Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quarta-feira, 20 de Junho de 2007
Estratégias e Tácticas Navais no Início da I.Guerra Mundial

A estratégia naval dos dois principais contendores marítimos da I. Guerra Mundial era praticamente nula e, a existir qualquer esboço de doutrina naval, esta não correspondia minimamente aos meios criados. No fundo, as duas imensas esquadras deveriam travar uma batalha decisiva, tipo Trafalgar, só que o custo do dispositivo militar foi tão elevado que ninguém quis arriscar.

 

 Os ingleses mandaram nas primeiras horas do conflito o grosso da esquadra para os fiordes do norte da Escócia e Scapa Flow, já nas ilhas Orcadas, o mais longe possível da frota alemã do mar alto. Os alemães, por seu lado, não se atreveram a sair para o mar, pensavam em desgastar a marinha britânica com pequenas escaramuças navais e pela acção dos submarinos e minas para depois, numa eventual situação de superioridade, travar a sua batalha decisiva.

 

 Tanto Fisher, o primeiro Lorde do Mar (equivalente a chefe de Estado Maior da Armada) como Churchill, o primeiro Lorde do Almirantado (ministro da Marinha) defendiam a tese que o domínio dos mares significa ter uma Armada capaz de num dado momento e num dado local bater o inimigo principal, neste caso a Alemanha. Daí terem concentrado as suas forças nas Ilhas Britânicas para enfrentar a Esquadra alemã se resolvesse sair para os mares.

 

De resto, o termo I. Guerra Mundial adoptado pelos historiadores após a II. Guerra em vez de Grande Guerra não é inteiramente adequado, já que a I. Guerra foi, sem dúvida, uma guerra europeia em que fora de Europa a actividade bélica foi de importância secundária e irrelevante para o próprio desenrolar do conflito. A participação do Japão ao lado dos aliados franco-anglo-americanos foi quase simbólica e a Turquia é tanto uma nação europeia como asiática que não conferiu à I. Guerra uma verdadeira dimensão mundial como aconteceu na II.

 

Como já foi dito anteriormente, os ingleses detinham uma superioridade numérica considerável relativamente aos alemães em quase todos os tipos de navios, até mesmo nos submarinos, dos quais a Grã-Bretanha dispunha de 80 unidades no dealbar do conflito, enquanto os alemães só possuíam 38. Depois, durante a guerra, os ingleses construíram mais 250 unidades e os alemães mais 300. Além disso, lançaram-se em programas de construção de grande número de destrutores indispensáveis para enfrentar a ameaça submarina, aumentando a sua vantagem inicial de mais 130 unidades para mais 277 ao longo do conflito. Neste total não estão contabilizadas as perdas de ambos os lados que, sendo apreciáveis, não desequilibraram a relação de superioridade britânica.

 

As primeiras escaramuças navais levadas a cabo pelos ingleses foram-lhes favoráveis, mas mostraram que não seria fácil enfrentar a frota alemã sem grandes perdas, pelo que Jellicoe decidiu que a haver combate, este deveria ser travado o mais longe possível das bases alemãs e o próximo das bases no norte da Escócia, para as quais a Armada Britânica regressou depois de um curto prazo de "internamento"  nas águas interiores entre a Grã-bretanha e a Irlanda, com medo da ameaça submarina. No sector norte do mar do mesmo nome, os alemães não poderia actuar com o apoio dos seus lança-minas e submarinos, pelo menos em grande número.

 

Apesar da política de mútua contenção, houve algumas sortidas, como que para mostrar aos contribuintes de ambos os países que as fortunas gastas em meios navais não foram inúteis para o desenrolar do conflito. Assim, a 3 de Novembro de 1914, os cruzadores de batalha do almirante alemão Franz Hipper bombardearam Yarmouth, a sul da Inglaterra, com o cuidado necessário para que a "Grand Fleet" não chegasse a intervir. O raid foi bem sucedido nesse aspecto, se bem que de pouco valor militar. Entretanto, os russos conseguem apanhar os códigos secretos da marinha germânica, encontrados no casco do cruzador Magdeburg, afundado pelos seus torpedeiros no Báltico. O almirantado britânico recebeu uma cópia, pelo que passou a ter conhecimento prévio de muitos movimentos das esquadras alemãs, através da Sala 40 do Almirantado onde actuavam os sistemas de escuta da TSF e os respectivos decifradores. Foi assim, que o almirante inglês Jellicoe conseguiu saber da pretensão do seu colega alemão Ingenohl de ordenar a 16 de Dezembro de 1914 um novo ataque às ilhas britânicas.

 

Os alemães enviaram cinco cruzadores de batalha; o Derflinger de 26.180t e o Von der Tann de 19.000t foram bombardear Scarborough e Whitby, enquanto o Seydlitz de 24.594t e o Moltke de 22.616t atacaram Hartlepool. Os grandes couraçados alemães deveriam seguir os cruzadores de batalha, mas foram devolvidos à procedência quando os alemães encontram os destrutores britânicos, julgando que tinham de se bater com toda a "Grand Fleet". A batalha esteve quase para acontecer, já que os britânicos avançavam com quatro cruzadores de batalha e oito Dreadnoughts, além dos cruzadores ligeiros. Quase encurralados entre as grandes unidades britânicas, a costa inglesa e os campos de minas, portanto em vias de verem a sua retirada cortada, os cruzadores de batalha alemães retiraram-se e só não sofreram um desaire porque no navio-almirante de Beatty, o Lion, houve um erro de transmissões que não permitiu o choque das duas formações.

 

 

 

 



publicado por DD às 20:35
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