Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Domingo, 17 de Junho de 2007
O Aventuroso Destino do Emden

O cruzador Emden era igual ao Dresden e estava nos mares do Oriente desde 1909, navegando entre a China e as ilhas alemãs do Pacífico; participou mesmo na submissão dos povos nativos de Ponape, nas Carolinas, em revolta contra o colonialismo alemão.

 

Dias antes de eclodir a I. Guerra Mundial, precisamente a 30 de Julho de 1914, o Emden recebeu um rádio a ordenar um alerta máximo; o navio estava em Tsing-Tao, a cidade chinesa que os alemães arrendaram nas costas do Mar Amarelo.

O comandante Von Müller decidiu logo fazer-se ao mar, pois não queria ser surpreendido no porto como aconteceu à frota russa no vizinho Porto Artur.

A 3 de Agosto, o Emden captura o navio russo Rjasan e leva-o para Tsing-tao onde é armado em cruzador auxiliar sob o nome de Kormoran para fazer guerra de corso. Entretanto, o Emden reabastece-se com todo o carvão que poderia transportar e larga as amarras a 6 de Agosto para se juntar à esquadra de Von Spee que, por essa altura, pairava ao largo das ilhas Marianas. No encontro que teve com o almirante alemão, o comandante Max von Müller convenceu-o que poderia fazer uma excelente guerra de corso no Indico contra os navios britânicos, enquanto a esquadra de Von Spee tentaria chegar à Alemanha através do Cabo Horn.

 

Müller foi autorizado a fazer guerra por sua conta e, como tal, confundir os ingleses quanto ao verdadeiro rumo da esquadra de Von Spee. Navegou para o Índico, mas antes disso tentou encontrar-se com um navio carvoeiro ao largo de Timor, o que não foi possível, sendo obrigado a utilizar os stocks de carvão de um navio auxiliar que o acompanhava. A 27 de Agosto, o Emden passou pelo estreito de Lombok que separa a ilha de Bali da de Lombok naquilo que então eram as Índias Holandesas e hoje a Indonésia, entrando no Índico pela costa sul de Java e Samatra, ao largo do arquipélago das Mentawai.

 

Com umas lonas, a guarnição do Emden confeccionou uma falsa chaminé para dar a impressão que se tratava de um cruzador de 4 chaminés britânico da classe Town. Uma segunda tentativa de reabastecimento combinado com um navio carvoeiro falhou, o que foi um grave contratempo, já que por entre as ilhas das Índias Neerlandesas, o Emden navegava a grande velocidade durante o dia e de luzes apagadas à noite. Por isso foi obrigado a tirar o carvão dos navios que capturava, mas o que não faltavam eram navios carvoeiros que transportavam a boa antracite inglesa para todos os portos do planeta.

 

A 10 de Setembro conseguiu apanhar um navio grego cheio de carvão, o que lhe permitiu seguir para as costas de Ceilão, capturando aí o vapor britânico Indus, a partir do qual conseguiu reabastecer-se com algumas "utilidades" como sabão que já tinha acabado há muito a bordo do Emden. Depois afundou quatro outros navios e transportou para bordo as respectivas tripulações, cujo número tornou-se insuportável. Assim, ao ver um navio neutro italiano tentou fazer o transbordo dos seus involuntários passageiros, o que foi recusado pelos italianos que, entretanto, avisaram pela rádio um navio britânico que navegava nas proximidades. Não podendo perder muito tempo, o Emden afastou-se e encontrou o navio inglês Kabinga para o qual transferiu os seus duzentos e tal prisioneiros. Depois rumou para as costas indianas do golfo de Bengala, onde bombardeou as instalações petrolíferas do porto de Madrasta, seguindo novamente para a ilha de Ceilão, ao sul da qual apresou e afundou dez navios inimigos, entre os quais o carvoeiro Buresk. Com os paióis de carvão bem atestados e sabendo que a esquadra inglesa o procurava por toda a parte, atravessou rapidamente o Índico para chegar a Diego Garcia, no Arquipélago de Chagos ou Laquedivas, onde foi muito bem recebido pela população que não tinha tido conhecimento que tinha rebentado uma guerra mundial, aproveitando a ocasião para dar um pouco descanso à guarnição.

