Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2006
O Submarino Alemão
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Submarino Tipo XXI.

A Alemanha entrou na guerra em Setembro de 1939 com 57 submarinos organizados em seis flotilhas. Todavia, só 32 unidades destinavam-se ao combate no mar alto, pois os restantes 25 eram submarinos costeiros do tipo II (250 toneladas). Daí que quase não se possa falar de autêntica guerra submarina até Março de 1941, data a partir da qual se intensificou verdadeiramente a pressão naval germânica contra a navegação atlântica dos aliados, ou mais concretamente da Grã-Bretanha. Foi mesmo a 6 de Março de 1941 que W. Churchill, em discurso pronunciado nos Comuns, utilizou pela primeira vez o termo Batalha do Atlântico, referindo não a luta iniciada em Setembro de 1939, mas a sua intensificação a partir das medidas tomadas pelo seu governo para a guerra anti-submarina.

No essencial, a Alemanha nazi travou toda a referida batalha com submarinos resultantes de melhoramentos dos seus congéneres da I. Guerra Mundial, não tendo chegado a utilizar os novos modelos que chegaram aos mares quando a guerra estava praticamente terminada.

O submarino da Batalha do Atlântico era mais um submersível que um verdadeiro submarino como hoje é concebido. Navegava quase sempre à superfície e em imersão era lento com uma reduzida autonomia. Fundamentalmente, Dönitz promoveu o Tipo VII que começou com o VIIA a título experimental, seguido do VIIB de 1938-1941, VIIC de 40-44, VIIC de 41, VIIC de 42, VIID lança-minas e VIIF de abastecimento de torpedos, todos destinados essencialmente ao combate oceânico.

Os VIIB eram já excelentes submarinos de 741/843 toneladas a contrariar as ideias vigentes então na Kriegsmarine (Marinha de Guerra Germânica) de seguir o desenho do cruzador submarino de 1918.

Dönitz, um experiente comandante de submarinos da Grande Guerra, impôs a sua visão ao defender a construção de unidades com uma tonelagem muito menor que a dos cruzadores-submarinos. Obteve assim barcos muito mais manobráveis e rápidos na imersão e emersão, além de susceptíveis de serem construídos em grande quantidade. O armamento principal era constituído pelos quatro tubos lança-torpedos da proa e um da popa com um total de 14 torpedos de 533 mm de diâmetro. Para o combate de superfície vinham equipados com a peça alemã de 88 mm para objectivos navais L/45C35 e a peça antiaérea de 20 mm C 30. A autonomia à superfície atingia as 8.700 milhas e a velocidade máxima emerso rondava os 17 nós e em imersão os 7,6 nós, graças a dois diesel e dois motores eléctricos de 1400 / 375 cavalos-vapor. Claro, tanto a velocidade de cruzeiro como a de prudência eram bem menores. A a guarnição totalizava 44 elementos.

Os restantes modelos do tipo VII divergiam pelo ligeiro aumento da tonelagem e dimensões. Só o VIIC/42 deslocava 983/1082 toneladas e mais 1,6 m de comprimentos, atingindo os 68,7 m. Por isso, transportava 16 torpedos e deveria ser armado com 8 peças AA de 20 mm, mas das 176 unidades encomendadas nenhuma chegou a entrar em combate.

Os submarinos de maiores dimensões e mais adequados para operarem a grande distância das bases foram do Tipo IXA, B, C, C/40, D-1, D-2, D/42 e XB. Eram unidades de 1016/1135 toneladas de deslocamento na primeira versão e 1590/1775 nas versões D-2 e D/42. Transportavam 22 torpedos para 4 tubos de proa e 2 de popa, além de uma peça de 105 mm/ 45 calibres, uma de 37 mm e outra de 20 mm, ambas AA. À superfície faziam 18,2 nós e em imersão 7,7 nós.

