Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Domingo, 19 de Fevereiro de 2006
Batalha do Atlântico - Influência na Economia Britânica
Batalhafuriosa.jpg

Batalha Furiosa entre submarinos e escoltas de um comboio.

O ano de 1942 foi só na aparência o da vitória da arma submarina. A 9 de Dezembro de 1941, os EUA entraram na guerra por via do ataque japonês a Pearl Harbour e, na sua cegueira, o ditador germânico declarou guerra aos EUA, o que foi um erro tremendo. No calor da fúria anti-nipónica dos americanos depois de Pearl Harbour, a neutralidade alemã, idêntica à do Japão, relativamente à URSS em guerra com a Alemanha, não deixaria grande margem de manobra a Rosevelt para, por sua vez, declarar guerra à Alemanha.

Em termos de análise histórica contra-factual pode dizer-se que Hitler talvez tivesse conseguido então afastar os EUA da Europa, em vez de os aproximar. O ditador alemão esperava dos japoneses um agradecimento sob a forma de uma declaração de guerra nipónica à URSS, o que levaria a URSS a não deslocar para a Europa as enormes forças que mantinha no seu Extremo-Oriente, levando-a à derrota face ao invasor nazi.

Claro, com um pouco mais de conhecimento de geografia económica e política, o ditador germânico poderia ter-se apercebido que para o Japão, travar uma guerra simultânea contra os EUA, a China, o Império Britânico e a URSS era francamente de mais.

Os EUA estavam praticamente em guerra com a Alemanha por via do apoio dado à Grã-Bretanha e à escolta que a sua marinha guerra dava aos comboios no espaço das 400 milhas da sua costa. Mesmo assim, quando a guerra começa, a navegação costeira norte-americana estava desprevenida e os submarinos de Dönitz lançaram-se ao ataque, o que foi devastador, principalmente para os petroleiros, a presa mais cobiçada pelos “U-Boote”. A estatística sai pois um pouco desvirtuada porque a um excesso de tonelagem afundada corresponde um aumento enorme da tonelagem inimiga e, mais grave, das forças navais apostadas em destruir a arma submarina alemã. Isto, sem falar do principal: a gigantesca capacidade industrial e agrícola dos EUA que podiam trabalhar à vontade sem bombardeamentos e mobilizando as reservas de mão-de-obra proporcionadas pelos desempregados, primeiro, e pelas mulheres, em grande parte já possuidoras de um apreciável nível de instrução básica.

Por isso, o êxito de 1942 foi para os alemães antes de mais o do começo da sua derrota total apesar da superação de algumas crises. A primeira das quais foi provocada pela dupla radar e holofote instalados nos bombardeiros B-24 “Liberator”. O “Coastal Command” conseguiu muito a custo e com algum atraso equipar os referidos bombardeiros com o radar ASV Mark II, o qual apresentava algumas desvantagens, pois detectava objectivos a grandes distâncias mas falhava nas proximidades do mesmo, pelo que o comandante Leight lembrou-se de equipar adicionalmente os “Liberator” com potentes holofotes. Assim, de noite, os B-24 aproximavam-se dos submarinos a navegarem à superfície no Golfo da Biscaia e repentinamente acendiam o holofote para atacarem mortalmente. Quatro submarinos foram afundados no verão, o que levou o comando alemão a equipar as suas unidades com detectores de ondas rádios Metox fabricados em França pela empresa Metox-Grandin, associado a um dipolo rotativo de fabrico alemão. A detecção atempada das emissões de radar permitia a imersão rápida antes do ataque.

