Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 23 de Setembro de 2006
Os 150 Dias de Nagumo

Vice-Almirante Nagumo

 

 

Quando esperava ver um enxame de caças no ar”, escreveu o piloto japonês Saburo Sakai, “olhámos para baixo e vimos uns 60 bombardeiros B-17 e caças inimigos muito bem parqueados. Estavam como patos. A nossa precisão de tiro foi fenomenal. Toda a base aérea parecia saltar com as nossas explosões”. 

Efectivamente, em minutos os bombardeiros bimotores Mitsubishi G3M2 Tipo 96 (Nell) da 11ª Frota Aérea de Kondo com os seus 900 kg de bombas eliminaram a força aérea do exército norte-americano nas Filipinas, tanto da base principal de Clark Fields como das outras. Tinham descolado de madrugada nas pistas da ilha de Formosa (Taiwan) que fazia então parte do Império Nipónico. Os poucos caças P-40 norte-americanos que levantaram voo foram incapazes de fazer frente aos mais rápidos e poderosos caças Mitsubishi A6M2 Tipo 0 Reisen, os famosos “Zero”. No início do conflito, os A6M2 equipados com os motores Sakae de 950 cv eram literalmente imbatíveis por serem extremamente rápidos, 534 km/h, e manobráveis, além de terem um notável raio de acção operacional de 1194 milhas.

 

General Douglas MacArthur 

  

Em Manila, a notícia do ataque japonês a Pearl Harbor chegou pelas 3 da madrugada do dia 8 de Dezembro. Logo a seguir, o general Bereton, comandante da força aérea norte-americana das Filipinas decidiu enviar as suas 34 superfortalezas voadoras B-17 contra as bases japonesas da Formosa a umas 60 milhas de distância e de onde poderia partir o ataque aéreo contra as Filipinas. Mas, não foi possível obter a autorização do poderoso general MacArthur, então instalado numa luxuosa suite de um hotel de Manila e protegido por uma guarda que não permitia o mais pequeno contacto. MacArthur esteve encerrado em crise de nervos e só às 11.20 é que Bereton recebeu ordem para levantar voo, tarde de mais, pois uma hora depois, os americanos ainda não tinham levantado voo e estavam já a ser atacados pelos bimotores bombardeiros “Mitsubishi”.

Depois de destruído o dispositivo aéreo norte-americano nas Filipinas e na falta de meios navais adequados, não foi possível defender o imenso arquipélago do ataque nipónico. Os americanos possuíam na área além de 29 submarinos, o cruzador pesado Houston, os cruzadores ligeiros Boise e Marblehead e 13 contra-torpedeiros antigos. MacArthur não foi capaz de impedir o desembarque nipónico e a ocupação rápida daquele país, pelo que ordenou às unidades de superfície para seguirem para Java com o objectivo de reforçarem o dispositivo defensivo holandês, enquanto os submarinos norte-americanos tentaram uma certa resistência, mas sem êxito dada a falta de treino aliada à má qualidade dos torpedos Mk XIV que tendiam a mergulhar mais do que deviam e os seus detonadores nem sempre funcionavam.

MacArthur refugiou-se na ilha fortificada de Corregidor, onde não armazenou previamente armas e munições suficientes, pelo que após uma resistência quase simbólica, o mediático general norte-americano escapuliu-se num submarino para a Austrália por ordem do presidente Rosevelt. O reduzido exército filipino de 65 mil homens resistiu ainda nas florestas de Batam e em Corregidor até Março de 1942.

À data da entrada na guerra, os EUA possuíam capacidades bélicas expectantes, mas nada estava preparado para enfrentar seja quem for. Dos sete porta-aviões, só três estavam no Pacífico, enquanto couraçados, cruzadores e contratorpedeiros datavam todos da I. Guerra Mundial e não estavam guarnecidos de pessoal bem treinado nem tinham sido modernizados. As Filipinas não estavam preparadas para resistir a um ataque nipónico dada a exiguidade das forças locais e norte-americanas instaladas no seu território, como de resto também não estavam as possessões neerlandesas e britânicas da zona.

Desde o início do Século que as Filipinas eram um protectorado norte-americano, estando próximas do Império Japonês de então que incluía a ilha da Formosa ou Taiwan, além da recentemente ocupada Indochina francesa e parte da costa chinesa. Os territórios ainda sob a servidão colonial holandesa, britânica e norte-americana eram ricos em matérias-primas minerais e agrícolas, nomeadamente o petróleo que tanta falta fazia ao Japão. Foi mesmo por isso, que o Império Nipónico lançou-se contra os EUA e em 150 dias invadiu um vasto espaço insular e continental que incluiu as Filipinas, Nova Guiné, ilhas Salmão, Guam, Wake e muitas outras do Pacífico,  Índias Neerlandesas, hoje Indonésia, Malásia e quase toda a Birmânia.

