Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006
A Batalha do Mar de Java

 

Mapa da Batalha do Mar de Java

 

Não tendo de enfrentar poderosas forças navais ou terrestres, os japoneses avançaram pela Ásia marítima até à Oceânia como os tentáculos de um polvo, em direcção a Java, a Singapura (Malásia) e Nova Guiné, ilhas Bismarck e arquipélago das Salomão, batendo à porta da Austrália.

O Mundo colonial do Ocidente parecia ruir de todo, os trezentos mil europeus que dominavam centenas de milhões de asiáticos caminhavam para os campos de internamento nipónicos ou refugiavam-se na Austrália. Nada tinha sido preparado antes em termos de defesa coordenada e tudo foi improvisado em poucos dias sem a necessária consistência.

A defesa das Índias Neerlandesas (Indonésia de hoje) e Malásia tinha sido confiada à força naval “ABDA” (australiana, britânica, holandesa e americana) com nove cruzadores, 26 contra-torpedeiros e 39 submarinos, sob o comando do almirante norte-americano Hart, enquanto o general britânico Archibald Wavel foi nomeado supremo comandante de todo o dispositivo bélico. Após a queda de Singapura, a 15 de Fevereiro, o comando da área limitada já às Índias Neerlandesas passou para o almirante holandês Karel Doorman que prontamente fez-se ao mar com o que de melhor dispunha para o efeito. O primeiro combate consistiu num ataque a transportes japoneses no estreito de Makassar, a 24 de Janeiro de 1942, que levou ao afundamento de quatro transportes de tropas e material sem consequências para o plano de invasão japonesa das Índias Neerlandesas. Numa segunda tentativa de ataque, o cruzador americano Marblehead foi severamente atingido e o cruzador Houston ficou sem uma das torres de artilharia em consequência dos ataques perpetrados por 37 bombardeiros bimotores da 11ª Frota Aérea Japonesa a operar a partir de um terreno conquistado nas Celebes. Doorman viu-se obrigado a retirar quando aviões do porta-aviões Ryujo o atacaram sem consequências, mas dando a impressão que muitos mais aviões estariam a chegar.

O almirante holandês reorganizou então as suas forças e decidiu enfrentar o inimigo no mar com uma esquadra conjunta constituída por cinco cruzadores, o Exeter, veterano do ataque ao Graff Spee, o Houston, o Perth, o De Ruyter e o Java, além de dez contratorpedeiros.

        

 Cruzador Holandês De Ruyter - Navio-chefe do alm. Doorman

 

A maior parte destes navios eram relativamente pequenos ou antiquados e estavam com falta de manutenção e o pessoal não tinha treino de coordenação para dar espírito de corpo à força em questão. Diga-se em abono da verdade que os navios nipónicos não eram superiores. Foi pois numa situação de um certo equilíbrio de forças que Doorman enfrentou a esquadra do contra-almirante nipónico Takeo Takagi que contava com os quatro cruzadores Nachi, Haguro, Naka e Jintsu, cuja missão era impedir qualquer ataque às forças do contra-almirante Jisaburo Ozawa com 56 transportes de tropas e do contra-almirante Shoji Nishimura com 41 transportes. Ambas as formações visavam a conquista rápida da ilha de Java e do resto das então denominadas Índias Neerlandesas.

Uns dias antes de as duas esquadras se confrontarem no Mar de Java, portanto a 14 de Fevereiro de 1942, os japoneses largaram pára-quedistas em Palembang, a capital da Ilha Sumatra, sem lograrem conquistar a cidade. No dia seguinte uma força anfíbia tentou, por sua vez, desembarcar tropas mas foi obrigada a fazer meia volta devido à presença da esquadra do almirante Doorman que acabou por ser atacado por aparelhos do porta-aviões Ryujo sem causarem danos, mas impedindo os navios das marinhas aliadas de actuarem contra os invasores nipónicos que, entretanto, desembarcavam por toda a parte.

Em dois dias Sumatra caiu nas mãos dos japoneses, enquanto a norte, um comboio com algumas tropas americanas e australianas vindo da Austrália tentava fazer desembarcar tropas em Timor, mas a presença dos aviões de Nagumo fez retroceder os navios para Port-Darwin. Vinte e quatro horas depois, 190 aviões dos porta-aviões de Nagumo afundaram tudo o que flutuava entre Timor e Darwin. Ao mesmo tempo, dos transportes de Kondo, desembarcavam as tropas que conquistaram a ilha de Timor, incluindo a parte portuguesa, e a ilha de Bali.   

