Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Tempestades no Mar


publicado por DD às 23:47
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Domingo, 1 de Abril de 2012
O Titanic Afundou-se há 100 anos

h 

 

 

 

Pelas 22 horas do dia 14 de Abril de 1912, os marinheiros do HMS Titanic Reginald Lee e Frederik Fleet subiram ao mastro oco de vante para a plataforma de vigia onde deveriam contemplar o horizonte durante duas horas, mas sem binóculos, pois os mesmos tinham sido fechados à chave no armário do segundo oficial Blair que pouco antes do navio zarpar de Liverpool foi substituído por outro oficial e esqueceu-se de informar onde os tinha colocado. Blair achava que os referidos instrumentos eram demasiado valiosos para estarem na ponte de comando ao serviço de qualquer um e, menos ainda, na plataforma cimeira de vigia nas mãos de simples marinheiros.

 

Posteriormente, nos tribunais marítimos de Nova Iorque e de Londres, Fleet declarou que com os binóculos poderia certamente ter vislumbrado o iceberg a uma distância superior aos quase 500 metros (500 jardas) como o viu à vista desarmada, apesar de ter sido escolhido pelo armador pela boa visão e só trabalhar em dois turnos diários de duas horas para evitar distrações. Pela mesma hora, o primeiro-oficial Murdoch assumia o controle do navio na respetiva ponte.

 

 O navio mais famoso da época e maior com 53 mil toneladas de deslocamento, acionadas por 29 caldeiras a vapor que desenvolviam 46.000 cavalos-vapor nas suas três hélices, navegava então no paralelo 42º N (ao nível de Caminha) à velocidade de 20 nós, queimando 850 toneladas de carvão por dia.

 

O Capitão Edward John Smith queria chegar a Nova Iorque em 5 dias sem navegar à velocidade máxima porque uma greve dos mineiros britânicos, à partida do navio, não permitiu à empresa armadora White Star adquirir todo o carvão necessário para encher os seus paióis de combustível. Então, o navio navegava numa zona em que os grandes icebergs seriam raríssimos, apenas pequenos bloco de gelo poderiam chegar tão a sul, daí não ter ligado muito aos telegramas recebidos de outros navios a dar conhecimento de terem avistado um grande iceberg.

 

Nesse tempo, o telégrafo sem fios era ainda uma novidade e os dois telegrafistas do navio nem eram funcionários do armador, mas sim da empresa Marconi que os instalou no navio com a respetiva aparelhagem para fazer dinheiro com os telegramas que os passageiros mandavam ou recebiam.

O que Smith não sabia era que pouco antes, em Janeiro, o sol, a lua e a terra tinham estados alinhados numa reta e a lua aproximou-se tanto da terra como só acontece uma vez em 1.400 anos, o que provocou marés muito altas nos meses seguintes e deslocamentos mais rápidos e prolongados de icebergs para sul, apesar da temperatura atmosférica estar então nos 7ºC. Isto de acordo com um estudo publicado recentemente na revista norte-americana “Sky & Telescope”.

 

 Nessa hora fatídica, o navio atravessava a “fronteira” entre a corrente do Golfo e a do Labrador, pelo que se deveria ter formado à superfície uma certa neblina que dificultasse a visão do iceberg, mas não é certo. A verdade é que às 23.40, o marinheiro Fleet vê uma enorme massa negra à sua frente e de imediato faz soar a sua sineta de alarme e telefona para a ponte a dizer ao oficial adjunto que está a ver qualquer coisa que lhe parece um iceberg. Poucos segundos depois vê com mais nitidez uma enorme massa de gelo com uns 20 metros de altura a uns 457 metros de distância como observou logo a seguir o primeiro-oficial Murdoch, um navegador experimentado com um raro instinto para a medição de distâncias a olho. Imediatamente ordena “leme a bombordo” para desviar o navio para a esquerda e dá ordens à casa das máquinas para pararem todas menos a que alimenta os geradores elétricos e a bomba de água, mas isso leva algum tempo e a distância era demasiado curta relativamente ao iceberg para conseguir passar-lhe ao lado, pelo que o Titanic abalroou a bombordo, fazendo seis rombos de pequena envergadura que não somaram mais de 1,2 metros quadrados e metendo chapas para dentro que só se desmantelaram ao fim de anos a 3.800 metros de profundidade, segundo os registos sonar feitos nas últimas décadas.

