Aqui o autor - Dieter Dellinger - redactor da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007
A Primeira Guerra do Golfo - Epílogo de um Século de Guerra

 

                      USS Ranger na I. Guerra do Golfo

 

Na primeira guerra do Golfo (Pérsico ou Arábe) que ficou conhecida por  “Tempestade do Deserto”, em Janeiro de 1991, o poder naval foi imenso, mas limitado a operar contra objectivos localizados em terra. Os EUA colocaram no Golfo Pérsico e Mar de Oman os porta-aviões Midway, Rosevelt e Ranger; no Mar Vermelho e Mediterrâneo operaram o Saratoga, o América e o Kennedy, transportando um total de 323 modernos aviões de combate que iam desde os caças F-18 e F-14 aos aviões radar, passando por bombardeiros monomotores, etc.  

Para além disso, colocaram na linha marítima da frente dois gigantescos couraçados, o Wisconsin e o Missouri.

Cada um dos velhos gigantes da II. Guerra Mundial operava 16 lançadores de mísseis de cruzeiro Tomahawk BGM 109 com um alcance de penetração da ordem dos 1.250 km e, como tal, capazes de colocar uma carga militar convencional de 410 a 530 kg num alvo situada a essa distância com um erro circular provável de 30 m.

 Também foram lançados mísseis de cruzeiros dos 17 submarinos nucleares de ataque das classes Los Angeles e Providence, dos 4 cruzadores das classe Virginia,  Long Beach e Beverly Hill, bem como dos 4 destroyers das classes Spruance e De Grasse. Ao todo, as forças navais transportaram 483 mísseis, dos quais cerca de uma centena foram disparados no primeiro ataque que causou grande surpresa ao ditador iraquiano, Sadam Hussein. Efectivamente, Hussein não esperava ser atacado por mísseis voando a baixa altitude, entre 10 e 50 m do nível do solo a uma velocidade de 700 quilómetros horários numa trajectória sinusoidal pré-programada.

A operação “Tempestade no Deserto” que ocorreu em Janeiro de 1991 teve como actores principais as forças aéreas terrestres com os gigantescos B-52 carregados de mísseis e os aviões furtivos F-117, além dos F-111, F-15, Jaguars, etc. O objectivo principal foi obrigar iraquianos a retirarem do território do Kuwait conquistado algumas semanas antes, o que foi plenamente conseguido.

A ocupação ou conquista do território do Iraque nunca esteve nos planos dos aliados. Nem sequer o abate do velho “amigo” Sadam Hussein dos tempos da guerra entre o Iraque e o Irão.

 

Iraquianos queimados depois de tentarem impedir o desembarque americano

 

 

 

No Golfo Pérsico, as forças navais intervieram em várias guerras, mas sem assumirem o papel principal. Mais recentemente, no Adriático as forças navais ainda voltaram a disparar contra objectivos terrestres, tal como sucedeu de novo contra o Iraque.

O final do Século viu em termos de guerra naval a simbiose dos velhos couraçados movidos a vapor com os modernos mísseis de cruzeiro, substitutos reais da artilharia de longo alcance. Claro, operando num teatro de guerra em que o inimigo não dominava nem o espaço aéreo nem o marítimo, qualquer embarcação podia transportar lançadores de mísseis e fazê-los disparar.

Hoje, um combate naval entre navios modernos é uma espécie de suicídio mútuo sem que algum dos contendores veja o outro. Os sensores radar e Sonar coordenados por computadores complexos em ligação com meios aéreos ou navais, colocados a grande distância, deverão detectar a presença de elementos hostis e proceder ao lançamento de mísseis mar-mar se se tratar de navios ou mar-ar se se tratarem de aviões. O pessoal muito tenso, envergando luvas e fatos anti-chamas, está postado no CIC (Centro de Informação e Comando) a desejar que as suas defesas não fiquem saturadas pela força atacante e que esta se comporte como vem nos manuais para servir de alvo aos seus mísseis altamente especializados e tecnicamente complexos.

Assim, para combater o avião a grande altitude disparam-se mísseis específicos mar-ar. Se se tratar de enfrentar mísseis rasantes ou aviões próximos, há que fazer actuar as peças super-rápidas multitubos comandadas automaticamente pelo radar. Tudo muito problemático se a ameaça surgir de vários mísseis lançados ao mesmo tempo.