 

Porta-Aviões Akagi – Navio-Chefe do Vice-Almirante Nagumo

 

 

A superioridade nipónica era esmagadora, tanto mais que não enfrentava forças equivalentes depois de Pearl Harbor.

O almirante Kimmel, comandante em chefe da marinha norte-americana no Pacífico, antes de ser substituído, gizou uma primeira estratégia defensiva, utilizando os porta-aviões Lexington e Entreprise em patrulha permanente entre as ilhas de Wake, Midway e Hawai. Simultaneamente esperava o regresso rápido do Saratoga vindo da costa oeste para ordenar um primeiro ataque de diversão contra as forças japonesas instaladas nas ilhas Marshall. Não estava pois em causa deslocar as suas forças para as Índias Neerlandesas, Filipinas ou Malásia onde nunca chegariam a tempo de contribuir para a respectiva defesa, já que os nipónicos atacaram imediatamente a seguir a Pearl Harbor. Entretanto, o presidente Rosevelt substitui o almirante Kimmel por Nimitz. Kimmel foi submetido a conselho de inquérito.

Dado que Nimitz não pôde ocupar imediatamente o seu posto, o vice-almirante Pye comandou a esquadra do Pacífico interinamente e ordenou a saída das duas “task force” organizadas em torno do Entreprise e do Lexington para reforçarem as defesas da ilha de Wake. Só que o desapontamento foi grande. O almirante Nagumo resolveu, por sua vez, atacar a ilha de Wake com 49 aviões dos porta-aviões Soryu e Hiryu, ou seja, 18 Mitsubishi A6M Zero, 32 Aichi e 2 Nakajima Torpedeiros, sob o comando dos contra-almirantes Yamaguchi Tamon para os meios aéreos e Abe Hiroaki, meios navais.

A 21 de Dezembro os aviões de Yamaguchi lançaram-se ao ataque arrasando as defesas da ilha apesar da feroz resistência norte-americana, sendo evitado o combate com os aviões norte-americanos do Entreprise porque o almirante Pye ordenou a súbita retirada da “Task Force”, o que foi feito com grande fúria das guarnições que julgavam poder desferir um golpe vingador nas forças nipónicas. Mas, Pye tinha as suas ordens e não podiam desobedecer. Ao comando norte-americano não interessava ainda expor as suas forças sem preparação e conhecimento do espaço envolvente. Daí que Wake tenha caído nas mãos japonesas.

Outro dos grandes sucessos nipónicos logo no início do conflito foi o afundamento do novíssimo  couraçado Prince of Wales e do  cruzador de batalha Repulse que faziam parte da força Z enviada por Churchill para o Oriente com o porta-aviões Indomitable para fazer frente à prevista ameaça japonesa. Infelizmente, o Indomitable acabou por não acompanhar o esquadrão; tinha encalhado nas Índias Ocidentais aquando de exercícios. O Prince of Wales levava ainda operários e técnicos que estiveram a cabar de montar e afinar equipamentos durante a viagem do Reino Unido para a Malásia ou a acabar de reparar a avaria provocada por uma granada do Bismarck no combate que travou em Maio de 1941, portanto, um mês e meio após ser entregue à Armada Britânica.

Para os britânicos, a guerra com Japão começou mesmo pouco antes de Pearl Harbor quando os japoneses iniciaram os primeiros desembarques na Península Malaia. No próprio dia 8 de Dezembro, a coberto da noite, o esquadrão britânico levantou ferro em Singapura sob o comando do almirante Tom Phillips para prestar ajuda às forças terrestres que a Norte já combatiam os invasores nipónicos. Phillips não requereu protecção aérea, apesar de estar disponível uma força de caças “Buffalo” perto de Singapura. O almirante britânico não acreditava que os aviões torpedeiros japoneses pudessem fazer o percurso de 400 milhas desde as suas bases em Saigão. De resto, Phillips que fora vice-chefe do Estado Maior nem admitia que a aviação pudesse afundar os grandes navios de combate, daí ter visto a sua “Força Z” ir para o fundo sem pedir o apoio dos “Brewster Buffalo” estacionados perto de Singapura.

Efectivamente, ao tentar interpor-se entre a costa Malaia e a força naval de transporte e desembarque de tropas nipónica, Phillips acabou por se colocar à mercê da 22. Flotilha Aérea do Japão, cujos 144 aviões bimotores Mitsubishi G3M e G4M e caças “Zero” representavam para a época uma força imbatível para quem recusava dominar o espaço aéreo.

