Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007
A Conquista de Goa e de Malaca

 

 

A “Flor de La Mar” foi integrada na reconstituída armada da Índia, acrescida com grande parte da esquadra do Marechal. Com vinte naus, duas galés e um bergantim tencionava Albuquerque reconquistar Ormuz, mas disseram-lhe que seria melhor apoderar-se de Goa. Assim o fez, as naus de Albuquerque fizeram uma campanha feliz; conquistaram Goa sem um tiro, mas acabaram por retirar perante a investida do célebre Idalcão. Posteriormente, Albuquerque voltou a Goa com todas as suas naus e logrou de vez a primeira e quase definitiva conquista portuguesa em terras asiáticas.

 

Conquistada que estava a posição lusa em Goa, Albuquerque embarcou novamente na “Flor de La Mar”, agora a sua capitania, e fez-se à vela para Malaca com mil homens em 16 naus.

A “Flor de La Mar”, naus ainda vistosa mas carcomida pelo tempo, com 15 navios embandeirados atrás entrou em Malaca ao som de trombetas e juntos salvaram durante meia hora – escreveu Elaine Sanceau. Era a última aventura da célebre nau, cuja história nunca foi escrita antes.

A conquista de Malaca foi mais uma operação terrestre que naval, pelo que o papel da “Flor de La Malaca” foi essencialmente de navio de comando; aparte alguns bombardeamentos, a sua guarnição combateu sempre apeada, indo Albuquerque à frente das suas tropas.

Resolvido que estava o “problema” de Malaca e cumpridas as ordens de D. Manuel I com alguns anos de atraso, Albuquerque apressou-se, em Janeiro de 1512, a partir para Goa, aproveitando os ventos favoráveis da Monção.

Ao fim de nove anos de serviço no mar, a “Flor de La Mar” estava arruinada. A carpintaria estava prestes a desconjuntar-se e sessenta escravos trabalhavam noite e dia nas bombas para manter a nau a flutuar. Castanheda, o cronista da Índia, diz que os marinheiros ter-se-iam recusado a embarcar nela se o próprio Albuquerque não seguisse a bordo. Para além do Governador, a “Flor de La Malaca” levava quase todo o tesouro de Malaca porque era ainda a nau mais espaçosa da armada de Albuquerque em Malaca. Infelizmente, só as naus “Enxombregas” e “Trindade” regressaram com Albuquerque a Goa.

A “Flor de La Mar” podia velejar com bom tempo, mas não estava em condições de navegar no meio da tempestade. Por isso, pouco depois de sair de Malaca lançou ferro frente á costa de Sumatra, enquanto se levantava um forte temporal. “A nau baloiçava doidamente – escreveu Gaspar Correia – puxando as amarras, o que provocou o desprendimento de partes do costado podre. As bombas já de nada serviam; a “Flor de La Mar” afundava-se.

Albuquerque obrigou toda a gente a trabalhar na construção imediata de uma grande jangada. Os inválidos foram metidos no batel do navio, enquanto o governador com uma criança escrava ao colo e outros companheiros recolheram à jangada. Tiveram sorte, pois logo após estarem na jangada e no batel, a “Flor de La Mar” partiu-se ao meio ao bater num rochedo e foi para o fundo com todo o rico tesouro de Malaca. A jangada e o batel derivaram para a costa durante a noite tormentosa e numa pequena enseada ancoraram à espera do alvorecer.

Na manhã seguinte, – escreve ainda o “eterno” cronista Gaspar Correia – Pêro de Albuquerque, capitão da “Trindade”, viu bocados da nau almirante a flutuar e imediatamente se dirigiu para o local do desastre. Fidalgos houve que protestaram; aproar à terra com mar assim era loucura, em vez de um naufrágio seriam dois. Mas de nada servia discutir com Pêro de Alpoim. A “Trindade” lançou ferros logo que viu a jangada baloiçando-se no côncavo das ondas; Pêro de Alpoim mandou de imediato arriar o batel a recolher os náufragos.

Terminaram assim, nove anos de aventuras de uma das mais notáveis naus que a carpintaria portuguesa logrou alguma vez construir e cuja celebridade não terminou naquele distante ano de 1512, pois o seu nome perdura até aos dias de hoje por via dos muitos caçadores de tesouro e arqueólogos submarinos. Diz-se que do seu bojo foi já retirado parte do tesouro, mas ninguém confessa o local certo por não haver certezas e admitir-se que as duas partes da nau se tanham separado muito uma da outra e haja ainda muito mais para descobrir.

 

 

Texto da autoria de Dieter Dellinger publicado na REVISTA DE MARINHA na edição 53 de Abril de 1989.

 



publicado por DD às 15:42
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