Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
O Fim de Uma Esquadra

Depois do desaparecimento do Imperator Alexander III, o Borodino passou a ser o alvo e todas as atenções dos nipónicos e, já com um incêndio a bordo, levou um tiro de 305 mm, a última granada do couraçado japonês Fuji que deverá ter atingido um paiol de munições; o Borodino vira-se quando ainda disparava as suas peças de 152 mm. Pereceram 855 homens da sua guarnição no mais atroz sofrimento, o que deixou o resto da esquadra profundamente desmoralizada.

 

O sol desaparecia num ambiente de tristeza para os russos e terror dos ataques nocturnos dos torpedeiros. Esburacado, o Kniaz Suvarov resistia a todos os tiros disparados contra as suas poderosas blindagens pelo 3º Esquadrão Japonês do almirante Kataoka que, por fim, ordenou aos torpedeiros que se aproximassem a 300 metros para lançarem os seus torpedos. Dispararam sete torpedos, mas apenas três acertaram; o suficiente para fazer explodir um dos paióis. O couraçado voltou-se e foi para o fundo com 928 homens da sua infeliz e heróica guarnição, dos quais cerca de metade estariam já feridos. Os russos já não foram capazes de organizarem uma linha defensiva quando os nipónicos acenderam os seus holofotes para completarem a destruição.

 

O pequeno couraçado Navarin, já muito castigado pelo fogo japonês, parou para ser de imediato atacado pelos torpedeiros que o avariaram ainda mais seriamente. Mas, para o levarem para o fundo foi necessário colocarem várias minas junto ao costado, tendo duas explodido e dado por fim cabo do navio. Os cruzadores protegidos Nakimov e Maomak foram atacados por torpedeiros que julgaram ser russos, mas não se afundaram de imediato. A noite pertenceu, sem dúvida, aos torpedeiros japoneses que navegando rapidamente, sem serem vistos, dirigiram-se ao couraçado de segunda classe Sissoi Veliki e dispararam três torpedos, dos quais um acertou, tornando difíceis as suas condições de flutuação, pelo que o navio se rendeu pelas 07h30 da manhã.

 

Durante a noite torpedeiros e contratorpedeiros russos e japoneses combateram-se mutuamente, mas com resultados não muito significativos. Pode mesmo dizer-se que o sucesso dos torpedeiros foi mais que limitado. Os japoneses dispunham na batalha de 32 torpedeiros e 21 contratorpedeiros, os quais dispararam um total de 87 torpedos, mas apenas quatro acertaram nos alvos. Pelas 05h20 da madrugada do 28 de Maio de 1905, Togo recomeçou o ataque em força ao que restava da força russa, agora só com um couraçado poderoso a flutuar, o Orel, mas bastante destroçado e praticamente sem munições. Acabou por encaixar 12 tiros de 305 mm, sete de 203 e vinte e dois de 153 mm. Os canhões modernos de tiro rápido de 153 mm dos navios russos estavam quase todos desactivados por falta de munições ou avarias, restando só algumas peças lentas que pouco podiam fazer ainda. A esquadra russa viu-se rodeada pelos 27 navios de Togo, praticamente intactos e em força, muitos dos quais foram receber munições durante a noite. Depois de uma troca de tiros que durou meia hora, o almirante Nabokov mandou içar a bandeira branca da rendição, mas Togo continuou a disparar e só parou quando viu içada a bandeira japonesa por cima do pavilhão russo com a cruz de S. André. O Orel foi apresado pelos japoneses e reparado para servir na marinha russa com o nome de Iwami até 1922. O pequeno cruzador rápido Izumrud ainda julgou que podia escapar-se com os seus vinte nós de velocidade, mas a máquina acabou por não aguentar e avariou-se pelo que o navio parou. O pequeno couraçado-monitor Admiral Ushakov, afastado que estava do grosso da formação russa, também pensou em escapulir-se para Vladivostok. Mas sem sucesso, foi perseguido pelos cruzadores nipónicos Iwate e Yakumo, os quais o atingiram com o seu tiro rápido sempre respondido pelo russo que acabou por se afundar quando o bravo comandante Mikluka ordenou a abertura das válvulas. Só dois torpedeiros e o iate armado Almaz conseguiram chegar a Vladivostok, enquanto a força de cruzadores pequenos do almirante Enquist com o Aurora, o Oleg e o Yemtchung e alguns navios auxiliares retrocederam e acabaram por aportar a Manilla, nas Filipinas, onde foram internados. A derrota naval da esquadra russa conduziu ao fim da guerra russo-japonesa, apesar de em si mesmo não haver razão para tal.