Para além disso, os submarinos foram equipados com armas antiaéreas duplas de 20 mm e quádruplas de 37 mm, as quais revelaram-se extremamente eficazes, apesar de não resolverem de todo o problema da segurança antiaérea dos submarinos. No início, para atingir o pequeno casco de um submarino, o avião carecia de uma aproximação excessiva, o que tornava as armas antiaéreas extremamente mortíferas. Na maior parte dos casos, os “Liberator” acabavam por descarregar as suas bombas no mar. Só quando os britânicos se lembraram de atacar em grupo, saturando a defesa antiaérea é que passaram a ter êxito, o que foi ainda acentuado com o aparecimento de aviões equipados com o radar decimétrico “H2S” e mais tarde ainda com o radar ASV Mark III verdadeiramente construído para o ataque aos submarinos. Dönitz conseguiu ainda alguma protecção com o destacamento para a Biscaia de 24 caças JU-88 C; um caça nocturno bimotor, cuja capacidade para abater os bombardeiros não era muito grande, mas, pelo menos, não os deixava atacar submarinos descansadamente, pondo um relativo ponto final à ameaça nocturna aérea.

O aparente sucesso da arma submarina nazi não provocou uma quebra nítida do abastecimento militar da Grã-Bretanha que nunca conheceu dificuldades neste aspecto. Recorde-se que a campanha bem “sucedida” da arma submarina alemã, não evitou que naquele ano, a cidade de Colónia tivesse sido literalmente arrasada por um ataque nocturno de 1.200 bombardeiros que deverão ter lançado mais de 25 mil toneladas de bombas sobre aquela cidade do Reno. Mataram milhares de civis, mas não chegaram a destruir as fábricas que nessa cidade produziam os motores diesel dos submarinos.

Em 1942, o consumo privado na Grã-Bretanha foi ligeiramente inferior ao do ano anterior e a produção de bens de consumo foi 35% inferior ao nível anterior à guerra. O consumo de bens importados ficou reduzido a cerca de 60% do nível de 1939. Mesmo assim, as classes mais proletarizadas da sociedade britânica acabaram por serem favorecidas devido à equidade proporcionada pelo regime de racionamento estabelecido em 1940.

Antes da guerra, muitos cidadãos pertencentes às classes mais pobres passavam muita fome, principalmente os desempregados e as famílias numerosas. E saliente-se aqui que o apoio à alimentação infantil, mesmo insuficiente ao longo do conflito, veio aliviar alguns dos problemas mais gravosos dessas famílias pobres caracterizadas então pela sua numerosa e esfomeada prole.

Todos tinham direito a um certo número de bens de consumo, o que acabou por ser superior ao que tinham as classes dos trabalhadores mais pobres e os muitos desempregados da Grã-Bretanha de antes da guerra.

As classes médias e ricas foram remetidas a uma austeridade redutora do seu nível de vida anterior, o que foi aceite com patriotismo e até sentido como “destressante” dado anular a competitividade diária em termos de “status” social adquirido ou falhado. E o desemprego desapareceu, tendo aumentado em todos os níveis o emprego das mulheres com a introdução da novidade para a época que representou o duplo ou múltiplo salário familiar, conforme se tratava de famílias com filhos crescidos ou não.

Antes da guerra, de cada três quilogramas de produtos alimentares consumidos pelos britânicos, dois eram importados. Em 1941, já só se importava metade do consumo alimentar e este tendia a ocupar menos espaço de carga porque os EUA passaram a fornecer grande quantidade de alimentos desidratados que ocupavam em média um oitavo do espaço de carga dos mesmos alimentos em conserva ou secos.

Além disso, a guerra submarina contribuiu para um grande esforço agrícola da Grã-Bretanha que arroteou milhões de hectares de terras antes utilizadas em campos de golfe, bosques, jardins aristocráticos, etc. O fornecimento de tractores por parte dos EUA permitiu também aumentar a produtividade agrícola, tanto mais que no início da guerra, o tractor ainda não era a máquina utilizada por todos os agricultores. E cada tractor produzia oito vezes o seu peso em cereais, por exemplo.

