Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008
A Jangada Brasileira

                      

 


            Aquilo reflectia os raios solares, enquanto me aproximava célere num "buggy" pela areia molhada daquela infindável praia da costa cearense, no Nordeste brasileiro. Já perto, percebi  que o estranho objecto mais não era que uma prosaica carroçaria de automóvel de sucata instalada numa jangada do alto tão típica daquelas paragens. O resto da máquina moderna ia para o largo a fim servir de abrigo à fauna piscícula. A mais antiga máquina da humanidade, a jangada, transportava à vela o objecto essencial dos nossos dias. Uns cem mil anos de civilização separavam os dois instrumentos.

            Ao longo da excursão de quase uma centena de quilómetros pelas praias cearenses muitas foram as jangadas que vi na sua faina habitual de pesca ou já em descanso varadas naquelas areias luminosas que originam uma incrível paisagem dunar de vez em quando entrecortada por arribas arenosas multicolores ou lagunas interiores e riachos nesse Brasil gigante.

            Efectivamente, a mais primitiva das embarcações, nascida com o "Homo Sapiens" há dezenas de milhares de anos, continua nas costas brasileiras, e em poucos mais locais da Terra, a cumprir a sua função económica, neste caso a pesca e, nalgumas praias brasileiras, o transporte de turistas em cruzeiro.  É certo que a jangada brasileira não é a mesma de há décadas atrás, deixou de ser uns toros amarrados para dar lugar a uma construção naval em tábuas revestidas a aparelho, capa e subcapa. A jangada de hoje é um barco largo de fundo chato sem encolamento que se curva na zona da popa para albergar uma quilha terminada em cadaste de leme. A proa afia para cima de modo a reduzir a fricção no elemento líquido. Os bordos são baixos e fecham num convés soldado ao costado com pés de carneiro ao centro, fazendo da embarcação uma espécie de flutuador ou quase uma prancha de surf de dimensões maiores, completamente oca e inafundável. Move-se graças a uma vela triangular latina arvorada em mastro inclinado e envergada em carangueja. Usa o leme ordinário quando veleja e remo de espadela quando manobra nas lagunas ou vara na praia.

            Para bolinar, ou evitar o caimento, o jangadeiro utiliza um pranchão móvel que serve de patilhão.

            Uma prancha simples faz de assento ao tripulante, enquanto um grande cesto negro serve de depósito do pescado e noutro vai a linha e os anzóis com a chumbada e o isco.

            Só a chamada jangada do alto, a maior com mais de 8 metros de comprimento, é que recebe o nome de jangada. As mais pequenas são bote, risca, raso, rasinho, curuba, serrador, paquetê, catraia ou ximbelo. A denominação tem a ver com a forma como pescam ou pelos traços que deixam na areia. A pesca mais frequente é à linha com a embarcação fundeada em pesqueiro, denominada "pesca de pita", ou, então, é pesca de corso ou corrico, em brasileiro de praia, quando as espécies piscículas preiam a isca em movimento.   Quando os anzóis são encastoados em linha comprida sem chumbada chamam-lhe no Ceará "pesca de boiada ou de bubuia".  Por vezes lançam redes e até arrastam-nas de verga, mas a tendência para as boas capturas tem diminuído, tal como a utilização de tripulações numerosas em jangadas grandes. As jangadas maiores vão à "pesca de dormida", assim chamada por demorar mais de um dia no mar. Quase todas as embarcações que se vislumbram nas praias são de um único mestre. A existência de um ajudante, o coringa, é rara. Nas jangadas do alto vão em geral quatro tripulantes, o mestre proeiro, o rebique, segundo a terminologia do Ceará, ou bico de proa, na Baía, e os contrabicos.

            As jangadas mais pequenas dedicam-se à "pesca no raso", daí terem as embarcações o nome de rasos.

            - Trazem todo o tipo de peixe para terra, - diz o velho jangadeiro da comarca de Beberrique, de seu nome Jack Tuio, - desde o peixe-chato (linguado, solha, etc.) ao peixe-roda ou lua com uma nadadeira dorsal imensa de um azul prateado. Chegam a ter três metros de diâmetro e a pesarem mais de uma tonelada. Também é conhecido por bezedor, lua ou rodim.

            - O peixe mais abundante nas nossas águas,  - continua o Tuio, - não presta para nada. É o peixe-rei, pequenino com 8 cm, mas vem aí em cardumes gigantesco. Serve para ser comido por outros, mas arrasa o alimento vegetal dos outros peixes. Dele se alimentam as espécies carnívoras, principalmente o peixe-diabo ou pescador que atrai o rei com os seus filamentos, engulindo-o sem sair do fundo lodoso em que se esconde. È peixe-canibal, não serve para o homem comer.

            - Também há xarrocos, cabeçotes, peixe-serra e até voadores que chegam a saltar 200 metros.

