Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
Kamikazes

 

O porta-aviões de escolta CVE73 Gambier Bay atacado por um Kamikaze.

 

A rápida retirada do Yamato e dos restantes navios do almirante Kurita parecia ter feito regressar à rotina a actividade naval dos porta-aviões de escolta norte-americanos. Por isso, o aparecimento de alguns aviões nipónicos não pareceu atormentar muito as respectivas guarnições.

 Subitamente, os vigias viram um Zero mergulhar a uma velocidade incrível e segundos depois estatelar-se ruidosamente no convés de voo do porta-aviões de escolta Santee da classe Sangamon de 23.975 toneladas de deslocamento máximo. O navio atingido começou logo a arder, mas a guarnição travou uma batalha hercúlea contra as chamas e da qual saiu vitoriosa, mas para ver o navio torpedeado por um submarino nipónico. O porta-aviões gémeo Sunvannee recebe de seguida a visita de outro Kamikaze, enquanto o Kikun Bay escapa por pouco a um impacto directo de um Kamikaze que ao explodir na água por perto provoca algumas avarias. Por último, o St. Lo volta a conhecer o infortúnio ao receber um Kamikzae no convés de voo no meio de bombas e munições que explodem ao mesmo tempo, despedaçando o navio em pedaços que se afundaram de imediato.

O ataque Kamikaze foi a planeado pelo vice-almirante Takijiro Onishi para coincidir com a operação dos grandes navios de Kurita, mas a retirada apressada destes deixou os Kamikazes a atacarem sozinhos.

Onishi, então o comandante aéreo das Filipinas, há muito que defendia a tese de que as forças aéreas nipónicas não eram mais capazes de conseguir êxitos nos ataques às poderosas Forças Tarefas americanas. Só uma nova concepção de guerra poderia surtir algum efeito e com o sentido da tradição, Onishi denominou o novo modo de ataque de Vento Divino, Kamikaze, recordando o vento que impediu as forças navais do conquistador mongol Kublai Kahn de invadir e conquistar o Japão em 1281.

Ao Japão faltavam pilotos experientes, enquanto a prática e treino aumentava de dia para dia do lado americano. Iniciou-se assim o sacrifício de alguns milhares de jovens inexperientes lançados à força contra os navios americanos como se de bombas humanas se tratassem. Teoricamente eram voluntários, mas o livro de Yasuo Kuwahara, intitulado Kamikaze, revela que o voluntarismo era nulo. O pessoal era obrigado a oferecer-se para ser imolado no altar da Pátria: os que não dava um passo em frente para se oferecerem quando chamados eram logo mobilizados para se redimirem dessa falta, seguindo na primeira missão. O livro foi escrito por um piloto Kamikaze que não chegou a lançar-se com o seu avião por a guerra ter terminado.

Entusiasmado pelo aparente êxito dos Kamikazes, o alto comando nipónico fez reunir nas Filipinas todos os aparelhos que conseguiu mobilizar na Formosa, China, bem como de todo o arquipélago filipino, enquanto aumentavam os efectivos na ilha de Leyte que em Dezembro de 1944 chegaram aos 70 mil homens.

 

Kamikaze atingido continua na sua trajectória mortal.

 

 

Com energia e heroísmo, os japoneses passaram a contestar o domínio dos ares pelos americanos. E novamente os porta-aviões de escolta pareciam ser as vítimas preferidas. Por isso, o almirante Nimitz ordenou que a Task Force 38 voltasse às Filipinas, em vez de se reabastecerem isolados no, agora ultra industrializado, atol de Ulithi, onde os navios-oficinas tinham tudo para repara as avarias da esquadra.

Os japoneses aproveitaram a ocasião, lançaram-se ao ataque e o primeiro porta-aviões a ser atacado foi o Lexington, o segundo do mesmo nome, um navio novo da classe Essex de 34.881 toneladas que recebeu o impacto de um Kamikaze que o deixou a arder com 180 mortos no bojo. Depois foram atingidos o Belleu Wood e o Franklin, todos sem serem afundados mas com avarias graves. Também os porta-aviões Hancock, Intrepid, Cabot e Essex foram atingidos.

Perante tais êxitos, os japoneses chegaram a organizar uma expedição naval para levar 10 mil homens para a Baía de Ormoc. Mas, detectada pelos aviões da TF 38, foi atacada por 345 aparelhos que afundaram todos os navios, incluindo os transportes de tropas.

