Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Domingo, 19 de Fevereiro de 2006
Atlântico: Afundem o Bismarck - Vinguem o Hood
SeloBismarck.jpg





Chovia intensamente e o crepúsculo não consentia muita visibilidade. Os 15 “Swordfish” do Ark Royal levantaram voo sob uma verdadeira tempestade com mar de tal modo cavado que a espuma das ondas molhava os ronceiros biplanos britânicos no convés de voo. Foi com muita dificuldade que as aeronaves conseguiram encontrar o que parecia ser o couraçado rápido Bismarck. Mais de metade da formação lançou os seus torpedos contra uma silhueta cinzenta. Pouca sorte, verificaram logo a seguir. Era o cruzador Sheffield que, por sua vez, não foi atingido já que os respectivos detonadores magnéticos fizeram explodir alguns torpedos prematuramente, enquanto o cruzador conseguia esquivar-se à trajectória de outros.


O Sheffield sinalizou que o gigante germânico estava 12 milhas para a frente. Os aviões regressaram ao seu porta-aviões e uma hora depois estavam de novo no ar em direcção ao Bismarck. O ataque começou poucos minutos depois, pelas 20.45, logo que os pilotos viram os “flash” vermelho-laranja da artilharia antiaérea do Bismarck a disparar, o que lhes permitiu conduzirem os seus ataques ao alvo. A visibilidade naquele tormentoso fim de tarde do dia 26 de Maio de 1941 praticamente não passava de uma milha de distância, o céu completamente negro impedia os raios solares de iluminarem devidamente aquela parte do Atlântico, a 690 milhas do porto francês de Brest, ocupado pelos alemães.
As “malas atadas com cordéis”, como eram designados os velhos “Swordfish”, atacaram de todos os quadrantes, aproximando-se temerosamente para largarem os seus torpedos. Um acertou na blindagem lateral do casco sem causar danos significativos, mas outro explodiu à popa e avariou os dois lemes do “gigante”. Ferido no seu “tendão de Aquiles”, ao Bismarck mais não restaria que esperar a morte frente às forças combinadas aero-navais britânicas. Tanto mais que o almirante Raeder que decidiu do envio de uma poderosa mas solitária força de superfície alemã para o Atlântico não organizou bem a operação, pois não dispôs submarinos nem os quadrimotores “Focke Wulf Condor” de reconhecimento e bombardeamento para apoio ao Bismarck.


Só o U-556 se aproximou da Força H que de Gibraltar trazia o porta-aviões Ark Royal, além dos couraçados Renown, Ramilles e Revenge, mas estando no fim de um cruzeiro normal, o submarino tinha esgotado a totalidade dos seus torpedos pelo que nada pôde fazer, excepto observar no periscópio a presença do porta-aviões naquilo que teria sido um perfeito campo de tiro.


Quase dois dias antes, os 9 “Swordfish” do Victorious tinham voado 120 milhas e vislumbrado o Bismarck, conseguindo, no meio do inferno provocado pela artilharia antiaérea do gigantes alemão, fazer explodir um torpedo na blindagem lateral do navio, sem causar estragos assinaláveis. Depois não voltaram a encontrar o “gigante”.
Os mecânicos de bordo bem se esforçaram em reparar os lemes avariados do Bismarck. Sem êxito, o navio navegava desgovernado e teimava em seguir um rumo a norte direito à poderosa esquadra do almirante Tovey com o porta-aviões Victorious e os couraçados Repulse, Prince of Wales, King George V e Rodney.


O grosso da “Royal Navy” convergia de todos os quadrantes para o local onde estava o Bismarck, já incapacitado para uma operação de esquiva. O fim foi rápido, os couraçados King George V, Rodney e os cruzadores Norfolk, Dorsetshire e Sheffield, além de cinco contratorpedeiros, aproximaram-se para martelar com a sua imensa superioridade artilheira o couraçado alemão. Com o director de tiro avariado, as peças do Bismarck perderam muita da sua eficácia inicial e, pouco a pouco, as superstruturas do navio foram sendo arrasadas sem que o mesmo se afundasse. Já depois de as suas torres de artilharia saltarem para fora e com incêndios ateados por toda a parte, além de ter encaixado mais de uma dúzia de torpedos, o Bismarck foi para o fundo por abertura explosiva das suas válvulas com grande parte dos membros da guarnição mortos, feridos e encurralados no interior devido às escotilhas encravadas ou cobertas por escombros de aço. Só 117 homens da sua guarnição de 2.206 se salvaram.


