Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
Kyrenia

 


               

                   

A  antiga civilização grega caracterizou-se por um fenomenal tráfico marítimo que deixa ainda hoje toda a gente admirada. Assim, Atenas, por exemplo, no Século de Péricles e depois da guerra do Peloponeso importava anualmente cerca de 100 mil toneladas de trigo do Egipto, Creta e outras regiões mediterrânicas. Além disso, mantinha um tráfico intenso com a península itálica e, bem assim, com a longínqua Ibéria. E para além dos cereais circulavam nas rotas marítimas de então grandes quantidades do precioso mel que fazia as vezes do açúcar de hoje, porcelanas, armas metálicas, madeiras de construção, panos, peles, ferramentas e escravos. Das costas caucásicas do Mar Negro ao extremo ocidental do Mediterrâneo não havia costa e porto que não fosse visitado regularmente pelos navios atenienses e por muitos outros das restantes cidades portuárias gregas. Tanto com o propósito de transaccionar produtos como com outros objectivos como assaltar, roubar, etc., actividades normais e fundadoras da civilização urbana que deu origem a todos os valores que nos rodeiam. A cidade antiga, Roma por exemplo, como quase todas as cidades gregas, surge inicialmente como local inacessível destinado à guarda dos produtos resultantes do latrocínio provocado por pastores sem gado, camponeses sem terra e caçadores sem caça. Para o efeito, a urbe primitiva surgia em local acessível de longe e simultaneamente inacessível de perto, logo um monte junto a um vale ou cruzamento de vales, uma colina no fundo de uma baía ou perto de um rio ou limitado por pântanos que faziam reduzir o comprimento de uma frente defensiva. A civilização urbana nasceu mais em encruzilhadas de possíveis rotas marítimas que caminhos terrestres e começou no Mediterrâneo e Mar Egeu favorecida pela geografia insular e por costas bem providas de baías, enseadas e penínsulas com mar relativamente calmo, pelo menos no verão.

         Por isso, a questão fundamental para uma tal civilização marítima residia no navio. Que tipo de navio poderiam os atenienses possuir para navegar tão intensamente no Mediterrâneo e como podiam impulsionar tal navio. Os vasos gregos mostram frequentemente navios, mas quase sempre estilizados de uma forma bastante primitiva; naves de pano redondo arvorado num mastro inclinado e relativamente baixo, excessivamente bojudas sem leme, guiadas apenas por um remo de esparrela lateral numa das alhetas e sem remadores permanentes.

         O navio ateniense derivava, sem dúvida, da nave fenícia que também navegou muito no Mediterrâneo e terá chegado ao Tejo bordando a costa atlântica da Península. Mas terá evoluído para o transporte de bens em massa, já que são muitos os achados arqueológicos submarinos reveladores da presença de grandes quantidades de ânforas com vinhos, azeites ou trigos. A quantidade de depósitos encontrados mostram a existência de um tráfico marítimo extremamente denso que implicava navios bem melhores que aqueles que se admite como tendo existido na antiguidade.

         O mistério manteve-se até à descoberta, em 1967, dos restos bem preservados de um navio mercante.

O navio terá sido construído por volta de 400 antes de Cristo, tendo naufragado perto de Kyrenia na costa norte da ilha de Chipre.

Mergulhadores arqueólogos descobriram um casco de navio afundado há muito. Cerca de 60 por cento estava intacto com quase toda a quilha e parte da caverna, bem como restos importantes do forro exterior, nomeadamente da zona do encolamento, o qual era revestido por placas de chumbo que o protegeram das algas e moluscos durante cerca de 2 mil e quatrocentos anos.

