Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013
Dieter Dellinger: O Futuro dos Submarinos Nucleares

 

  Míssil Tomahawk lançado de um submarino

 

Com uma formidável carga de 154 mísseis “Tomahawks”, o submarino nuclear americano “SSN Florida” esperou imerso frente à costa líbia para lançar o primeiro ataque devastador contra as bases aéreas e baterias antiaéreas líbias.

 

A 19 de Março de 2006, dos reconvertidos tubos verticais do já antigo submarino estratégico foram lançados 90 mísseis de cruzeiro a quase um milhão de dólares a unidade. Expulsos por gás na vertical, os mísseis acionaram à superfície um pequeno foguete sólido para permitir que o motor “turbofan” entrasse em funcionamento e guiados por GPS e outros instrumentos mais ou menos secretos voaram a uma velocidade de Mach 0,9 para os seus alvos. Permitiram assim destruir uma parte importante da força aérea líbia para deixar entrar os “Rafales” franceses e outros aviões para cumprir a proibição imposta pela ONU ao governo do ditador Kadhafi de não utilizar meios aéreos contra os rebeldes.

 

O “SSN Florida” da ex-classe “SSNBM”Ohio”, como outras unidades iguais de 16.000/18.700t, foram construídos nos anos 80 do século XX como lançadores dos mísseis balísticos intercontinentais “Tridente I e II”. Depois da queda da URSS só ficaram 14 unidades, tendo os outros sido retirados por via dos tratados de redução de armas nucleares estratégicas e, pelo menos quatro, começaram a ser reconvertidos para o lançamento do pequeno míssil de cruzeiro e alguns torpedos, apesar dos americanos possuírem os submarinos mais pequenos de classe “Los Angeles” de 6.000/6.900t que substituíram os vetustos “SSN Seawolf” já quase todos retirados de serviço de 8.000t construídos para ataque com mísseis “Tomahawk” e com torpedos anti-submarinos e anti-navios.

 

Os americanos gastaram cerca de mil milhões de dólares por unidade na reconversão dos “SSBM Ohio” suscetíveis de estarem no ativo até 2027 e mais que é o tempo de duração do coração nuclear, dado que este tipo de navio tem a vida útil do seu reator nuclear pois o casco possui uma resistência total ao tempo. São pois unidades para estarem em serviço meio século ou mais e acaba por ser mais barata a reconversão do que a construção de novas unidades da classe “SSN Virginia” já concebidas para o disparo de mísseis de cruzeiro.

 

Os EUA ficaram com 14 “SSBM Ohio” originais e 4 reconvertidos. Todos são extremamente barulhentos à velocidade máxima da ordem dos 30 nós, mas a baixa velocidade não produzem ruídos detetáveis pelos sonares., Para já não há quem possua meios para os atacarem e destruí-los. Os 14 lançadores de mísseis “Tridente” podem lançar ogivas nucleares W76 ou W88 com um poder letal de 300 ou 475 quilotoneladas a distâncias que podem atingir cerca de 8 mil quilómetros. Reconvertidos, cada um possui o poder letal de um grupo de combate de 8 a 10 submarinos de ataque, mas a Marinha Americana prefere mais unidades pequenas do que os gigantescos “Ohio” reconvertidos.

 

Enfim, o submarino nuclear é, sem dúvida, a mais poderosa plataforma autónoma de armas depois dos porta-aviões gigantes ou antes mesmo se considerarmos a sua capacidade de lançamento de mísseis balísticos com múltiplas ogivas nucleares e com a vantagem de estarem auto-protegidos quando navegam a profundidades da ordem dos 300 a 350 metros e patrulham longe de qualquer objetivo para se aproximarem a velocidade de 25 a 30 nós quando necessário de uma zona de ataque que pode situar-se a milhares de quilómetros de um alvo se utilizarem os meios balísticos ou a pouco mais de dois mil km quando se tratar de mísseis de cruzeiro dos modelos mais recentes.

