Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Domingo, 17 de Junho de 2007
Vingança nas Falklands

 

 

Os britânicos antes de zarparem de Southampton foram, à pressa, buscar a um hotel de Londres o jovem engenheiro norte-americano Elmer Sperry que tentara vender um pequeno aparelho à marinha britânica que ele dava pelo nome de compasso giroscópio.

Puseram o homem no comboio para Southampton e fizeram-no instalar o aparelho no Invincible, apesar do comandante do navio não acreditar em tal "modernice", mas os recentes trabalhos feitos em ambos os navios tinham desregulado as bússolas magnéticas e não havia tempo para fazer a correcção do desvio das agulhas resultantes da alteração das novas massas de ferro.

 

O Invincible passou airosamente pelo canal da Mancha, demonstrando as potencialidades da primeira bússola giroscópica que acabou por ser adoptada em todos as marinhas do mundo. Ambos os navios levantaram ferro em Devonport a 11 de Novembro e chegaram a Port Stanley, nas Falklands, a 7 de Dezembro. O Invincible com o almirante Sturdee a bordo e o Inflexible encontraram o velho cruzador-couraçado Cornwall de 9.800 ton., igual ao infortunado Monmouth, os cruzadores ligeiros Glasgow, Bristol e Kent, bem como o velho couraçado Canopus com 4 peças de 305 mm que tinha desembarcado a sua artilharia de 12 libras para ser colocada nas colinas sobranceiras ao mar para a defesa costeira de Port Stanley. Quando chegaram, as tripulações dos dois cruzadores de batalha britânicos meteram-se logo na árdua tarefa de abastecer os seus navios de carvão, tarefa bem difícil em porto desprovido de instalações apropriadas para o efeito.

 

O Canopus ficou de vigia, pois esperava-se a qualquer momento um ataque pelo esquadrão germânico. Entretanto, Von Spee não sabia o que fazer. Deveria regressar à Alemanha, fazendo alguma guerra contra a navegação aliada, mas sabia que o preço mais provável a pagar seria a destruição, já que os seus navios não eram suficientemente poderosos para enfrentar cruzadores de batalha ou couraçados modernos ou mesmo antigos. Perdeu quase um mês nas enseadas do sul da costa chilena antes de dobrar o Cabo Horn. Esperava passar pelo Atlântico numa altura em que os ingleses não calculassem que o fizesse, mas cometeu um erro louco, resolveu atacar Port Stanley, precisamente no momento em que estava guarnecido por uma poderosa força britânica.

 

Mesmo assim, se não fossem as salvas do velho Canopus, o Scharnhorst e o Gneisenau apanhavam o Invincible e o Inflexible a meter carvão, portanto, sem poderem responder prontamente ao tiro alemão. Os alemães viram em primeiro lugar uma nuvem de carvão sem perceberem do que se tratava, Von Spee julgara que os britânicos estavam a lançar fogo aos seus depósitos de carvão para evitar que os navios alemães se apropriassem daquele carvão para o seu reabastecimento.

 

 Nas salas de comando faziam-se cálculos; os britânicos largavam as barcaças de carvão, acendiam as caldeiras e preparavam-se para sair ao encontro dos navios alemães. O fogo do Canopus passava por uma pequena península e era dirigido com precisão por vigias postados numa colina próxima. Entretanto, por cima dessa língua de terra, Von Spee vislumbra os mastros trípodes dos cruzadores de batalha, pelo que resolveu rumar para o Sul naquele dia claro do verão antárctico, a 8 de Dezembro de 1914.

 

Os cruzadores ligeiros britânicos saíram primeiro do porto, pelas 8.45, enquanto o Invincible e o Inflexible levaram algum tempo a prepararem-se; só pelas 10 horas é que estavam ao largo, mas acreditavam na sua superior velocidade e admitiam como possível que os navios do esquadrão alemão deveriam ter as tubagens das caldeiras cheias de calcário e muitas já perfuradas. Von Spee levou muito tempo a decidir-se pelo rumo a tomar e a manobra a fazer, pelo que às 11 horas constatou que a sua formação estava à mercê das peças de 305 mm dos dois poderosos cruzadores de batalha britânicos que iniciaram o tiroteio pelas 12.45 a uma distância de 15.000 metros.