Para permitir a construção em massa de submarinos, a Alemanha limitou-se a desenvolver, depois de 1935, submarinos bem construídos, mas isentos de avanços técnicos de ponta relativamente aos seus congéneres da I. Guerra Mundial. Já durante o conflito e em função dos ensinamentos da prática bélica foram introduzidas melhorias. A mais importante foi, sem dúvida, o aumento da profundidade de imersão do Tipo VIIC sem recurso a novo desenho do casco. O respectivo casco principal foi reforçado com chapas de 21 mm, o que permitiu aumentar em cerca de 20% a profundidade de imersão que assim atingiu os 250 metros máximos com a cota de 300 m tida como de colapso do casco. Estudos posteriores ao conflito mostraram, contudo, que essa profundidade seria antes de 280 m.

Simultaneamente aumentou-se sempre a resistência dos cascos às ondas de choque provocadas pelas cargas de profundidade, nomeadamente pela não instalação de qualquer equipamento directamente ligado às chapas do casco, preferindo-se a ligação a elementos estruturais. A estrutura anelar recebeu ainda materiais absorvedores do choque incluindo molas para fazer a ligação da chaparia ao esqueleto dos submarinos. Isto porque adivinhava-se que muitos submarinos alemães se afundaram sem entrar em colapso, por via da paralisação de máquinas ou outros equipamentos técnicos fundamentais do barco.

Muitas guarnições tiveram de suportar uma morte lenta e atroz até consumirem todo o oxigénio de reserva sem qualquer hipótese de serem salvas. Foi-se mesmo ao ponto de construir um protótipo de submarino verdadeiramente resistentes às ondas de choque provocadas pelas cargas de profundidade. Foi o U-1063 do Tipo VII-C/41 que entrou ao serviço em Julho de 1944.

No decurso do conflito, o tempo de imersão passou dos iniciais 30 segundos nos Tipo VII e 40-50 dos IX para 15 segundos e depois reduziu-se ainda mais nos novos e revolucionários cascos dos submarinos XXI e XXIII que não chegaram a ter uma participação muito activa no conflito, dada a data tardia em que foram incorporados na marinha do Reich.

Com o desenvolvimento do radar, a navegação à superfície foi-se tornando cada vez mais perigosa e, como tal, a carga das baterias. Mas, só relativamente tarde, pois só em Fevereiro de 1944 é que entraram em combate os primeiros submarinos dotados dos tubos de entrada de ar para motores diesel e escape com o submarino imerso à chamada profundidade periscópica, equipados, portanto com o sistema Sacharem, um invento holandês de que os alemães tomaram conhecimento em 1940, mas começaram por considerar o referido dispositivo como desprovido de interesse. Contudo, quando a guerra terminou, 343 submarinos alemães estavam equipados com os Schnorkels, resultantes do desenvolvimento do sistema holandês.

Para além dos dois modelos básicos de combate, a arma submarina alemã operou ainda uma série de submarinos petroleiros Tipo XIV-U com 4 torpedos, 432 toneladas de combustível para reabastecer as unidades de combate, além de víveres e outros meios de assistência. Eram denominados de vacas leiteiras. Os dez barcos deste tipo incorporados na marinha do Reich tiveram uma actividade intensa e proporcionaram a actuação de submarinos pequenos como os do Tipo VII em águas distantes como as das Caraíbas e costas sul-americanas e aos do Tipo IX a presença no Oceano Índico.

Os submersíveis alemães que travaram quase toda a chamada Batalha do Atlântico não eram instrumentos de combate revolucionários relativamente a 1918, mas, em compensação, a táctica da sua utilização em combate foi totalmente diferente.

Como se viu no combate travado contra o Comboio britânico HG 76, Dönitz comandava as suas flotilhas quase como um almirante embarcado, se bem que a partir do seu posto de comando em Lorient, na França. A evolução da rádio permitiu isso, tal como a fé injustificada na sua máquina de cifrar mensagens Enigma M, além da observação aérea por parte dos quadrimotores Focke Wulf 200 Condor.