 

Os japoneses estavam economicamente esgotados e os russos já tinham colocado na Manchúria quase um milhão de homens, os quais podiam ter derrotado os nipónicos que em terra não eram assim tão fortes. Mas, os revolucionários anti-czaristas fizeram estalar a revolução por todo o Império.

 

Quando da batalha de Tsushima já a guarnição do Kniaz Potemkin se tinha revoltado no Mar Negro. A revolta foi rapidamente sufocada e o célebre Potemkin mudou de nome, passando a ser o Pantalimon até à “revolução” democrática de Abril de 1917 que depôs o Czar e preparou as eleições para uma Assembleia Constituinte e que nada tem a ver com o golpe palaciano dos bolcheviques em Outubro de 1917. Já em Janeiro de 1905 tinham estalado greves revolucionária por todo o Império, a partir das fábricas metalúrgicas e estaleiros Putilov de S. Petersbourg. A queda de Porto Artur fez vir à superfície o descontentamento popular contra a autocracia. Até alguns sectores da burguesia endinheirada apoiaram financeiramente os bolcheviques que se separaram em 1903 dos mencheviques no Partido Social-Democrata. O regime imperial do Czar apoiava-se apenas numa imensa infantaria de cossacos e mujiques analfabetos e fiéis e numa burocracia servil e autoritária até mais não. A guerra russo-japonesa beliscou ao de leve o imenso império russo que só perdeu metade da ilha de Sacalina, além de Porto Artur, uma cidade arrendada à China. A expansão para a Manchúria terminou e os japoneses conquistaram a Coreia para a perderem 40 anos depois com a tal metade da Ilha de Sacalina. Após a derrota da esquadra japonesa, os EUA intercederam para organizarem a Paz, mas enquanto se negociava os japoneses desembarcaram na ilha de Sacalina, ocupada por forças não muito numerosas. Daí a razão porque os russos perderam metade da ilha. A guerra não foi popular na Rússia, cuja população não sentia a necessidade de expandir o Império para o sul do rio Yalu na Coreia nem via qualquer vantagem de possuir uma poderosa marinha de guerra, dado o carácter profundamente continental do Império Russo. O Japão, pelo contrário, encheu-se de uma ilimitada jactância e acabou por se lançar em grandes conquistas. Primeiro a Coreia, depois a Manchúria e depois, já nos anos trinta, queria a China toda até voltar-se contra os EUA em Pearl Harbour, conquistar grande parte da Ásia insular para acabar totalmente derrotado em 1945. Os exageros custam caro. O Império Czarista queria muito e acabou transformado noutro Império, o Soviético, que soçobrou devido às despesas militares, nomeadamente com uma marinha de guerra, cujos custos ultrapassaram as suas possibilidades financeiras e retirou aos trabalhadores a possibilidade de verem as suas condições de vida melhoradas, pelo menos, ao nível dos principais países capitalistas da Europa. Tecnicamente, as duas batalhas navais da guerra russo-japonesa foram as únicas travadas entre couraçados pré-dreadnought. Foram a prova do pensamento técnico britânicos de que os canhões de 305 mm e superiores eram então a melhor arma naval e as quatro peças por navio era poucas. Os disparos eram eficazes e a direito, permitindo um tiro a grande distância e uma certa pontaria. Só que os navios beligerantes a vapor, depois dos disparos, ficam envoltos em fumos pelo que a pontaria ia tornando-se cada vez menos precisa. Além disso, os primeiros tiros eram os mais difíceis. O telémetros e visores ópticos não estavam ainda suficientemente desenvolvidos. A queda das granadas na água é que permitia acertar a pontaria. Daí que os técnicos chegaram à conclusão que qualquer grande navio capital de combate deveria ter no mínimo 10 peças de 305 mm e umas tantas de 104 ou 75 mm apenas para afrontar os torpedeiros que se aproximassem demasiado. Os canhões de 152 mm de tiro curvo revelaram-se muito pouco eficazes, a não ser quando disparadas a distâncias mais curtas, o que só podia acontecer se estivessem num confronto entre cruzadores apenas armados com essas peças ou com navios inferiores. Efectivamente, a 2 de Outubro de 1905, os britânicos lançam a quilha do Dreadnought com 10 peças de 305 mm e 24 de 75 mm, o navio que tornou subitamente obsoletos todos os imensos couraçados de 4 peças grandes, lançando as potências numa dispendiosa corrida os armamentos com todos a construírem mais e mais navios para acabaram alguns afundados na I. Guerra Mundial, outros, os alemães, auto-afundados em Scapa Flow e a maior parte foi para a sucata após o Tratado de Washington de Limitação de Armamentos Navais assinado em 1922. A maior parte dos gigantescos e super-couraçados britânicos pouco mais de 10 anos de vida tiveram.



publicado por DD às 20:00
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