Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
1904: O Começo das Guerras Imperialistas

 

 

 

A paz reinante em 1900 durou apenas até 1904, quando os japoneses atacaram de surpresa a frota russa em Porto Artur, desencadeando a primeira das guerras das novas potências contra aquilo que poderíamos chamar de antigas potências como os impérios russo, britânico, francês, holandês, português e belga.

 

Entre as novas potências cheias de apetite territorial contava-se o Japão, a Alemanha e a Itália e os EUA que já tinham conquistado uma boa parte do México. No fundo, as guerras do Século XX tiveram como motivação principal a ascensão da Alemanha e do Japão à condição de potências imperialistas com um atraso de séculos relativamente a outras como a Grã-Bretanha e todas as nações europeias detentoras de impérios.

 

 

 

 

Czar Nicolau II

 

As primeiras queriam o seu "império" e as segundas nada queriam ceder e viam nas potências em ascensão um perigo para o seu poderio. Com a técnica e os seus conhecimentos de física, os homens organizados em estados mais ou menos populosos transformaram-se em dinossauros pelas suas armas e em células "cancerosas" pela sua multiplicação por todo o planeta com efeitos tão nefastos para o ambiente que se admite como possível morte do doente, o nosso pequeno planeta Terra.

 

O Japão teve um percurso notável desde que em 1853 a esquadra do almirante norte-americano Perry obrigou os nipónicos a abrirem os seus portos ao comércio internacional e abandonarem assim mais de dois séculos de total isolamento relativamente ao mundo exterior.

O país estava então técnica e politicamente ao nível da Idade Média. Não conhecia mais que a velha espingarda que os portugueses trouxeram no Século XVI e, em termos navais, apenas dispunham de alguns juncos.

Os nipónicos viviam sob uma espécie de ditadura militar, feudal e hereditária dos Shoguns, enquanto o imperador era mantido, como um deus vivo, afastado, dos negócios políticos. Com a chegada dos navios fumegantes e cheios de canhões do almirante Perry, os japoneses perceberam que a velha espingarda portuguesa de 1543 não permitia a sua defesa e, para tal, tinham de dotar-se dos mesmos navios e possuírem a técnica moderna, principalmente de natureza militar. Essa tomada de consciência do seu atraso provocou uma autêntica revolução. Em 1869, o novo imperador Mutsu-Hito inicia a época denominada Meiji de abertura ao Mundo, depois de ter um ano antes jurado fidelidade a uma constituição liberal e moderna do tipo europeu e derrotado numa sangrenta guerra civil as forças do restabelecimento feudal.

 

Não deixa de ser interessante a razão de tão prolongado isolamento do Japão. Tudo leva a crer que isso se deve aos portugueses, mais concretamente aos padres franciscanos que pregaram os ensinamentos de Cristo como vem na Bíblia, portanto uma doutrina revolucionária de igualdade de todos os homens perante Deus, esquecendo-se de explicar que isso não era para ser levado totalmente à letra e que haveria sempre uns filhos e uns enteados do Nosso Senhor e que a Cristandade conviveu durante quase dois milénios com as mais diversas formas de escravatura e servidão, apesar de as condenar como matéria de princípio. O cristianismo perturbou muito os velhos senhores feudais, habituados como estavam a viver numa sociedade altamente hierarquizada em que uns eram gente e outros quase nada. O shogunato, ou seja, o poder do primeiro-ministro, aproveitou-se bem da espingarda portuguesa para unir o Japão, mas de seguida proíbe o cristianismo em 1614 com medo que a ideia da igualdade pudesse afectar a estrutura social extremamente hierarquizada da sua sociedade.

 

Com a era Meiji aparece pela primeira vez uma burguesia que ascende ao poder por via do estudo das técnicas europeias. Os japoneses correram quase em massa para a Europa para estudarem tudo; foram aprendizes nas mais lúgubres fundições, operários nos estaleiros, alunos das escolas militares e das universidades, etc. Na Europa como então no Japão, e tal como sucedia em parte no Portugal dos descobrimentos, a classe dita burguesa caracterizava-se pela ideia de projecto de vida pessoal e nacional sem a servidão feudal nos campos e daí a ideia de expansão, comércio e indústria, ao contrário do nobre que se julga alguém simplesmente por ter nascido.