 

Bombareiros Mitsubishi G3M

Os japoneses começaram por receber a notícia de que um dos seus submarinos viu uma importante força naval britânica rumando a norte ao longo das costas malaias. Ficaram aflitos, não tinham no mar meios para fazer frente aos dois gigantes, pelo que ordenaram a dispersão imediata da força de desembarque ao largo de Singora, enquanto despachavam 53 bombardeiros bimotores em missão de busca e ataque. Estes quase atacaram o cruzador Chokai de 9850/12781t, armado com 10 peças de 8 polegadas, o navio-chefe da força de apoio do almirante Jisaburo Ozawa e não detectaram a presença dos navios britânicos, pelo que regressaram a Saigão sem terem largado os torpedos. Os bimotores tiveram de aterrar perigosamente com a sua carga letal por não haver reservas de torpedos e no dia seguinte lançaram-se de novo ao ataque depois de os hidros da força de cruzadores de Ozawa terem detectado os navios britânicos a navegarem ainda rumo Norte.

Phillips ordenou o regresso dos seus navios a Singapura depois de se aperceber que não podia atacar os japoneses de surpresa e sem conhecer bem a posição dos cruzadores de Ozawa que estavam bem perto e poderiam ter ido para o fundo antes de aparecerem os aviões da 22. Flotilha Aérea. Só no dia seguinte, a 10 de Dezembro de 1942, é que os aviões nipónicos descobriram a “Força Z”, já depois de ser detectada pelo submarino nipónico “I-58” que ainda disparou cinco torpedos. Felizmente para os britânicos todos falharam o alvo. Pelas 13H03, os britânicos foram enfim detectados pelos “Mitsubishi” bimotores que voavam a 10 mil pés de altitude em formações de 8 a 9 aviões. Primeiro foram 8 “cigarros ou lápis”, como eram designados os Mitsubishi G3M devido à sua fuselagem muito esguia. Mergulharam direitos ao Repulse e Prince of Wales para largar as suas bombas. Todas caíram na água à excepção de uma que explodiu no Prince of Wales sem causar grandes estragos.

 

O HMS Prince of Wales afunda-se

 

Dez minutos depois vieram outros bimotores, mas agora equipados com torpedos. Mergulharam e rente à superfície do mar os ainda inexperientes pilotos largaram os seus nove torpedos bem perto dos navios ingleses. Só um torpedo acertou no Prince of Wales, a bombordo perto da popa, destruindo um dos veios de hélice e fazendo entrar água no casco em quantidade e força imparável. O cruzador de batalha perdeu velocidade, começou a inclinar-se e deixou de ser governável. Os geradores eléctricos ficaram inundados e paralisados, os canhões deixaram de funcionar como os monta-granadas, os ventiladores, etc. O poderoso navio estava transformado no casco inútil após um só impacto. Mais uma vez, se revelava a tradicional fraqueza dos navios britânicos, da Jutlândia àquele momento e que continuaria até às Falklands muitos anos depois. Pouco depois, 26 Mitsubishi G4M lançaram-se ao ataque sem receberem por parte da antiquada artilharia antiaérea do Repulse resposta adequada. Só o seu excelente ziguezague é que permitia ao navio evitar o verdadeiro enxame de 26 torpedos sem que algum o atingisse. A seguir, outros 8 bombardeiros G4M aproximaram-se de súbito e um torpedo acabou por atingir o couraçado a meio que continuou a disparar, chegando a abater dois aviões, mas acabou por ser atingido por mais quatro torpedos. Foi para o fundo onze minutos após o primeiro impacto.

O Prince of Wales levou mais tempo a afundar-se, permitindo aos contratorpedeiros da escolta a recolha dos náufragos sem serem molestados pelos japoneses que por falta de combustível tiveram de se retirar logo após o primeiro ataque. Três minutos depois do afundamento do cruzador de batalha britânico chegaram os “Buffalos” sem nada poderem fazer.

Com a dupla derrota americana em Pearl Harbour e inglesa ao largo da Malásia, as forças navais de Nagumo ficaram com a porta aberta para atacarem as ilhas holandesas (hoje Indonésia) e Timor, enquanto outra projecção de força visava as ilhas Salmão, a Nova Guiné e o arquipélago de Bismarck.

Os acontecimentos desenrolavam-se em catadupa a uma velocidade mirabolante. Os nipónicos avançavam na Península Malaia para conquistarem rapidamente Singapura, vindos da selva, tida por impenetrável por um exército moderno, mas não por uma força quase proletária que utilizava largamente a bicicleta como meio de transporte e quase não dispunha de blindados ou artilharia pesada. Naquela “praça-forte” britânica do extremo da península Malaia, os poderosos canhões de pouca serventia foram; estavam em grande parte apontados para o mar e, além disso, faltavam as munições.

 

 

 

 

 

 



publicado por DD às 22:07
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