A carga do navio ainda estava intacta, sendo constituída por algumas centenas de ânforas com vinho de Rodes e amêndoas, além de várias mós. As cerca de seis mil peças do navio foram estudadas ainda no meio líquido por cientistas e construtores navais, sendo medidas e desenhadas em todos os seus aspectos. Os arqueólogos norte-americanos Michel Katz e R. Stefy da Universidade da Pennsylvania elaboraram assim desenhos técnicos do navio com a perfeição de qualquer construtor naval moderno. O navio passou a denominar-se Kyrenia e verificou-se assim que media 14,75 entre as rodas da proa e da popa e 4 m de largura. O seu casco era relativamente bojudo e todo construído em madeira de cedro, apresentando uma proa bastante “moderna” e uma popa fechada terminada em roda alta. Deslocava cerca de 25 toneladas. O mastro de 11 metros de altura estava colocado no fim do primeiro terço do navio para arvorar uma vela trapezóide de 66 metros quadrados. Um leme de cadaste não existia, mas em sua vez dois remos de espadela, um a bombordo e outro a estibordo, nas respectivas alhetas e susceptíveis de serem guiados por uma só pessoa em simultâneo, pois estão ligados por uma barra comum.

         Entre outras particularidades da arquitectura naval do navio, salienta-se o costado bastante elevado. A tripulação seria constituída por um mestre, o timoneiro e dois auxiliares para servir a vela e os remos de espadela.

         Os achados arqueológicos do navio foram retirados do meio líquido para serem colocados em tanques nos quais se fez a substituição lenta da água por ceras poli-glicólicas. Até o açúcar dá para ocupar os espaços líquidos e impedir o desmoronamento da madeira em consequência da seca após quase dois milénios e meio de imersão. Os restos do navio estão em exibição num museu edificado expressamente no Castelo de Kyrenia.

         Mas, o mais interessante foi a construção de uma réplica perfeita. A obra foi levada a cabo pelo Instituto Grego da Tradição Náutica sob os auspícios da Ministra da Ciência e Cultura do então Governo socialista da Grécia, Melina Mercouri.

         No porto do Pireu, Melina Mercouri, também conhecida como actriz famosa, foi a madrinha do navio aquando do seu lançamento à água.

         Devidamente equipado segundo a tradição ateniense, o Kyrenia II realizou uma viagem inaugural de 600 milhas para repetir as navegações de há 2 mil e quinhentos anos pelas ilhas do Mar Egeu. Seguiu-se depois uma viagem de umas mil milhas.

         Já nos primeiros ensaios, os tripulantes puderam rebater a teoria de que os navios da antiguidade eram fracos de manobra e que as velas trapezóide não impulsionavam bem. Na verdade, revelou-se bem o contrário. Os dois remos de guiagem ligados à mesma barra mostraram ser excelentes meios de manobra e o casco obedecia primorosamente. Por outro lado, o Kyrenia II revelou-se um excelente veleiro capaz de navegar bem à bolina folgada e quase à bolina cerrada. Para além da grande vela trapezóide, envergada transversalmente, os gregos antigo utilizavam com ventos fortes duas velas triangulares envergadas na verga transversal que melhoravam muito a aerodinâmica do conjunto.

         A caverna de carga era espaçosa sem coberta de popa à proa. Um amplo tombadilho permitia a acomodação do timoneiro e do mestre, enquanto à proa uma coberta parcial protegia o navio da entrada de água pela proa.

         Enfim, uma boa embarcação que navegava quase tão bem como as naves vikings, das quais foi, sem dúvida, a inspiração. Os gregos não tinham aparentemente inventado o velame latino e só isso permite colocar o navio fora de um tipo evolutivo que chegou quase aos dias de hoje.

                

 Dieter Dellinger - Artigo publicado na REVISTA DE MARINHA

revistamarinha@netcabo.pt

 

 

 

 



publicado por DD às 11:46
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1 comentário:
De Carlos a 3 de Abril de 2008 às 19:15
À muito tempo que por aqui não passava. Hoje com imensa satisfação passei a tarde.
Como sempre um excelente local para se estar a ler.
Carlos


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