 

O submarino nuclear foi o tipo de navio militar que mais participou nos diversos conflitos nos últimos 31 anos, desde que a 2 de Maio de 1982, o britânico “HMS Conqueror” se aproximou a 25 nós do cruzador argentino “General Belgrano” e o afundou com o disparo de um torpedo depois de receber a respetiva autorização da senhora Tatcher que então governava o Reino Unido.

 

Nas duas guerras do Golfo para a libertação do Kuwait ocupado pelas forças de Sadan Hussein e para “libertarem” o povo iraquiano do ditador foram também lançados milhares de mísseis de cruzeiro a partir de submarinos postados no Golfo Pérsico, no Mar Vermelho e no Mediterrâneo. O submarino nuclear serve para o primeiro ataque porque nenhuma costa pode ser defendida quanto ao aparecimento súbito de lançadores submarinos de mísseis de cruzeiro que podem reduzir ou anular as defesas inimigas contra ataques aéreos. Os americanos utilizaram quase sempre submarinos que estavam no mar em patrulha há bastantes meses e que, graças à propulsão nuclear, podiam prolongar as suas missões por muitos meses mais.

As suas guarnições bem treinadas aguentaram sem qualquer problema missões que chegaram a durar quase um ano. O “SSN 724 Louisville” da classe “Los Angeles” foi o primeiro submarino a disparar mísseis “Tomahawk” na operação tempestade do deserto depois de fazer uma memorável viagem submerso de 14 mil milhas pelo Pacífico e Índico até ao Mar Vermelho à velocidade de 30 a 31 nós, suspendendo uma missão de patrulha na sétima esquadra que já durava há seis meses. Também o “SSN 773 Cheyenne” da mesma classe foi o autor do primeiro ataque na segunda guerra americana contra o Iraque. Os seus vinte mísseis de cruzeiro fizeram importantes estragos, mas consta que os mesmos não custaram o preço dos mísseis disparados.

 

Os submarinos de ataque da classe “Los Angeles” são mais pequenos que os da classe “Ohio”, mas bem mais rápidos porque atingem os 31 nós imersos, tendo um casco mais fraco e uma menor capacidade armamentista em torpedos e mísseis de cruzeiro.

 

Na guerra contra a Sérvia, a partir do Adriático, os submarinos nucleares americanos e ingleses lançaram cerca de 260 mísseis de cruzeiro contra alvos perfeitamente identificados por satélites e aviões com ou sem piloto de reconhecimento. Os sérvios utilizaram a única tática disponível de sobrevivência contra os referidos mísseis e contra os bombardeamentos feitos por aviões furtivos e outros. Primeiro dispersaram as suas forças e depois criaram um número imenso de aviões, tanques e canhões de engodo feitos com pneus e ferro velho, levando os americanos a gastarem um milhão de dólares de cada vez para destruírem objetivos sem valor. Mesmo contra material verdadeiro, alguma dispersão leva a gastos muito superiores ao que se consegue destruir. De futuro, as nações não devem desfazer-se dos seus tanques e canhões antigos porque podem servir de engodo depois de “modernizados” com umas quaisquer chapas finas de modo a adquirirem a silhueta do material mais moderno.

 

Em termos táticos, o míssil de um milhão de dólares serve para enfraquecer as defesas inimigas e permitir depois as missões dos Fs qualquer coisa com bombas convencionais mais baratas. Curiosamente, os americanos verificaram que os furtivos F-117 são vistos pelos radares quando molhados pelas chuvas, enquanto os mísseis de cruzeiro voam a baixa altitude pelo que os radares só os observam a curta distância e dada a sua reduzida dimensão e possibilidade de serem telecomandados em manobras furtivas quase que não podem ser abatidos e se o forem não se perde a vida de um valioso piloto. Os submarinos modernos lançadores de mísseis de cruzeiro serão tanto mais eficazes quanto mais sofisticados e melhores são os “Tomahawk” que merecem um artigo à parte dada a sua complexidade técnica que os tornaram bem diferentes dos descritos há anos num artigo nesta revista.