 

Mas, a notícia do conflito chegou com o aparecimento de uma draga que se dirigia à Austrália, cujos tripulantes tinha recebido os respectivos salários antecipadamente dado o perigo que a viagem representava, pelo que se dispuseram de imediato a deixar que o Emden afundasse a draga e os deixasse regressar a Inglaterra numa escuna. O capitão Von Müller gozava então da excelente reputação de poupar os seus prisioneiros e tudo fazer para encontrar um navio que os transportasse de volta às respectivas pátrias. Efectivamente assim aconteceu, os tripulantes da draga saíram com todos os seus pertences e a draga foi afundada. O grande problema do Emden eram as estações "relais" de rádio, já que a TSF dos navios tinha um alcance limitado, pelo que resolveu atacar o posto de retransmissão numa das ilhas do arquipélago de Cocos;  antes disso, resolveu fazer uma surtida ao porto de Penang, na Malásia, onde soube pela rádio que estavam algumas unidades militares que esperava apanhar desprevenidas graças à sua quarta chaminé. Não teve muita sorte, encontrou o cruzador russo Zemjung de 3.000 toneladas, um dos poucos sobreviventes da batalha de Tsushima, que foi de imediato destruído. Além disso, também estava lá um pequeno torpedeiro francês, o Mosquet, que apressadamente ainda lançou os seus dois torpedos contra o Emden, mas sem sucesso; foi afundado pela artilharia do cruzador alemão.

 

A proeza custou o posto ao comandante do navio russo que na altura se divertia numa recepção em terra com a esposa. O cruzador russo tinha sido enviado para colaborar com as marinhas aliadas na caça aos cruzadores alemães. Von Müller tinha que pôr fora de funcionamento o cabo submarino que atravessa o Índico desde a Austrália com passagem por uma estação retransmissora em Cocos-Keeling, muitas milhas a sul de Samatra, já depois da fossa de Sonda, o que fez prontamente, mas para sua infelicidade. O Emden surgiu de madrugada, já com alguma luz, pelo que o pessoal de vigia pôde enviar um alerta geral, sabendo-se já na região que o Emden se apresentava com quatro chaminés. Foi um erro fatal, o cruzador australiano Sydney estava por perto e dirigiu-se rapidamente para a estação, apanhando o Emden com parte da guarnição desembarcada para destruir as instalações do cabo submarino.

 

O cruzador Sydney era um navio bem mais poderoso que o Emden a demonstrar que a técnica alemã de utilizar muitas peças de pequeno calibre (105 mm) e tiro de cadência muito rápida não é favorável quando se trata de enfrentar um navio com 8 canhões de 152 mm, cujo alcance é muito superior, cerca de 14.000 metros, além de poder fazer salvas de bordada de cinco tiros de cada vez. As peças do Sydney eram do modelo Mk XII de 45 calibres de tiro mais lento, mas muito mais preciso, além de mais leves em cerca de 2 toneladas que as peças equivalentes de tiro mais rápido, o que permitiu instalar 8 num navio de 5.400 ton. de deslocamento. Apesar do Emden ter respondido de imediato ao tiro australiano, foi atingido logo de início com uma granada que avariou o seu telémetro e outra que danificou um leme; depois mais algumas granadas deram cabo das chaminés, não deixando o navio manobrar para fora, a fim de escapar ao castigo do Sydney. Mas, o Emden lutou corajosamente até ao fim durante mais de hora e meia, só deixando de disparar quando encalhou num recife com toda a superstrutura destruída e mais de cem mortos a bordo e a meter água.

 

 Em terra, a equipe destinada a desmantelar as instalações do cabo submarino assistiu impotente à destruição do seu navio. Tinha embarcado num escaler a vapor e noutro a remos. O respectivo comandante, o capitão-tenente Von Mücke mostrou ser homem de raciocínio rápido e aproveitou o final do tiroteio para capturar a escuna de três mastros Ayesha que estava ancorada a uns cem metros da ponte de embarque da ilha e fez-se ao largo sem avisar os australianos. Foram ao encontro do navio carvoeiro alemão Choising com o qual o Emden tinha encontro marcado mais ao norte. Foi uma proeza de navegação e engodo, pois no ponto indicado, a equipe de Von Mücke passou para o carvoeiro e afundou a escuna, navegando depois calmamente em direcção ao estreito de Bab-El-Mandeb, à entrada do Mar Vermelho. Passaram por numerosos navios britânicos, mesmo de guerra que procuravam por toda a parte uma escuna branca de três mastros. Os cerca de 50 marinheiros do Emden desembarcaram no Iemen, perto de Hodeida, porto hoje conhecido por Al-Hudhaydah, onde adquiriram vestimentas árabes e seguiram para o norte ao longo das costas árabes do Mar Vermelho, passando perto de Meca e Medina até atingirem as posições dos aliados turcos e a linha de caminho de ferro que de Damasco os levou a Istambul. A viagem a pé pelos desertos sauditas foi digna das aventuras de T. E. Lawrence, pois grande parte daquele território estava em vias de se revoltar contra o poder turco, de cujo império ainda fazia parte, pelo que os marinheiros tiveram de abrir caminho para alguns poços de água a tiro. Travaram mesmo um violento combate com uma tribo muito guerreira do deserto árabe.



publicado por DD às 02:00
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