O próprio porta-aviões é hoje um idoso de cabelos brancos, pois as suas cortinas anti-mísseis e as patrulhas permanentes de combate pouco poderão fazer contra os novos “kamikazes” que são os mísseis. Estes colossos dos mares esgotam grande parte dos seus recursos na defesa contra um inimigo aleatório. Só a utilização de meios electrónicos muito especiais é que poderá, eventualmente, impedir a concretização de uma ameaça real. Mas, no fundo, hoje como ontem, os meios ultra-modernos de acção bélica não se destinam verdadeiramente a combater cidadãos possuidores de meios iguais, mas tão só a conseguir uma superioridade contra quem não tem atrás de si os  recursos económicos, científicos e técnicos necessários. O princípio eterno do combate militar foi e continua a ser o de derrotar os mais fracos. Para isso, compete aos políticos proporcionar aos militares alianças de tal grandeza que tornem o inimigo um anão, inviabilizando qualquer tentativa de agressão. Ou não foram os chamados aliados os grandes vencedores da maior parte das guerras, nomeadamente de quase todas nos últimos dois séculos? 

No fim do Século, o símbolo máximo da tecnologia naval, tanto em termos de navio como de sistemas de armas e electrónica, foi e é, sem dúvida, a classe de cruzadores norte-americanos Ticonderoga, também denominadas plataformas do sistema “Aegis”, equipados com dois conjuntos da radares de varrimento electrónico providos de 4 mil antenas, o que permite ver um avião a 1.600 km de distância e seguir as trajectórias de 280 mísseis disparados simultaneamente. Além disso, embarcam uma série de câmaras vídeo, sonares passivos e activos, etc. e 16 grandes computadores UYK-7 mais doze pequenos UYK-20 que permitem fazer a ligação contínua entre a detecção e o disparo dos seus 122 mísseis Standard SM-1 SAM e 20 ASROC, além do canhão de 127 mm de tiro automático e dois helicópteros “Seahawk”.

Apesar desta panóplia toda de detecção, no dia 3 de Julho de 1988, nas águas do Golfo Pérsico, o cruzador desta classe Vincennes disparou um míssil Standard SM-2 contra um “Airbus 300 B” da companhia iraniana “Iran Air” que acabava de descolar do aeroporto de Bandar Abbas em direcção ao Dubai. O comandante americano transmitiu para o seu comando naval que tinha acabado de abater um F-14 do Irão quando o Airbus voava ainda a 3 mil metros de altitude e qualquer criança sabe distinguir um F-14 dum Airbus.

O Vincennes acompanhado pela fragata Montgomery acabava de escoltar naquelas águas alguns petroleiros do Kuwait quando no regresso detectaram a presença de algumas pequenas vedetas iranianas que navegavam na sua direcção. Imediatamente os navios americanos abrem fogo e afundam duas vedetas de todo inofensivas, avariando a outra, sem que tenha existido um estado de guerra entre o Irão e os EUA. Cinco minutos depois, os radares do Vincennes detectam um avião a uns 10 km de distância e a baixa altitude e disparam automaticamente dois mísseis Standard, tendo um atingido o avião civil. Os oficiais americanos dizem que pediram ao avião que se identificasse e que este não teria respondido. Provavelmente passou-se tudo com tanta rapidez que os pilotos iranianos nem tiveram tempo de ouvir alguma mensagem com pedido de identificação e de dar a devida resposta. De resto, nos primeiros dez minutos de um voo, os pilotos civis estão geralmente demasiado ocupados a verificar a instrumentação para poderem ouvir mensagens rádio. Acrescente que o aeroporto de Bandar Abbas do Irão tanto é civil como militar, mas enquanto os controladores aéreos militares iranianos tinham conhecimento do ataque americano às vedetas, os civis não foram informados. Aparentemente não havia contactos entre a torre militar e a civil, o que é típico em quase todos os países.

Já em Maio do ano anterior, 1987, a fragata americana Stark da classe Oliver Perry, foi alvo de um ataque iraquiano perpetrado por um Super-Étandard que lançou dois mísseis “Exocet”, tendo um acertado sem afundar o navio mas causando 37 mortes. A partir dessa data, os navios americanos receberam ordens para afundar todo o avião que se aproximasse até 32 km do mesmo sem responder ao pedido de identificação. 

