Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 11 de Abril de 2009
A Bóia de Salvação

 

pg

 

            Homem ao mar” – gritou o mestre no bico da proa, enquanto agarrava a bóia de salvamento e a atirava ao “Migalhas” que esbracejava desalmadamente para se manter à tona de água com a pesada vestimenta de pescador. O “Migalhas” quis desensarilhar o cabo da rede, engatado na roldana, e caiu ao mar com o golpe da onda. Apesar de ser um bom nadador, a surpresa da queda e o peso dos impermeáveis deixaram-no a gesticular e a sorver o líquido salgado. Os pulmões encharcados não permitiam já a oxigenação. O “Migalhas” estava a ver a vida a andar para trás, a alma das suas memórias parecia querer extinguir-se, recordando-lhe a sua infância, tudo em poucos segundos. As forças abandonavam-no quando viu o vermelho da bóia de salvação. De repente, tudo se alterou no oceano dos seus ainda jovens neurónios, era preciso agarrar aquela bóia, nada mais passou a existir naquele cérebro já falho de oxigénio; umas braçadas, um esforço final e a mão apanhou um dos cabos da bóia de cortiça. O “Migalhas” salvava-se ao agarrar com todas as suas forças a bóia que o não deixava ir para o fundo. A cabeça emergiu, espirrou a água que inundava as fossas navais e começou a respirar. O bote da traineira aproximava-se rapidamente na ondulação violenta. Muitas mãos puxaram-no para cima a cuspir água salgada. Fora salvo por aquele objecto simples do quotidiano dos homens do mar que não é lembrado por ninguém, a não ser em situações de grande aflição como a vivida pelo “Migalhas”, o jovem inexperiente e bem humorado pescador da traineira “Olhos de Água”.

            Por incrível que pareça, um cortiço redondo ou em forma de ferradura não é um objecto tão antigo assim. Não era conhecido nas naus e caravelas, nem depois nas fragatas veleiras, brigues, escunas, etc. Quem caía ao mar por lá ficava, a vida humana antigamente não tinha muito valor, apesar dos muitos serviços que todos prestavam às comunidades, tanto a bordo como em terra. Além dos escaleres e das jangadas que se aprontavam antes dos naufrágios, nada havia para salvar vidas humanas, isto, a fazer fé nas publicações coevas que de tal objecto nada dizem. Foi preciso esperar pela passagem do Século dezoito para o dezanove para ver um tal Spencer inglês, enobrecido com o título de “Knight” (Cavaleiro), receber de uma muito britânica “Royal Humane Society” uma medalha de prata por ter inventado um anel de salvação constituído por uma mangueira redonda de lona oleada com 800 rolhas de cortiça no seu interior. O suficiente para salvar vidas no mar, segundo um estudo de um doutor John Wilkinson sobre as interessantes características de flutuabilidade da cortiça, isto em 1765, como reza uma enciclopédia marítima, mas só no ano de 1848 é que se vai encontrar num manual de utilização da bóia de salvamento de náufragos, intitulado “Carte’s self-acting Life Buoy”, as seguintes instruções: “agarrar com as duas mãos, enfiar a cabeça no centro, endireitar-se e acenar com uma das mãos. Mas, levou ainda algum tempo para que a bóia entre nos regulamentos para o Serviço a Bordo dos Navios de Guerra de 1874 – Artigo 168, como nos diz o dicionário de H. Leitão e V. Lopes – em que se prescreveram o uso de bóias de cortiça. Na Alemanha Imperial foi preciso esperar pelo ano de 1891 para ver as bóias em todos os navios, pintadas de branco e vermelho, além dos coletes de salvação, igualmente em cortiça envolta em lonas. A partir dessa data, as bóias e coletes passaram a ser obrigatórios em quase todas as embarcações do Mundo.

            Segundo uma das mais recentes versões da Convenção Internacional para a Protecção da Vida Humana no Mar, o número de bóias de salvação é determinado pelo comprimento dos navios; até 60 metros, 8 bóias, para cima de 240 metros o convés deve apresentar 30 bóias com um diâmetro mínimo de 80 cm e uma espessura de, pelo menos, 4 cm, devendo aguentar as chamas durante 4 segundos.

            Enfim, um objecto simples do quotidiano náutico que, como tantos outros que nos rodeiam, não é muito antigo, apesar de que, pela sua simplicidade, podia ter sido inventado no tempo dos fenícios ou antes.

 

 Publicado na Revista de Marinha Nº 824.

 



publicado por DD às 23:32
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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Para que servem os NRP Tridente e NRP Arpão

 

 

            A aquisição de duas fragatas holandesas muito modernas com baixa assinatura radar e excelente equipamento de combate a juntar às três “Vasco da Gama” e a próxima chegada a Portugal dos dois submarinos NRP “Tridente” e NRP “Arpão” (U-209PN) vieram proporcionar à Marinha de Guerra portuguesa um excelente poder militar.

