionga, uma porção de terreno situada na margem sul da foz do Rovuma que os alemães ocuparam em 1892, apesar de pelo Acordo de 1886 ter sido estabelecido o rio Rovuma como fronteira entre a colónia portuguesa de Moçambique e a então denominada África Oriental Alemã, hoje Tanzânia. A 10 de Abril, forças portuguesas ocupam o referido território de 45 mil hectares e estabelecem vários postos militares ao longo da nova fronteira.



Foi uma arrojada acção militar que apanhou os alemães de surpresa, mas que não podia deixar de culminar na tentativa de atravessar o Rovuma e desmantelar as posições alemãs, a fim de que a colónia portuguesa não fosse atacada pelas tropas do general Von Letow com três mil europeus e uns 11 mil africanos que fazia uma guerra napoleónica de movimentos, subtraindo-se ao contacto do inimigo anglo-belga a norte e a oeste sempre que a situação não fosse propícia para atacar onde não era esperado.



A 20 de Maio, o Adamastor fundeia na enseada de Palma, junto ao Cabo Delgado, onde se encontra com a canhoneira Chaimite. Ambos os navios seguiram de imediato para a baía do Rovuma com o objectivo de apoiarem a coluna do coronel Moura Mendes, reforçada com marinheiros dos dois navios, na tentativa de atravessar o rio e ocupar o chamado posto da Fábrica, onde se supunha estar o grosso das forças alemãs, sob o comando do capitão Loof, o ex-comandante do cruzador Königsberg e que trazia consigo uma peça de 105 mm do seu navio, afundado no delta pantanoso do Riffifi.



Como escreveu Maurício de Oliveira em "Os Cruzadores na Marinha Portuguesa", "confiava-se demasiadamente na fraqueza numérica dos efectivos europeus alemães e na circunstância de as tropas inglesas estarem a atacar a colónia de N para o SE e de W para E, enquanto tropas belgas, saídas do Congo, atacavam também de W para E".
Continua o fundador da Revista de Marinha: "A primeira operação, com características de reconhecimento, principiou na tarde de 21 de Maio, quando duas embarcações a vapor do Adamastor, armadas cada uma com uma peça de 37, rebocando escaleres e baleeiras, armadas, estas, com metralhadoras, se afastaram rio acima, enquanto os canhões de 105 do Adamastor bombardeavam a margem alemã, donde não vinha qualquer reacção. O guarda-marinha Maia Rebelo , com um sargento e seis marinheiros, saltou em terra, na margem inimiga e passou uma busca ao posto da Fábrica que se encontrava abandonado."
Dois dias depois, o guarda-marinha Rodrigues Janeiro é recebido com um nutrido fogo alemão quando sondava o rio na procura de um enfiamento adequado à passagem de uma coluna de desembarque portuguesa. As duas embarcações dos guarda-marinhas Prestes Salgueiro e Maia Rebelo abriram fogo sobre o inimigo, travando-se um duro combate em que os três jovens oficiais se portaram com inegável valentia, enfrentando a peito descoberto as metralhadoras alemãs. Três marinheiros morreram em combate e outros tantos ficaram feridos.



A presença de forças alemãs postadas a pouca distância do posto da Fábrica não fez desistir os militares portugueses que, a 27 de Maio, reiniciaram o ataque, com o apoio dos tiros de flagelação da peça de 150 mm de vante do Adamastor e das duas peças de 105 mm dos redutos de bombordo. Ao mesmo tempo, a coluna militar embarcava nos escaleres dos navios de guerra e numa jangada. A bordo do cruzador, o governador da colónia, Major Álvaro de Castro, observava o evento bélico. Aquela tentativa acabou em desastre militar; de novo os alemães, ocultos no matagal, romperam com um fogo intenso contra os três escaleres lusos sob o comando dos guarda-marinhas que antes se tinham coberto de glória militar. Muitos militares foram mortos ou feridos, tanto da Armada como do Exército. Rodrigues Janeiro cai mortalmente ferido ao rio e é levado pela corrente; o outro guarda-marinha, Maia Rebelo, também tomba ferido no rio, mas é salvo a tempo e levado para o Adamastor, enquanto o guarda-marinha Prestes Salgueiro tenta salvar a operação, encorajando os soldados para atravessarem para a outra margem, mas ao ver aí uma bandeira portuguesa a agitar-se freneticamente como que a pedir socorro, nadou para a margem e encontrou o tenente Ferreira do Exército, muito ferido. Colocou-o sobre as suas costas e trouxe-o a nada com a bandeira verde-rubra para a Namaca, no lado português do rio. O dia acabou no braseiro em que começara; na tolda do Adamastor soaram as badaladas tristes do "toque das Trindades" em memória dos mortos, depois de a guarnição em formatura ter ouvido uma sentida saudação do comandante Freitas Ribeiro ao sacrifício e heroísmo dos que naquele dia tombaram pela Pátria. Havia amargura e tristeza, mas no regime republicano, os militares nunca se envergonharam dos seus heróis mortos nem os esconderam da opinião pública.



Cerca de quatro meses depois, a operação "travessia do Rovuma" foi repetida; agora com melhor preparação, mas ainda com o apoio exclusivo dos canhões do Adamastor e da Chaimite, conseguindo-se alcançar o objectivo de penetrar na Africa Alemã. O Adamastor, entretanto foi integrado numa força naval anglo-portuguesa destinada a vir em reforço de zonas costeiras em vias de serem atacadas por forças alemãs que penetravam ao longo do Niassa para o interior do território moçambicano e daí para a costa. Quando o navio estavam atracado para reparações, o pessoal da guarnição participava nalgumas operações. As forças portuguesas tinham chegado a ocupar Quivambo e o planalto do Nevala na Africa Alemã, mas foram obrigadas a retirar-se devido à reacção violenta das tropas do comandante Loof que ameaçavam cortar as comunicações em Nevala.



Acossados na sua colónia, as forças europeias e africanas do general Von Letow penetram profundamente em Moçambique por Montepuez, atingindo o Alto do Molocué e chegando a Namacurra, a 40 quilómetros de Quelimane. Aí encontram uma resistência muito forte do lado anglo-português. O cruzador Adamastor foi destacado à pressa para Quelimane, onde recebeu mais de 100 mil libras de bancos e casas comerciais da cidade que assim punham a recato os seus haveres. Atitude que se revelou desnecessária já que os alemães não chegaram àquele porto português, acabando mesmo por se retirar quase derrotados.



Mas, como aconteceu com as marinhas de numerosos países beligerantes, o grosso da sua actividade consistiu mais na execução de tarefas ditas secundárias, mas extremamente importantes na mesma. Saliente-se a protecção de costas e portos e a escolta a navios mercantes, actividade na qual a pequena marinha de guerra portuguesa se notabilizou, tanto no último combate contra o cruzador submarino U 139 como em inúmeras missões anónimas, mas de êxito dado terem garantido a chegada dos transportes escoltados aos portos de destino.








publicado por DD às 23:42
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