Ambas as acções decorreram durante a guerra entre o Irão e o Iraque com o então amigo dos americanos, Saddam Hussein, a tentar conquistar uma parte do Irão dos Ayatolas e os americanos a provocarem os iranianos navegando nas suas águas territoriais.

 

Infelizmente, o espírito de guerra sobreviveu até aos últimos dias do Século e do Milénio, tudo indicando que a guerra não é um fenómeno susceptível de ser eliminada pela civilização e cultura dos povos.

Não, o Século XX termina com menos esperanças num futuro de Paz e progresso do que se tinha no início do mesmo Século, mas bem mais que há uns dez anos atrás.

Em 1900, escrevia-se que as grandes nações civilizadas teriam acabado com a guerra, pois os políticos cultos e civilizados estariam votados ao entendimento, só os “selvagens” é que ainda se guerreavam. O jornal americano “Chicago Tribune” escrevia a 1 de Janeiro de 1900 que se esperava um “Século da Humanidade e de Irmandade entre todos os homens”. Década e meia depois, os “civilizados” lançaram-se na mais inacreditável das selvajarias nas trincheiras de 14-18. A ideia da guerra como expressão máxima da vida de um povo, tão cara aos alemães do início do século, ficou para sempre ligada à total impiedade dos holocaustos, massacres de inocentes e outras exacções mais próprias do pior dos infernos que o Homem alguma vez imaginou.

Eric Hobsbawn refere 183 milhões de vítimas da violência militar e política verificadas ao longo do Século que agora terminou. Mais de 10% da população do Planeta no início do Século, mas, mesmo assim, insusceptível de afectar o enorme crescimento demográfico dos últimos 100 anos que tanto marcou a nossa época, fazendo de Sir Alexander Fleming, o descobridor da penicilina, a personagem mais importante do Século.

A guerra é sempre um mal, mas neste Século foi conspurcada por duas ideologias totalitárias da morte. 

A alemã da luta permanente dos povos transformados em quase espécies biológicas em que a raça superior elimina a inferior. E a marxista-leninista da luta de classes transformadas também em quase raças diferentes votadas ao combate eliminatório. Da primeira ideologia resultou a guerra de destruição humana de 14-18 e a guerra holocáustica de 39-45 em que os alemães ensaiaram nos judeus os massacres que pretendiam vir a realizar noutras populações se ganhassem a guerra e foram vítimas dos mais pavorosos bombardeamentos que se possam imaginar. Ambas as ideologias assentavam em conceitos falso, os povos não são espécies ou raças destinados a serem seleccionados pela destruição mútua e as classes sociais não são agrupamentos de indivíduos destinados a massacrarem-se como aconteceu na Rússia/União Soviética desde os primeiros dias de Revolução de Outubro. O simples facto de entre as primeiras vítimas dos massacres leninistas estarem os operários e marinheiros da base naval de Kronstadt, frente a Petrogrado, que até foram os verdadeiros obreiros da Revolução, prova que não havia classes sociais em luta, mas tão só Lenine e um pequeno grupo de conspiradores em busca do poder ditatorial e dispostos a matar tantos burgueses como operários e camponeses quantos fossem necessários para consolidar o seu poder. Os massacres horrorosos dos camponeses “Kulaks”, aqueles que verdadeiramente trabalhavam a terra, e o massacre e deportação de vários povos da Rússia provam também que aqueles que pretendiam actuar em nome dos operários e camponeses dispunham-se a matá-los impiedosamente se não se submetessem à sua sede criminosa de poder.

O Século XX pode vir a ser descrito pelos historiadores do futuro como o Século negro das guerras e massacres de homens, animais e plantas se o Século XXI não for melhor e nada indica para já que o seja. 

As realizações da técnica e ciência serão, sem dúvida, tidas como importantes, mas virão a ser ofuscadas por aquilo que a Humanidade fará no futuro, se para tal haver Paz suficiente. O homem destruidor do Século XX não tem futuro no Século XXI, pelo que ou será substituído por gerações de cidadãos mais capazes de preservarem tanto o ambiente natural como do meio humano ou a Humanidade acabará por soçobrar porque alguém não deixará de acender o rastilho nuclear.

Vedeta da guarda costeira norte-americana em patrulha nas águas do Kuwait

 

 



publicado por DD às 23:13
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1 comentário:
De joana a 10 de Abril de 2008 às 09:37
isto e tao mau como o undertaker e isto parace o meu cu a cagar


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