            A Espanha possui armamento naval muito superior. Contudo, na leitura de certos blogs militares do país vizinho, verifica-se que está a causar um engulho muito grande a presença dos dois U-209PN (U-214) naquilo que para a Marinha espanhola foi sempre o seu mar e para os portugueses é naturalmente o mar português que se estende à vasta zona exclusiva marítima dos Açores e da Madeira. Os espanhóis escrevem algumas vezes que as águas territoriais portuguesas são a ponte marítima entre o Norte e o Sul da Espanha, sendo, por isso, vitais para os interesses castelhanos.

            Além disso, para a Marinha Espanhola, Portugal foi sempre um pequeno país pobre e coitadinho, apesar de estar no trigésimo lugar entre os mais ricos per capita no Mundo num universos de quase 200 nações.

            Portugal mostrou já que foi capaz de conter o défice e construir condições para o investimento público. Claro, a crise económica e financeira mundial veio alterar a situação, mas neste campo, os países mais avançados estão a sofrer muito mais que Portugal.

            Não devemos esquecer que da grande crise e depressão de 1929-39 resultaram duas guerras importantes para Portugal, a guerra civil espanhola de 1936-39 e a II. Guerra Mundial de 1939-45. Em ambas, Portugal não foi envolvido porque possuía uma liderança forte e o país estava unido, mesmo que à força, mas isso blindou Portugal das influências e apetites estrangeiros que poderiam atirar o País para uma guerra que não era a sua e de que sairia sempre muito prejudicado, principalmente em vidas humanas.

            Alguns sinais de uma possível ameaça espanhola começam a ser vislumbrados hoje, traduzida na forma agressiva como empresas de comunicação social, inteiramente detidas por capitais espanhóis, leia-se Prisa, procuram desestabilizar a governação portuguesa e impedir que o País venha a ser dotado de uma liderança forte que não se vergue a medos patológicos. As pátrias subsistem ao longo de séculos com sacrifícios pessoais e raramente só com benefícios imediatos. Perdida ou reduzida uma independência é que se vem a saber qual o custo dessa perda. O medo é sempre o maior inimigo de um povo.

            Os dois novos submarinos serão, sem dúvida, respeitados por qualquer submarino nuclear de ataque norte-americano como os da classe “Los Angeles” muito ruidosos ou da nova classe “Virgínia” muito simplificados.

           

            Há quem diga que duas unidades são poucas, mas a verdade é que a manutenção dos U 209PN é mais rápida e simples, como dizem os especialistas, e se o ideal de ter três unidades não foi conseguido, as duas representam já algo.

            Pelas suas características de silêncio absoluto, quase nula assinatura sonar e capacidade para navegarem em profundidade durante um largo tempo sem serem detectados por navios ou submarinos adversos, os U 209PN serão verdadeiros “guerrilheiros” do mar, temíveis por poderem atacar submarinos, navios de superfície e mesmo importantes alvos terrestres.

            Curiosamente, a detecção deste tipo de submarinos por forças adversas baseia-se não na procura do ruído que não fazem, mas antes na ausência de ruído, isto é, num chamado “buraco de silêncio” relativamente ao ruído habitual dos peixes no mar, o que pode ser evitado pela emissão de ruído marítimo gravado no submarino.

 

            Os novos submarinos poderão impedir o apoio marítimo a uma tentativa independentista dos arquipélagos da Madeira e dos Açores que poderão procurar noutros lados os apoios financeiros que o Continente pode não estar em condições de dar. E não têm faltado ameaças de, pelo menos, um governo regional.

            Os EUA teriam sempre interesse numa Madeira e nuns Açores independentes que se tornariam em seus protectorados. Uma Espanha também teria o mesmo interesse, principalmente se Portugal estivesse desgovernado por falta de uma maioria parlamentar ou por lutas intestinas muito graves.

Numa situação dessas, do exterior poderia não haver invasão, mas apenas “apoio humanitário” em medicamentos e, porque não, armas como mísseis anti-navio e anti-aéreos embalados em caixotes com o emblema da Cruz Vermelha Internacional, embarcados num navio mercante. O torpedeamento ou obrigação de paragem de navios “humanitários” faria mudar a situação radicalmente sem que as marinhas estrangeiras estivessem interessadas num combate. É que os meios bélicos próprios para o combate não servem sempre para isso sob o ponto de vista político. Uma coisa é a “ajuda humanitária”, outra coisa é o combate em águas territoriais de outro país. O inverso não é o mesmo. A nação jurídica tem todo o direito de travar combate seja contra quem for no seu território ou no mar adjacente e o direito internacional não o pode impedir.

            Os dois submarinos são um instrumento do direito do Estado português que pode ameaçar todo e qualquer contraventor desse mesmo direito e podem impedir a tempo uma situação do tipo Kosovo. Nenhum marinha estaria à vontade nos mares insulares, sabendo da presença de um terrível e invisível inimigo.