 

Em princípio, o burguês, principalmente o oriundo das classes trabalhadoras da cidade (burgo), é educado no trabalho e até no estudo, fazendo passar essa ideia para o todo nacional e concebendo o Estado-nação como um projecto político de progresso e daí o enorme desenvolvimento industrial dos Séculos XIX e XX. Infelizmente, a ideia de tirar o que é dos outros passou das aristocracias para as burguesias e tornou-se parte dessa noção de projecto nacional, o que produziu as terríveis guerras do Século XX. Até os partidos que pretendiam ser do proletariado puro também foram infectados pelo mesmo vírus mental da tal apropriação do que a outros pertence, principalmente territorialmente.

 

Em 1903, o Japão estava na posse de uma importante força naval, pois tinha acrescentado à sua marinha de guerra quatro novos couraçados, 16 cruzadores, 23 contra-torpedeiros, além de numerosas unidades mais pequenas. Sentia-se tão forte que seria o primeiro país asiático a atacar uma potência europeia, o Império Russo do Czar Nicolau II. Fundamentalmente queria obter o domínio da Coreia e conquistar a península de Kwuantung com a cidade fortaleza de Porto Artur que lhe tinha sido retirada por via do Tratado de Shimonoseki que deu por finda a guerra sino-japonesa de 1895, da qual os japoneses saíram vencedores.

 

 Os russos conseguiram instalar-se aí em força e decididos a nunca mais de lá saírem. Loshun crismada de Porto Artur pelos russos, ao contrário de Vladivostok, mais a norte e a oriente da península coreana, era um porto aberto todo o ano; o único de águas quentes com saída oceânica do imenso império continental que era a Rússia de então. Tinha, todavia, o defeito de estar muito assoreado na maré baixa, o que fazia com que os navios ficassem bloqueados no porto interior ou então tivessem que ancorar ao largo, frente à península dos Tigres.

 

Quando começou o conflito, os russos tinham em Porto Artur e Vladivostok sete couraçados, quatro cruzadores couraçados, catorze cruzadores pesados e ligeiros, duas canhoneiras couraçadas e 27 contra-torpedeiros e torpedeiros de alto mar. Uma esquadra valiosa se tivesse em boas condições técnicas de manutenção e dotada de guarnições bem treinadas, o que não acontecia, dada a ineficácia do supremo comandante e governador da Sibéria Oriental, o príncipe general-almirante Eugénio Alexeiev, filho do anterior Czar Alexandre II, enfim, um homem de carácter excessivamente burocrático e despótico. Nada se fazia sem autorizações por escrito e requerimentos prévios e qualquer decisão levava semanas a ser tomada. A guarnição de Porto Artur era já de 38 mil homens e mais de 90 mil militares russos estavam acantonados na fronteira com a Manchúria. Mas, para além dos números, faltava quase tudo; até espingardas, para não falar em munições e, mesmo, comida. O transiberiano tinha ainda uma só via e um intervalo de 100 milhas no lago Baical que tinha de ser atravessado de barco. Um batalhão completo levava mais de um mês para chegar ao Extremo-Oriente russo.

 

O Japão aproveitou o facto de uma companhia russa ter iniciado a exploração e corte de árvores a sul do rio Yalu, portanto, dentro da zona que os nipónicos consideravam de sua influência, apesar de a Coreia ser um estado independente, ou quase. Um empresário russo tinha obtido do governo coreano uma concessão para esse tipo de exploração em 1896, conseguindo emitir um grande número de acções colocadas na bolsa de S. Petersbourg com tanto êxito que até o Czar Nicolau II se tornou um importante accionista da empresa Bjesobarow. Pouco antes do início da guerra russo-japonesa, o marquês nipónico de Ito visitou S. Petersbourg e tentou negociar então com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Conde Lamsdorff, uma delimitação de zonas de influência no Extremo-Oriente entre as duas potências e, com isso, manter relações pacíficas. A Manchúria com a Península de Kwuantung e Porto Artur ficariam sob a influência russa, enquanto a Coreia, a sul do rio Yalu, passaria para a esfera nipónica. O então ministro das Finanças do Império Russo, Conde Witte, estava de acordo, mas como o autocrata Nicolau II possuía acções da empresa do especulador Bjesobarow, pessoa muito influente na corte, a proposta não foi aceite e ninguém explicou ao Czar a imensa vantagem de uma expansão pacífica pela Manchúria, bem como a posse definitiva de Porto Artur, e a falta de preparação das suas forças, além de que a Coreia não tinha interesse para o Império Russo e, menos ainda, uma simples exploração madeireira.