Mas, saliente-se aqui que os poucos submarinos alemães logo no início do conflito provocaram uma enorme quebra de rentabilidade do transporte marítimo resultante da necessidade de os navios mercantes navegarem em comboios, logo mais lentos e com enormes demoras de carga e descarga. Os portos não podiam estivar rapidamente 50 a 70 navios e, por outro lado, os transportes terrestres não eram capazes de escoar rapidamente tanta mercadoria. O desvio do tráfego marítimo para os portos do norte como Glasgow e Liverpool veio ainda agravar mais o problema. Mas, depois, passados alguns meses, a mobilização britânica veio a resolver estes problemas com o preço de uma relativa quebra no consumo civil. E recorde-se que o prático e eficiente contentor ainda não tinha sido inventado.

No âmbito do equipamento bélico, a Grã-Bretanha conseguiu abastecer-se largamente nos EUA, nomeadamente logo após a evacuação de Dunquerque, quando o exército britânico deixou o melhor do seu equipamento em França.

O apoio à Inglaterra por parte dos EUA foi inestimável para si próprio, já que arrancou com as suas indústrias aeronáutica, naval e outros. Estas estavam num marasmo completo antes de 1938/39. Assim, por exemplo, a produção norte-americana de aviões tinha passado de 6.028 em 1940 para 19.445 em 1942, parte dos quais fornecidos à Grã-Bretanha por compra e depois ao abrigo do “Lend-Lease Act” que estipulava a devolução do material e que mais não significava que uma oferta dos EUA a países cuja luta era tida como importante para a própria defesa dos EUA, mesmo antes dos americanos entrarem no conflito em Dezembro de 1941.

Em 1942, os EUA fabricaram 47.836 aviões, incluindo 12.627 bombardeiros. A produção norte-americana acabou por totalizar mais de 300 mil unidades no decorrer do conflito, às quais se juntaram os 125 mil aviões produzidos pelos britânicos e 14 mil saídos das fábricas soviéticas. A Alemanha contrapôs um número quase ridículo de 111 mil aeronaves construídas desde 1939 e o Japão não chegou sequer aos 75 mil aviões fabricados durante a guerra, enquanto a Itália se ficou pelos 11 mil. Os barcos de Dönitz deverão ter atirado para o fundo do mar qualquer coisa como vinte a trinta mil aviões encaixotados nos porões de navios torpedeados, dos quais poucos eram bombardeiros, já que estes atravessavam o Atlântico pelos seus meios.

 



publicado por DD às 22:06
link do post | comentar | favorito
 O que é? |  O que é?

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Navio "Atlântida" proporc...

Coreia: Desencontros mili...

Submarino USS West Virgin...

Chris Bertish completa tr...

A Mentira do Fim das Pesc...

Expresso: Ana Gomes quer ...

10 Corvetas Modernas

Graneleiro Afundado no Me...

Nova Crise do "Shipping"

Offshores Escondem Dinhei...

arquivos

Maio 2017

Abril 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Setembro 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Agosto 2015

Dezembro 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Agosto 2013

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Outubro 2011

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Dezembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Junho 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

tags

1900 - ano de paz

1904: guerra russo-japonesa

ártico

batalha da jutlândia

batalha das falklands

batalha de midway

batalha de tsushima

batalha do atlântico

batalha do mar amarelo

batalha naval na selva

bluecher

canhão e couraça

corrupção

couraçado lion

couraçado petropavlotch

couraçado queen elizabeth

couraçado scharnhorst

cruzador de batalha derflinger

cruzador vasco da gama

dieter dellinger

dieter dellinger - arquitetura naval

dieter dellinger - envc

dieter dellinger - história náutica

dieter dellinger - motores navais

dreadnought

guerra

guerra da coreia

guerra no mar

guerra russo-japonesa

guerra submarina

i guerra mundial

i. guerra mundial

i.guerra mundial

israel

kamikazes

marinha

nau

navios

paulo portas

petróleo iraniano

revista de marinha

revista de marinha - dieter dellinger

revista do mar

seydlitz

shipping

submarino borei

submarino gymnote

submarinos

submarinos u209pn

torpedo e submarino

u-9

todas as tags

links
contador
Contador de visita
Contador de visita
online
web counter
blogs SAPO
subscrever feeds