            As forças armadas de um pequeno país destinam-se a obrigar um agressor a travar combate. Esse facto é intolerável no âmbito do direito internacional, apesar de nem sempre ser bem sucedido.

            Recorde-se que apoios “humanitários” do tipo referido não têm faltado no Mundo desde 1945 até hoje.

            A crescente desorganização da União Europeia devido à crise leva-nos a imaginar o seu quase desmembramento. Actualmente, cada nação trabalha por sua conta. Já não há disciplina na zona Euro e ninguém sabe o que fazer. O proteccionismo instala-se e pouco falta para surgirem apetites bélicos para desviar as atenções dos 30 a 40 milhões de desempregados que poderão ser registados até ao fim do ano corrente.

            A tão morosa unidade europeia pode desaparecer de um dia para o outro e ser substituída por eixos como o de Paris-Berlim e, porque não, Paris-Berlim-Madrid. Esse sim, muito perigoso para Portugal a oeste e para a Polónia a leste.

           

           

            Mesmo fora de um cenário europeu. Os dois submarinos ultra-silenciosos podem intervir para a defesa de cidadãos e interesses portugueses na Guiné, por exemplo, apesar de que as actuais fragatas serão aí suficientes como se verificou no passado relativamente recente. Mas uma unidade submarina pode fazer desembarcar mais facilmente uma pequena força de fuzileiros para libertar portugueses, salvar um chefe de Estado ou observar de perto certas situações ameaçadoras. Os dois submarinos não servem verdadeiramente como arma de agressão, mas apenas como arma defensiva e psicológica com poder real.

            Num país com uma certa força aérea, a presença invisível de submarinos portugueses poderia servir também como arma psicológica na defesa de cidadãos portugueses e interesses se acontecesse uma profunda alteração política anti-Portugal ou anti-Europa.

            Nessa situação, o bloqueio psicológico ou real de um porto poderia levar a soluções pacíficas sem causar vítimas ou prejuízos para ambas as partes e serenar os ânimos belicosos, fazendo imperar o bem senso e o respeito mútuo.

             No contexto actual de crise económica, uma Paz tida como garantida até agora pode repentinamente deixar de o ser. Mesmo um país como Portugal não pode descurar a posse de forças verdadeiramente operacionais, mesmo que em número limitado. Mais importante que o número é, sem dúvida, a dupla operacionalidade dos homens e do material moderno.

 

O registo contabilístico da despesa com a compra dos dois submarinos vai afectar um pouco o défice orçamental em 2010. Como estes navios são entregues a Portugal em 2010, o Governo é obrigado, segundo o Eurostast, a registar nesse ano os 973 milhões de euros, com juros incluídos, gastos na sua aquisição. Como o custo dos submarinos representa 0,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), em 2010, o défice das contas públicas aumentará de 0,4 por cento, previsto no Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), para 0,9 por cento.

A preço de contrato, os submarinos custaram 779 milhões de euros. Acresce 194 milhões em juros. Total: 973 milhões. Em 2010 estima-se que o PIB seja de 180 mil milhões. Assim, uma despesa de 973 milhões implica a subida do défice previsto para 0,9%. Claro, com a actual crise, as contas públicas de todos os países do Mundo, sem excepções, estão a sofrer profundas alterações.

 

            Para o Ministro das Finanças, a alteração exigida pelo Eurostat não se pode aplicar à compra destes submarinos porque isso representaria um efeito retroactivo, dado que a decisão de Bruxelas é posterior à compra dos submarinos.

            Os submarinos serão pagos ao longo de vinte anos num misto de crédito/leasing, pelo que a influência nas despesas públicas de 2010 é quase virtual.

            Mas é curioso que uma empresa que adquira bens de equipamento não pode contabilizar o custo total dos mesmos num só ano, pelo terá de considerar os períodos de amortização legais que variam conforme os bens em causa. Porque razão a Comissão Europeia resolveu exigir algo de diferente?

 

 

http://www.pressebox.de/uploads/images/131673_200_160.jpg                                          

 

 

Principais características dos NRP Tridente e Arpão:

 

Deslocamento

1 842 t (à superfície)
2 020 t (em imersão)

Comprimento

68 m

Boca

6,35 m

Calado

6,6 m

Propulsão

2 geradores AIP Siemens Sinavy (BZM-120) com 240 kW – células de combustível -
2
motores diesel MTU 16V396 TB-94 com 6,24 MW
1 motor elétrico Siemens Permasyn com 2,85 MW
1 eixo

Velocidade

12 nós (à superfície)
20 nós (em imersão)

Autonomia

1 200 milhas náuticas

Profundidade

350 m

Armamento

Sistema de lançamento para 6 misseis Harpoon UGM 84 e 12 torpedos

Sensores

Sistema de gestão de dados de combate Atlas Elektronik ISUS 90
Radar de navegação Kelvin Hughes KH-1007 (F)

Tripulação

33

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por DD às 17:56
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