O essencial da táctica de Dönitz consistiu no ataque em quantidade perpetrado pelos submarinos contra os grandes comboios escoltados que atravessavam o Atlântico com meios humanos e materiais para as frentes europeias. Também os comboios de navios vazios interessavam, dado que o principal era abater a capacidade de transporte aliada, a guerra à tonelagem, como dizia o almirante. Para o efeito, Dönitz obteve a aquiescência do ditador alemão para a implementação de uma armada de 400 submarinos, dos quais uns 70 seriam de instrução e treino.

Em Setembro de 1939, foi cancelado o chamado Plano Z de dotação da Marinha nazi de um vasto conjunto de unidades de superfície, enquanto se encomendam 164 novos submarinos aos principais estaleiros alemães. No fim de 1939, 38 novos barcos submersíveis estavam em construção, 90 no primeiro semestre de 1940, outros 94 no segundo semestre e no fim de 1941, 253 submarinos tinham sido construídos ou estavam em construção.

A ideia de Dönitz era ter uma centena de submarinos em operações no Atlântico, pois nos primeiros dez meses do conflito não conseguiu ter mais de 12 barcos na frente atlântica. Então, por cada dez barcos em operações, 23 estariam em manutenção. Depois da queda da França, a marinha germânica ocupou as bases de Brest, Lorient, Saint-Nazaire, La Palice e Bordéus, às quais já tinha podido juntar os inexpugnáveis fiordes noruegueses.

Assim, a relação de barcos em manutenção para os em operação sofreu uma queda para 18 por cada 10 em combate, o equivalente a um aumento de 22% de unidades efectivas, dada a redução do tempo de viagem entre as bases alemãs em França e o Atlântico central.

O chamado método de Dönitz foi evoluindo com a prática, a começar pela avaliação da dificuldade em detectar um comboio no Atlântico, apesar de serem constituídos por 30 a 70 navios com saída semanal ou quase. Os comboios de navios lentos traziam as iniciais SC e os rápidos HX. E era no Atlântico central muito longe das costas e fora do raio de acção da maior parte dos aviões que Dönitz preferia ver os seus submersíveis atacarem.

Cada um dos barcos alemães tinha uma quadrícula determinada de Oceano para patrulhar, mas logo que detectasse a presença de navios mercantes de um comboio transmitia via rádio cifrada para o comando de Dönitz em Kernevel, perto de Lorient. A partir daí, Dönitz dava ordens para os submarinos próximos formarem uma flotilha de ataque que na gíria denominava de “alcateia de lobos”. Cada uma destas flotilhas de circunstância recebia uma denominação e era comandada pelo próprio Dönitz em geral, o qual, por vezes, organizava outras flotilhas semelhantes para manterem o ataque a um dado comboio depois de a primeira se retirar ou para reforço desta.

Só depois de se aproximarem em número suficiente é que os submarinos de Dönitz recebiam ordens para atacarem. E faziam-no quase sempre de noite, navegando à superfície. O submarino era um excelente navio furtivo praticamente invisível de noite, mesmo ao radar, quando se esgueirava por entre as colunas dos amedrontados navios mercantes e à superfície tão pouco eram vistos pelo Asdic dos destroyers e corvetas das escoltas dos comboios, emissores de ultra-sons de baixa frequência que detectavam a presença de submarinos imersos por reflexão. O Asdic britânico passou a ser utilizado em 1940, antes de designar-se Sonar com o aparecimento da aparelhagem norte-americana. Fundamentalmente era um emissor e um projector de quartzo que transformava as ondas eléctricas em ondas acústicas que avisavam também o submarino que estava a ser detectado pelo ping que ecoava pelo casco. De noite, o submarino estava mais bem protegido à superfície que imerso. Depois, com o aparecimento do radar centimétrico, os dias do submarino emersos passaram a estar contados, mas antes disso, os aliados perderam milhares de navios.