Até agora, os submarinos nucleares foram utilizados em muitas missões bélicas, mas nenhum deles foi alvo de qualquer ataque. Claro, atuaram contra potências sem grandes marinhas e, principalmente, na sua capacidade de atacarem alvos terrestres. Por isso, salvo o “HMS Conqueror”, nenhum outro foi confrontado com um objetivo naval.

 

Hoje em dia, todas as nações importantes pretendem dispor de submarinos nucleares ou já os têm. O Brasil vai integrar na sua marinha o primeiro em 2014, A China tem vários em serviço e em construção, a Índia também possui uma unidade de origem russa e pretende construir as suas próprias unidades. Os franceses e ingleses estão a construir novos submarinos para substituir os mais antigos em fim de vida.

Para já, o mais moderno submarino nuclear de ataque europeu é o britânico “HMS Astute”, o qual só é reabastecido com combustível nuclear uma vez em 25 anos e está equipado com sistema de dessalinização de água do mar, purificação do ar ambiente e gerador de eletricidade que poderia funcionar durante todo esse tempo, salvo avaria imprevista. Transporta 38 armas do tipo torpedo ou modernos “Tomahawk” com alcance de 2 mil quilómetros. O seu deslocamento é da ordem das 8 mil toneladas e tem 100 metros de comprimento com uma pequena guarnição de 60 homens para dois turnos de 30 cada. O seu sistema de sonares permite detetar a saída de um grande paquete do porto de Nova Iorque enquanto navega imerso no canal de Mancha e tem o casco revestido por placas anecóides que impedem a reflexão das ondas dos sonares, sendo praticamente indetetável.

 

A Nova Classe de Submarinos de Ataque “SSN Virginia”

 

 

 

Os americanos decidiram evitar o “gap” de 600 lança-mísseis “Tomahawk” a partir de 2027 com a retirada dos reconvertidos “Ohio”, preferindo construir 30 moderníssimos submarinos de ataque a 2,5 mil milhões de dólares de 2012 a unidade e com custos operacionais de 50 milhões de dólares por ano.

 

Trata-se da nova classe “SSN Virginia” ou “SSN 774” que estão a suscitar um intenso debate no Congresso por causa do preço, pretendendo os poupados que o ritmo de construção seja mais lento; não dois submarinos por ano, mas um apenas ou menos.

Já estão em serviço nove “SSN Virginias” e um quase a ser incorporado na Navy, havendo mais 5 em construção, o que tem exigido desde 2004 um enorme esforço financeiro do Estado com a compensação de manter ocupado pessoal de elevada qualidade técnica e científica. Destina-se a substituir a classe “Seawolf” ou evitar a continuação da sua construção dado serem maiores e mais caros, além de terem uma especificidade de combate a outros submarinos que hoje não se coloca com a mesma necessidade dos tempos da guerra fria.

 

São pois unidades de 7.900t e 115 metros de comprimento que apresentam a novidade relativa de terem um novo modelo de propulsor do “pump-jet” que é um turbina metida numa secção de tubo e que evita o ruído produzido pelo fenómeno de cavitação das hélices, já utilizada nos submarinos “Seawolf” O sistema atual foi desenvolvido pela “BAE Systems” para os submarinos nucleares britânicos “Swiftsure”, equipados também com um reator nuclear S9G de água pressurizada que aciona uma turbina a vapor de 40 mil cavalos-vapor,  tendo uma autonomia quase ilimitada, provavelmente de algumas décadas.

 

Os “SSN Virginia” já vêm equipados com um par de mastros fotónicos NA/BVS-1 . Cada mastro contém uma câmara de alta resolução com intensificadores de luz e detetores de raios infravermelhos bem como telémetros laser e um sistema eletrónico de suporte de medidas (ESM). Os sinais são transmitidos por cabo para o posto de comando e, talvez, nem sejam mastros propriamente ditos, mas bóias flutuantes. Há aqui ainda muito segredo técnico.

 

 

Interior confortável e posto de comando do HMS "Astute"

 

 

 

 

 

 

Artigo publicado na Revista de Marinha Nº 974 de Julho/Agosto de 2013



publicado por DD às 18:53
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