Os Kamikazes passaram a atacar quase diariamente e quando não encontravam porta-aviões atiravam-se a tudo que flutuasse, mesmo a contratorpedeiros. Os caças das patrulhas eram quase sempre apanhados desprevenidos. Por isso, os Kamikazes só podiam ser sustidos por uma muito numerosa artilharia antiaérea, principalmente de peças de tiro muito rápido como as Oerlikon de 20 mm ou as Bofors de 40 mm. Um dos artilheiros de um conjunto de 20 mm conseguiu abater um Zero Kamikaze para ser atingido pela metade superior do corpo do piloto que saltou para fora com a explosão do seu aparelho. Os Kamikazes trouxeram uma mortalidade muito acrescida à marinha norte-americana nos últimos meses de combate, mas não podiam evitar a derrota, dado o enorme poder dos estaleiros e arsenais americanos. Se tivessem sido utilizados logo a partir da Batalha de Midway quando os americanos mais não tinham do que dois porta-aviões no Pacífico, talvez a sorte da guerra fosse outra. No ar como em terra, o desespero nipónico foi tremendo, mas não impediu operações gigantescas como a conquista de Okinawa a marcar o fim irremediável das forças aéreas e navais nipónicas e parte das terrestres.

Os japoneses ainda chegaram a construir um avião-foguete Kamikaze para ser lançado a partir de um bombardeiro e ser impulsionado pelo motor-foguete o suficiente para chegar a um alvo perto. Parece, contudo, que quase não chegou a ser utilizado. Existe um exemplar num museu em Tóquio.

 

Avião-foguete Kamikaze

 

 

 

A última batalha Aero-Naval do Pacífico foi a operação suicida do couraçado Yamato contra as forças de desembarque americanas ao largo de Okinawa.

O Yamato acompanhado pelo cruzador ligeiro Yahagi e oito contratorpedeiros foi visto a sair do Mar Interior do Japão. Posteriormente soube-se que aquela força só levava combustível para a ida, pois não esperavam regressar a salvo. Tencionavam causar a máxima destruição nas Task Force americanas empenhadas na conquista da ilha de Okinawa. Detectados a tempo por um submarino norte-americano, o Yamato e escolta foi atacado a norte de Okinawa por 386 aviões, tendo os aviões saído antes mesmo de o almirante Mitscher ter a certeza do rumo do Yamato. A procura revelou-se algo difícil devido às nuvens baixas e à chuva, mas subitamente os primeiros Helldivers sentiram os tiros antiaéreos do Yamato. O gigante revelou-se a si mesmo e os TBF com torpedos, bem como, os Hellcats, Helldivers e Corsairs lançaram-se ao ataque mergulhando a partir dos três mil pés, enquanto os 146 canhões antiaéreos do Yamato lançavam para o ar uma autêntica cortina de metralha que não impediu que o gigante fosse atingido por 10 torpedos e seis bombas perfurantes. Começou a meter água e inclinar-se para estibordo enquanto da ponte se ordenava o alagamento da casa das máquinas de bombordo para equilibrar com evacuação do pessoal. Tarde de mais, as munições começavam a explodir e centenas de membros da guarnição ficavam encurralados no bojo do couraçado, acabando por ir para o fundo com grande parte da sua guarnição, pois só 269 homens se salvaram de mais de 2.400. O cruzador Yahagi e quatro destroyers foram igualmente para o fundo. Os americanos perderam apenas 10 aviões mais 84 baixas resultantes dum avião Kamikaze que aproveitou a confusão para se estatelar no porta-aviões Hancock.

Ainda durante o ataque às Filipinas, as últimas conquistas insulares dos americanos permitiram lançar as grandes ofensivas de bombardeamento do território nipónico com os célebres B-29 e depois com os Mustangs P-51 que constantemente metralhavam todos os aeroportos e instalações navais. Os bombardeamentos trouxeram uma dose acrescida de desespero e permitiram a mobilização de muitos mais pilotos Kamikazes e autênticas divisões suicidas que deveria sacrificar-se totalmente para travar a marcha americana. Mas foram as bombas atómicas lançadas a 6 de Agosto de 1945 contra Hiroshima e a 9 do mesmo mês contra Nagasaqui que convenceram definitivamente os japoneses que tinham a guerra perdida, a vitória pertenceu a uma indústria que os japoneses nunca suspeitaram poder existir, apesar de serem igualmente industriais. O erro japonês foi ter entrado na guerra sem possuir já em laboração os meios bélicos de substituição do que seria destruído ao longo do conflito.

           

Foi enfim, num Domingo, 2 de Setembro de 1945, que a bordo do Missouri, foi assinada oficialmente a rendição do Império tão arrogante como louco e que pôs termo à mais longa e trágica guerra que a Humanidade alguma vez conheceu.

 

 

Fim da Guerra - A Bomba Atómica

Efeito das Radiações num dos muito milhares de nascituros nados-mortos ou deformados durante muitos anos após as explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki.


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publicado por DD às 20:53
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