            - Sabe, existem no Brasil umas dez mil jangadas que alimentam uma vasta população de pescadores das aldeias de praia e suas famílias. O custo relativamente baixo das embarcações e a sua facilidade de manobra permite a propriedade por parte do ou dos tripulantes sem intermediação de algum capitalista explorador. Muitos jangadeiros estão organizados em cooperativas de dimensão reduzida, dado não quererem alimentar o vício de burocratas improdutivos. O Ceará é, sem dúvida, o Estado jangadeiro do Brasil com mais de três mil unidades.

            Muito me ensinou o velho pescador,  senhor de verbo fácil com grande profusão de substantivos como todos os brasileiros,  avô do mini-guia que nos acompanhou na visita à comarca "litorânea" de Beberique, a sudoeste de Fortaleza, capital do Ceará.  Zona turística celebrizada pelas suas arribas areníticas de areias multicolores utilizadas na confecção de notáveis obras de arte metidas em recipientes de vidro, trabalho a que o velho Tuio se dedica agora. Em vernáculo cearense, dizia-me que as actuais embarcações não se comparam às antigas feitas de paus roliços tiradas de uma árvore que dá pelo nome de Cordia ligados entre si por cordame vegetal.  Os índios utilizavam este meio de transporte e que ele herdou dos seus avós o gosto e a arte da pesca em jangada, pois, como quase todos os habitantes do Ceará, é índio também, mas não puro, pois esses são poucos. Para os índios Tupis, a jangada era conhecida por "Piperi" e o nome luso vem do hindustani "janga" trazido pelos portugueses. Pero Vaz de Caminha chamava-lhes almadias.

            - Sabe, - acrescentou o Tuio, - o jangadeiro é um mestre na sua arte, conhece os fundos arenosos, as correntes, os ventos e os céus, prova a água para ver se está mais ou menos salgada e sabe a cada momento qual o peixe que há para um dado sabor e a que temperatura deve estar a água. É tudo experiência, mas mais que isso, vontade de aprender. Depois de encontrar um certo tipo de pescado, os novos devem examinar a água, provar-lhe o gosto, sentir a temperatura, saber se é água do fundo ou de superfície e que cor tem e de onde vem o vento e qual a direcção da corrente. Depois é fácil, em água igual volta a encontrar o mesmo peixe. O peixe nada aqui sempre na sua água, nunca a troca por outra, há uma água para cada espécie.

            E já apanhou algum gigantesco bezedor?  Perguntei-lhe timidamente.

            - Mais do que um, mas foi há anos. Em 1979, sim, recordo como se fosse hoje,  apanhei um orelhão, que é quase o mesmo que o bezedor, com mais de três metros de largura e uns cinco de comprido. Lutei horas com ele para o trazer de arrasto para a praia, bati-lhe vezes sem conta com a esparrela que ficou vermelha de sangue e rachou de alto a baixo. Quando varei não me podia mexer mais, tão cansado estava. O safado pesava mais de uma tonelada. Nunca esperei pescar um exemplar assim, mas a vida é "uma caxa de surpresas", nem fui capaz de medir e pesar a água do peixe para lá voltar.

            E tubarões, há para aqui? Já capturou algum?

            - Ao largo há muitos, mas o verdadeiro tubarão só aparece quando o mar cheira a melancia, parece mentira mas é verdade. Aqui perto há o peixe-serra, agressivo, mau e enorme, passa dos 4 metros. É  misto de tubarão e raia, gosta de ficar parado no fundo e quando está no fim da vida chega-se às jangadas para que adoptemos as rémoras que o acompanham sempre, limpando-lhes a boca e os dentes dos restos deixados de última refeição. Julgam que as jangadas são peixes irmãos e querem que os seus queridos parasitas continuem a viver depois da sua morte. Nos seus melhores anos atacam tudo, até os pescadores inadvertidos. Pior que eles só os pintadinhos, uns cações gigantes que gostam de dar uma violenta rabanada num jangada para a virar e abocanhar os tripulantes. Se não levarem logo uma violenta pancada de remo dão cabo de nós.

             Mas, enfim, amigo, os gigantes são cada vez mais raros, o que há aí é peixe miúdo e cada vez menos. Aqui ou no sertão nunca deixámos de ser gente de fome. Sabia que quando temos fome, vemos muito melhor. Um pescador que vá ao mar sem nada no estômago, vê bem até de noite. Não sabia?

            Podia ficar horas a ouvir o velho Tuio, mas não havia tempo, o autocarro esperava já por nós. Adeus amigo, índio brasileiro do mar. Até à próxima.

  

                     

 

Dieter Dellinger: Artigo Publicado na REVISTA DE MARINHA de Junho/Julho 2000.

Pedido de assinaturas: revistamarinha@netcabo.pt



publicado por DD às 14:42
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