Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
Dieter Dellinger: As Naus da Epopeia Portuguesa

 

 

           

 Albuquerque no chapitéu da nau, recostado numa cadeira de espaldar olhava a cidade toda azulada sob o luar e escutava o marulhar da água batendo no costado do navio; ali estava pois ela, a Ormuz desejada – escreveu Gomes da Costa em “Descobrimentos e Conquistas”.

            Pouco antes, “os navios negros, escalavrados pelo mar, as cobertas abertas pelo sol por onde penetravam nas câmaras e paióis os fortes aguaceiros que de quando em quando caíam” , chegaram à rada de Ormuz. A nau capitânia, a “Circe”, toda eriçada de canhões, fundeou frente ao Paço do Rei de Ormuz. As outras naus: a poderosa “Flor de La Mar” sob o comando do intrépido João da Nova, a “Rei Grande” de Francisco de Távora, a “Rei Pequeno” de Teles Barreto, a “S. Jorge” de Afonso Costa e a “Espírito Santo” de Nuno Castelo Branco, além de uma fusta armada em Scotorá, seguiam os movimentos da capitânia.

            No porto estavam mais de quatrocentas embarcações, entre as quais umas sessenta naus. Uma delas, a “Meiri” do Rei de Cambraia de 800 tonéis, mil homens de guarnição e inúmeros canhões; outra, de Diu não lhe ficava muito atrás em tamanho e equipamento. Muitas para seis naus portuguesas de tolda negra e rota. Albuquerque mandou um escaler dizer ao capitão da grande nau para ir ter com ele, pois se não fosse afundaria a nau. O capitão amedrontou-se e foi recebido por Albuquerque rodeado de homens de armas, bandeiras e sedas a tapar os buracos da sua nau. Intimou-o a dizer ao Grão-Vizir que governava Ormuz em nome do Rei de 15 anos de idade para se submeter ao poder de D. Manuel II, mas logo de seguido mandou o intérprete segredar ao assustado capitão que desejava que o Vizir recusasse a sua proposta porque a sua gente estava desejosa de travar uma batalha. O homem ficou espantado, seis pequenas naus contra sessenta e mais algumas centenas de “terradas”, pequeno navios a remos e com uma vela latina da época, algo semelhantes aos “Dhows” do Golfo Pérsico de hoje. Não utilizavam artilharia, levando apenas frecheiros.

            Durante todo o dia, não veio a resposta, mas houve movimento de gente de armas e as naus de Ormuz estavam a ser reforçadas com pessoal armado vindo de terra, enquanto a Armada de Albuquerque estava muito desfalcada de gente e grassava muito doença. O grande capitão-mor português não perdeu mais tempo.

            “Fogo” – bradou Albuquerque – e em breve fervia o combate. Os grandes navios vomitavam pelouros e os terradas lançavam nuvens de flechas. “O troar da artilharia era ensurdecedor” – escreveu Elaine Sanceau – “os portugueses, inteiramente cercados pelo inimigo, não cediam. Canhão contra canhões, eles eram melhores artilheiros e disparava com uma certeza devastadora”.

            “Uma hora ante manhã, Albuquerque mandou virar o cabrestante e foi-se a “Circe” aproximando da “Meiri” e logo que chegou à distância eficaz salvou-a com quatro peças grossas, cujos tiros a atravessaram, e com berços e falcões tanta gente lhe matou que os outros se refugiaram em baixo”.

            Os grandes canhões portugueses de bronze levavam a melhor sobre a artilharia de ferro que os turcos trouxeram para o Índico, enquanto os capacetes de ferro e as armaduras aguentavam quantas frechas eram lançadas. Todas muito juntas, as gentes das “terradas” deixavam-se matar como lebres pelos tiros dos portugueses e fugiram em grande número para terra.

            Albuquerque atrasou a abordagem das naus inimigas, preferindo destruir a maior parte delas com as suas bombardas de tiro baixo que chegava a fazer buracos abaixo da linha de água e só depois apresou vinte naus já quase abandonadas pelas respectivas guarnições.

            Quando as suas mostraram que queriam conquistar a cidade, os homens de armas refugiaram-se no perímetro murado a deixaram as naus abandonadas, tendo os homens de Albuquerque começada a largar fogo às mesmas. Como isso seria o fim da cidade de Ormuz que vivia do comércio marítimo, o Vizir rendeu-se e permitiu aos portugueses a construção de uma fortaleza, o que não foi possível acabar porque os capitães das restantes naus não queriam nada com fortalezas e alguns acabaram por desertar para Goa. Só passados sete anos é que Albuquerque voltou a Ormuz e conquistou a cidade sem um combate, tal o temor que inspirava a toda a gente da região.

            Sete anos após a chegada à Índia de Vasco da Gama, as naus de Albuquerque faziam de D. Manuel I o distante senhor dos mares. Mesmo após longos períodos de mar sob o sol tropical, as suas grossas bombardas destruíam os pesados galeões turcos, afundavam as naus de Cambraia e afugentavam as “terradas” do mouro.

 

                                     

 

            .

Publicado pelo autor na REVISTA DE MARINHA de Março de 1989

Assinaturas: revistamarinha@netcabo.pt



publicado por DD às 23:34
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