 

 Meia hora depois, os britânicos conseguem o seu primeiro impacto e nessa altura Von Spee ordena aos seus cruzadores ligeiros que se afastem do teatro de batalha o mais rapidamente possível, sendo perseguidos pelos cruzadores ligeiros ingleses, o Kent, o Glasgow e o Cornwall. A batalha passou a ser travada em duas secções separadas; o duelo dos cruzadores de batalha e o dos cruzadores ligeiros. As granadas de 305 mm britânicas penetravam facilmente através das blindagens do Gneisenau, causando estragos na parte central do navio, o que obrigou a evacuar o patamar da caldeira Nr. 1, enquanto a Nr. 3 começava também a ser inundado. Aqui e acolá incendiavam-se os madeirames e superstruturas ligeiras. O Scharnhorst não sofria castigo menor, sendo gravemente perfurado à proa e à ré abaixo da linha de flutuação e ardia em muitos locais, mas mantinha o seu valor militar com a artilharia que não tinha sido destruída. Pelas 16.17 vai para o fundo com o almirante Von Spee. O Gneisenau sobreviveu até às 17.50, afundando-se mais lentamente depois de se voltar, pelo que os ingleses ainda recolheram 190 náufragos. Entretanto, o rápido cruzador pesado Kent persegue o Nürnberg e vinga o seu irmão Monmouth, afundando o pequeno cruzador alemão de 3814 ton. de deslocamento armado com 10 peças de 105 mm.

 

 Por sua vez, o Glasgow e o Cornwall perseguem o Leipzig que resiste até às 20.30, não tendo sido possível salvar mais que 18 homens da sua guarnição. Só o cruzador ligeiro Dresden conseguiu escapar-se daquele massacre de homens e navios, mas não por muito tempo.

 

Depois da vitória inglesa, o almirante Sturdee enviou um telegrama ao oficial alemão sobrevivente mais graduado, o capitão-de-fragata Pochhammer, dizendo o seguinte: O comandante-em-chefe felicita-se que a Vossa vida tenha sido poupada e todos nós admiramos a coragem com que o Gneisenau lutou até ao fim. Desejamos exprimir as nossa mais profundas condolências pela perda do Vosso almirante e de tantos oficiais e marinheiros. Infelizmente, os nossos dois países estão em guerra: os oficiais das nossas duas marinhas que têm amigos em cada uma não devem cumprir menos os seus deveres para com os seus países como o fizeram o Vosso almirante, o Vosso comandante e os Vossos oficiais até ao fim.

 

 Sturdee recebeu uma não menos cavalheiresca resposta: Em nome de todos os nossos oficiais e marinheiros sobreviventes, agradeço a V. Exa. as suas palavras tão amáveis. Também nós lamentamos, como vós, o curso desta guerra, pois aprendemos em tempo de paz a conhecer a marinha britânica e os seus oficiais. Estamos agradecidos pelo vosso bom acolhimento.

 

Ambos os textos revelavam a natureza de uma guerra no puro sentido dado por Klausewitz, a continuação da política por outros meios. Política então totalmente desprovida de diferenças ideológicas, rácicas, religiosas ou, mesmo, territoriais.

 

A I. Guerra Mundial foi quase que só pelo "penacho" de alguns dirigentes políticos e, principalmente, casas reinantes, o que não obstou que tivesse custado milhões de vidas jovens e miséria em centenas de milhões de habitantes de grande parte dos países beligerantes. Mas, foi igualmente uma luta entre estados-nações com uma nova noção de nacionalismo que visava a transformação do estado-nação em império.

 

O pequeno cruzador Dresden de 4.450/5.590 ton. de deslocamento armado com 10 canhões de 105 mm conseguiu escapar-se ao tiro dos cruzadores de batalha britânicos com toda a força das suas 4 turbinas de 10.800 cavalos-vapor e dois veios. Fazia 26 nós e era, efectivamente, o único navio da esquadra de Von Spee propulsionado pelas modernas turbinas a vapor. Rumou para o sul e manteve solitário durante três meses uma guerra contra a navegação inimiga de resultados negligenciáveis. A dada altura, os britânicos interceptaram um rádio em que o Dresden combinava um encontro com um navio carvoeiro a 300 milhas a sul de Coronel, na costa chilena. Os cruzadores I e Glasgow tentaram de imediato interceptá-lo, impedindo logo de início o abastecimento. Sem combustível, o Dresden refugia-se na zona costeira denominada "Mas Afuera" onde é atingido pelos canhões mais poderosos dos dois cruzadores britânicos e após um combate de cinco minutos, o Dresden, todo destroçado, iça a bandeira branca da rendição; os britânicos suspendem o fogo, enquanto os alemães rapidamente abrem as válvulas de fundo do navio e escapam-se para terra a nado e nas pequenas jangadas salva-vidas. Ainda vivem no Chile descendentes da guarnição do Dresden.

 

 Três outros pequenos cruzadores alemães navegavam ainda pelos mares do planeta e todos tiveram a mesma sorte trágica, apesar de aventurosa em muitos casos. O Karlsruhe foi dos mais misteriosos, já que durante muito tempo o Almirantado britânico só tinha dele conhecimento através dos muitos navios mercantes destruídos pelo cruzador ligeiro de 4.900 toneladas armado com 12 peças de tiro rápido de 105 mm. Ao todo, o Karlsruhe afundou 76.500 toneladas de navios adversos, acabando por ser destruído num acidente resultante de cordite instável que pegou fogo a um dos paióis de munições ao largo das Barbados quando o cruzador pretendia atacar aquelas ilhas britânicas.



publicado por DD às 20:02
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