 

 Nicolau II tinha imensos poderes; não havia sequer primeiro-ministro e, menos ainda, um parlamento ou um conselho alargado. O autocrata ocupava simultaneamente os cargos de chefe de Governo e do Estado, além da chefia das Forças Armadas, mas não era particularmente inteligente, nem sequer gostava de política. Era um bom pai de família, um homem cortês e até modesto e bem intencionado, mas não tinha a mais pequena sensibilidade para os problemas materiais, nomeadamente dos militares ou da população e daí ter conduzido o Império de desastre em desastre até ao triste fim que ele e a sua família sofreram.

 

 Nicolau II limitava os seus contactos pessoais aos ministros, a familiares e a uns tantos aristocratas. Gostava de viver num pequeno palacete nos arredores de S. Petersbourg e adorava o seu estúdio instalado numa cabana de caça. Quando estalou a Revolução de 1905, só o seu dentista é que lhe pôde dar algumas informações práticas sobre a vida do povo e sobre os intelectuais de esquerda que proliferavam por toda a parte. Como acontecia com toda a nobreza herdeira de muitas gerações do Poder, desconhecia o sentido logístico da vida pelo que tinha a ideia que tudo se arranjava por si próprio; os servos e os súbditos tinham a obrigação de prover todos os bens materiais, o que não era muito difícil quando se tratava de abastecer um corte e umas tantas famílias nobres com um pequeno grupo de burocratas. Outra coisa era, sem dúvida, encontrar os meios para satisfazer grandes exércitos e esquadras. Para isso, a nobreza não servia, era necessária a capacidade de organização dos melhores das classes médias, o que passava naquela época pela instituição de um regime liberal e parlamentar como o japonês e instrução pública para quase toda a população.

 

Saliente-se aqui que no Japão como na Alemanha e noutros países, os ditos regimes parlamentares das burguesias industriosas serviram para equipar grandes exércitos e marinhas e, uma vez resolvido o problema logístico, foram quase todos postos de parte. Os generais e almirantes aristocratas ou snobes deitaram-nos fora como trapos inúteis e meteram-se em guerras sem conta de vitória em vitória até às derrotas totais.

 

Recusadas as propostas do marquês de Ito, este firmou em 1902 uma aliança de cinco anos com a Grã-Bretanha. Na Rússia, o Czar entrega a política do Extremo-Oriente a um comité chefiado pelo corrupto Bjesobrawov com alguns amigos do Czar que não pararam de tentar avançar o mais possível para a outra margem do Yalu e, assim, acicatar ainda mais os ânimos dos nipónicos. Logo após a nomeação de Alexeiev para governador, tomou-se mesmo a decisão de ir para a guerra com o Japão, se necessário fosse. Claro, o imenso Império Russo não temia o Japão, dada a correlação global de forças, mas em S. Petersbourg ninguém entendia a questão do poder regional e o facto de o Japão querer ser uma barreira à expansão da Rússia ainda mais para Oriente. Na verdade, a Rússia de 1904 tinha mais de 145 milhões de habitantes e estendia-se desde a Polónia ao Estreito de Behring, incluindo a Finlândia, os actuais países bálticos, a Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e todos aqueles países orientais que agora se tornaram quase independentes. Enfim, uma área terrestre superior 14 milhões de quilómetros quadrados, tanto como 152 vezes a superfície de Portugal.

 

Os japoneses, por sua vez, ainda não eram mais que uns trinta milhões e o seu território era uma ínfima parte do russo. A guerra surge de facto sem que os russos estivessem preparados para o combate, até porque a dada altura deixaram de acreditar que os japoneses quisessem mesmo ir para uma guerra. O próprio Czar chegou a mandar um telegrama a Alexeiev para nada fazer no caso de os japoneses desembarcarem tropas a sul de Seul e que seria aconselhável que não fossemos nós a iniciar as hostilidades.



publicado por DD às 20:00
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