       

A 27 de Fevereiro, ao entardecer, inicia-se a batalha do Mar de Java com uma primeira salva de 200 mm disparada por um dos cruzadores japoneses à distância de 27 quilómetros. O Houston e o Exeter respondem com os seus canhões de 8 polegadas. O cruzador norte-americano utilizou tinta vermelha nos explosivos das suas granadas para identificar os impactos que se apresentaram sob a forma de “geysers” vermelhos, o que divertiu muito os japoneses porque estavam distantes, enquanto uma das suas granadas perfurantes atingiam o Exeter entrando pela casa das caldeiras. O cruzador de 8.390/10.490 toneladas, veterano da caça ao corsário alemão Graf Spee, perdeu velocidade e teve de se retirar da formação de batalha. Os nipónicos, aproveitando a confusão, largaram os seus torpedos de longo alcance “Long Lace”. Conseguiram assim afundar um contratorpedeiro holandês. Mas, sem suspeitarem da existência desses torpedos de longo alcance, os aliados pensaram que estavam a ser atacados por submarinos e lançaram cargas de profundidade. Num contra ataque, três contra-torpedeiros aliados conseguem atingir dois congéneres nipónicos, perdendo uma das suas unidades.

Entretanto anoitece, Doorman tenta reorganizar o seu dispositivo a coberto de uma cortina de fumo produzida pelos velhos contratorpedeiros “4 chaminés” norte-americanos. Apesar disso, a notável capacidade japonesa para o combate nocturno faz-se valer e subitamente o Nachi e o Naguno aproximam-se dos dois cruzadores ligeiros holandeses De Ruyter e Java. Primeiro foi o Java que ficou envolto em chamas e depois o De Ruyter acossados pelos torpedos. Os aliados perderam na primeira escaramuça dois cruzadores e quatro contra-torpedeiros, retirando-se sem salvar os náufragos. Foi o preço que pagaram para retardar por vinte e quatro horas o desembarque nipónico na Ilha de Java.

Na noite seguinte, os cruzadores Perth e Houston navegaram para o Estreito de Sunda, caindo sobre a força comandada pelo almirante Ozawa que na Baía de Bantam tentava desembarcar tropas. Os nipónicos ao verem-se apanhados dispararam de qualquer maneira todos os torpedos que tinham. Afundaram desse modo alguns dos seus navios de transporte, enquanto o cruzador australiano e o norte-americano destruíam mais de meia dúzia de outros navios de transporte. Mas, as munições do Houston acabaram e o navio terminou o combate disparando granadas iluminantes enquanto o Perth recebe um torpedo na casa das máquinas. Afundou-se com as suas peças a disparar até ao momento de submersão.

A destruição da esquadra ABDA marcou o fim do império holandês na Indonésia; a 8 de Março os holandeses rendem-se, enquanto a capital da Birmânia inglesa, Rangoom, é conquistada no mesmo dia. A 1 de Maio, o exército japonês chega mesmo a Mandalay.

Os britânicos reuniram à pressa em Ceilão uma força naval em torno do velho couraçado Warspite e dos porta-aviões Indomitable de 23000/29000 toneladas de 1941 e Formidable de 23000/28620 toneladas de 1940. Ambos operavam com cerca de 56 aviões entre caças e os velhos torpedeiros “Fairey Albacore” e “Fairey Swordfish”, os únicos aviões de duas asas ainda a combater e que se deixariam abater como patos pelas peças antiaéreas japonesas.

Para destruir esta força, Nagumo com os seus porta-aviões fez uma incursão pelo Indico para lançar os seus “Nakajima” sobre Colombo na esperança de apanhar de surpresa a força naval britânica, o que não aconteceu, já que o almirante Sommerville, o comandante embarcado, ordenou a retirada das suas forças para as Ilhas Maldivas. Assim, os trezentos e cinquenta aviões de Nagumo limitaram-se a destruir as instalações portuárias de Colombo, a capital do Ceilão (hoje Sri Lanka). Sommerville ainda tentou um contra-ataque, mas felizmente para os britânicos, os pilotos dos “Albacore” e “Swordfish” não encontraram os porta-aviões de Nagumo que, entretanto, se retirava pelo Estreito de Malaca, esgotado que estava de munições e combustível. No Japão esperava-o uma recepção triunfal.

Nunca na história da guerra naval, uma esquadra em pouco mais de cem dias conquista quase meio mundo, estendendo o poder nipónico até às portas da Índia para Oeste e à Oceânia para sul, isto desde das Aleutas. Com a Coreia, Manchúria, Indochina e partes imensas da China conquistadas antes, mais de um terço do Mapa Mundo caiu nas mãos dos japoneses. Mas,  o principal objectivo militar não foi atingido, o da destruição do inimigo. Os EUA acordavam de um pesadelo para a luta, inexpugnáveis como estavam nas ilhas Hawai e em todo o seu território principal. E muito em breve, com o raid dos bombardeiros de Mitchel lançados do porta-aviões Hornet, os japoneses iriam ter a primeira sensação que, por sua vez, as suas ilhas pátrias não eram inexpugnáveis, como não seria qualquer dos territórios conquistados.

 

 



publicado por DD às 15:10
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