Logo no início, e mesmo ao longo de todo o conflito, um dos grandes inimigos do submarino foi, sem dúvida, o espectro electromagnético resultante das suas transmissões rádios. Tanto as bases em terra britânicas como os navios das escoltas detectavam a origem das emissões pelo radio-goniómetro HF/DF de High Frequence Direction Finding. Para além de detectarem a presença de submarinos em emissão rádio, os descodificadores de Blatcheley-Park conseguiram traduzir as mensagens cifradas pela máquina Enigma que antes da guerra chegou a ser vendida para fins comerciais. Claro que nem sempre a tradução podia ser transmitida pelo Teleprinter Ultra para o Submarine Trucking Room da Royal Navy com celeridade suficiente para ter algum efeito prático. E também não servia de consolo saber que dez a quinze submarinos estavam a atacar um comboio que podia ver o seu curso alterado, mas não de uma forma suficientemente furtiva para escapar com êxito à caça das flotilhas de submarinos que atacavam como autênticos tubarões desesperados pela fome. Mesmo assim, muitos comboios foram desviados a tempo e livraram-se dos devastadores ataques dos U-Boote germânicos.

Na guerra das cifras, a vitória pendeu largamente para o lado britânico, principalmente quando a 9 de Maio de 1941, o tenente Balme do destroyer Bulldog entrou no submarino U-110 antes de se afundar e conseguiu capturar o código Hydra e uma máquina Enigma M de oito rotores, utilizada pela marinha germânica, portanto com mais três rotores de cifragem que os modelos do exército e da força aérea. O código capturado permitiu aos britânicos a penetração em muitas das comunicações secretas da marinha germânica, mas não em todas, dado que o “Hydra” era apenas um dos trinta sistemas de cifragem utilizados pelos marinheiros alemães.

Dönitz acreditava que a guerra seria ganha ou perdida no Atlântico, nomeadamente na interdição do acesso à Europa, logo à Grã-Bretanha e à União Soviética, dos enormes recursos em meios materiais e humanos dos EUA e Canadá. Para tal, a batalha seria contra a tonelagem; era preciso afundar mais navios mercantes do que aquilo que os estaleiros aliados podiam construir. E estiveram quase a consegui-lo.

Em 1942, os submarinos germânicos e italianos afundaram 1.160 navios com 6.266.215 toneladas brutas e os aviões da Luftwaffe e os navios de superfície elevaram esse total para 7.790.697 TBR. No mesmo ano, os estaleiros aliados ficaram-se sensivelmente pelos 7 milhões de toneladas de novas construções. E se considerarmos que uma parte importante desses navios vinham carregados, o desgaste material, nomeadamente em termos de armamentos, superava tudo o que tinha acontecido nos próprios campos de batalha, mas sem qualquer relevo para o curso da própria guerra.

Para conseguir tão violenta depredação nas marinhas mercantes aliadas naquele ano de 1942, a arma submarina alemã perdeu 88 barcos, ou seja, 8,9 por cento das unidades em combate. No fim de 1942, a “Kriegsmarine” contava com 393 submarinos, dos quais 212 estavam em operações contra os aliados. Em Outubro desse ano, três submarinos IXC operaram no Oceano Indico e perturbaram de tal modo a navegação local que o porto de Lourenço Marques chegou a estar fechado.

Apesar dos êxitos espectaculares conseguidos no ano de 1942, Dönitz não conseguiu impedir a operação Torch, nem o serviço de escuta alemão, o B-Dienst, chegou sequer a perceber o que estava a acontecer. Os aliados fizeram passar grande número de transportes bem protegidos para Gibraltar enquanto expunham à fúria predadora dos U-Boote de Dönitz o comboio SL 125. Em sete dias de combates furiosos, os submarinos afundaram 11 navios a deslocarem 72 mil toneladas, sem registarem qualquer baixa. Simultaneamente, davam a conhecer as suas posições, permitindo aos transportes de tropas afastarem-se e chegarem sem perdas a Gibraltar de onde partiram para desembarcar no Marrocos e abrir uma segunda frente a Ocidente que rapidamente liquidou o Afrika Korps sob o comando do Marechal Rommel. A resistência alemã no Norte de África ainda durou algum tempo por ter tirado proveito da terrível falta de experiência bélica do exército de terra norte-americano.



publicado por DD às 00:14
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