 

A água começou por encher 6 compartimentos estanques e com a inclinação para a frente foi passando por cima das anteparas pelas partes superiores abertas e pelas vigias quando os outros compartimentos estanques se enchiam. Segundo especialistas e estudiosos do naufrágio, poderia ter sido melhor aproar o iceberg, o que acarretaria alguns mortos na proa até à segunda antepara, mas o tempo de manobra terá sido de pouco mais de 30 segundos, pelo que não havia cabeça para pensar. 

 

Depois soube-se que os rebites do navio não eram todos iguais. Na proa eram de ferro não maleável enquanto em certas zonas do costado em aço duro. Na altura o aço era caro e havia falta de rebites por causa do grande volume de construções navais bélicas em curso. Desde o couraçado Dreadnought em 1905-6 até 1912, a Grã-Bretanha construiu 21 grandes cruzadores de batalha e couraçados, além de dezenas de cruzadores e centenas de outros navios. Quando o Titanic abalroou o iceberg tombaram toneladas de gelo sobre o convés superior, mas sem que a maior parte dos passageiros desse por isso, dado que estavam todos no interior e ninguém passeava fora ao frio. Os telegrafistas enviaram o sinal CQD que queria dizer “atenção, oiçam”. Ainda não tinha sido inventado o sinal SOS e poucos navios tinham telégrafo sem fios.~

 

O engenheiro construtor naval Andrews, que desenhou o navio e dirigiu a sua construção, estava a bordo e calculou logo que o navio se afundaria em cerca de duas horas. O referido engenheiro tinha planeado a instalação de 48 baleeiras, mas o armador achou que eram a mais e reduziu-as para 16, a fim de libertar espaços para o convés de passeio para os passageiros. Pouco antes de zarpar, a White Star ainda comprou dois mil coletes de cortiça, mas, à temperatura a que estava a água, nenhum náufrago se aguentava vivo mais do que alguns minutos na água. O curioso é que enquanto o navio se afundava, a orquestra de bordo continuava a tocar para acalmar os passageiros e num sentido de que seriam pessoas desprezíveis, empregados de segunda classe, apenas músicos, que morreram tal como a maior parte da tripulação à exceção de alguns oficiais. O capitão Smith foi com o navio para o fundo.

 

Durante as operações de embarque nas baleeiras e em duas balsas, não houve cenas trágicas, toda a gente se portou com uma calma olímpica. O navio levava no fundo a “escória da sociedade”, ou seja, emigrantes pobres, tripulantes maquinistas e fogueiros que foram dos primeiros a afogarem-se nas águas. Nos conveses intermédios iam classes médias das quais algumas pessoas sobreviveram e na parte superior iam as classes ditas altas, nomeadamente milionários e vigaristas que queriam conhecer os ricos. Estes últimos foram os que se safaram logo sem preconceitos e com um extraordinário instinto de sobrevivência. Dos 2200 passageiros e tripulantes sobreviveram 700 que conseguiram lugar nas baleeiras e foram recolhidos na manhã seguinte pelo paquete Carpathia e depois pelo Frankfurt e outros. O número de mortos ascendeu a 1500, a maior parte de hipotermia na água a tentarem alcançar as baleeiras que se afastaram rapidamente.

 

O Titanic está hoje a 3.800 metros de profundidade e foi descoberto em 1985 pelo cientista Dr. Ballard com o seu submarino telecomandado. O navio está partido em duas partes distanciadas entre si em 600 metros, sendo que uma das partes está aparentemente bem conservada. A grandes profundidades há pouco oxigénio, pelo que os navios não enferrujam com rapidez, mas cobrem-se de bactérias descobertas precisamente nos restos do Titanic pelo que foram denominadas de “Halomonas titanicae” e consomem o ferro, admitindo-se que dentro de poucos anos o que resta do navio entre completamente em colapso. Entretanto foram retiradas muitas peças do navio, incluindo um par de sapatos que deve ter pertencido a um cadáver que desapareceu; ficaram só os sapatos. 

 

 

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