O batíscafo não tripulado do Dr. Ballard fotografou o Bismarck, provando que o navio assenta direito no fundo com o casco relativamente intacto enquanto as superstruturas estão literalmente destruídas e todas as peças de grande calibre saltaram para fora dos seus suportes, o mesmo sucedendo com outro armamento, mastros e chaminés.
O Bismarck foi, sem dúvida, um dos mais modernos e eficazes couraçados de todas as marinhas. O seu deslocamento médio atingia as 50.900 toneladas e o comprimento perfazia os 250 metros, armando 8 peças de 381 mm, 12 de 150 e 16 de 105 mm AA. A potência motriz chegava aos 160.000 cavalos-vapor, o que permitia atingir a velocidade máxima de 30,8 nós com uma tripulação de 2 mil e trezentos homens. O almirante Günther Lütjens, comandante-em-chefe da esquadra alemã seguia a bordo
Lütjens pretendia repetir o êxito das suas recentes surtidas atlânticas com os grandes navios de superfície da Armada germânica. Só que desta vez, as três dimensões do poder marítimo não estavam à partida coordenadas com precisão. Os almirantes da marinha nazi abandonaram a sua anterior prudência meticulosa.


Acrescente-se, contudo, que a marinha germânica não dispunha de quaisquer meios aéreos e tinham de os pedir à “Luftwaffe” do Marechal Goering, um homem venal e invejoso do êxito de qualquer outra pessoa ou arma, pelo que se travou uma “guerra” surda entre a marinha e a força aérea, pois esta nunca disponibilizou um número suficiente de aviões para patrulharem o Atlântico, nomeadamente o avião de passageiros “Condor 200” de quatro motores e grande raio de acção transformado para fins militares.


O Bismarck içara o ferro frente ao porto de Bergen na Noruega, acompanhado pelo cruzador pesado Prinz Eugen para dar cumprimento à operação “Rheinübung” de ataque aos grandes comboios de navios de transporte com grandes unidades de superfície. Quatro submarinos, dois navios municiadores e cinco petroleiros esgueiraram-se ao longo da costa norueguesa para entrarem no Atlântico, a fim de cruzarem algumas zonas previamente coordenadas a sul dos Açores.


Todas as unidades integrantes da operação Rheinübung” deveriam ter saído em Abril de 1941 e encontrarem-se no Atlântico com os couraçados rápidos Scharnhorst e Gneisenau, então ancorados no porto francês de Brest sob ocupação germânica. Tinham sido levados para aí pelo almirante Lütjens quando comandou uma bem sucedida operação de navios de superfície contra os comboios britânicos.


Lütjens conseguiu afundar 48 navios com um deslocamento total de 270 mil toneladas, o que não impressionou muito o almirante Raeder, pois no mesmo espaço de tempo e com efectivos menores e um investimento mais reduzido em meios navais, os submarinos alemães afundaram muito mais. Mesmo assim, não deixou de ser um êxito, dada a evidente vulnerabilidade de dois navios isolados, mesmo poderosos, frente aos meios aéreos e às poderosas formações de grandes unidades britânicas. Por outro lado, a presença continuada de navios de superfície alemães serviu para desorganizar e mesmo suspender durante algum tempo todo o tráfego mercante ao serviço dos britânicos no Atlântico.


Numa operação mais curta, em Dezembro de 1940, o cruzador pesado Admiral Hipper contorna sozinho as Ilhas Britânicas pelo norte, passa pelo Estreito da Dinamarca entre a Islândia e a Groenlândia e, depois de travar uma breve batalha com um cruzador britânico, chega ao porto de Brest com algumas avarias. Em Fevereiro de 1941, o Hipper sai daquele porto francês para atacar o comboio S.L. 64 ao largo de Freetown, afundando sete navios. Ruma depois a Brest para se reabastecer e sair de regresso às costas norueguesas.


As águas norueguesas protegidas pela “Luftwaffe” estavam a tornar-se num excelente trampolim de saída dos navios de superfícies alemães para o Atlântico, obrigando os britânicos a dispersar os seus maiores navios de batalha na tarefa rotineira de escolta aos comboios.


Na segunda operação “Rheinübung” misturaram-se êxitos com desaires, ambos de proporções gigantescas, mas a relativa má sorte da esquadra de superfície germânica começou logo no início.


Dois grandes inimigos apostavam na destruição da marinha germânica; a poderosa “Royal Navy” muitas vezes superior em número de navios e poder de fogo e o ditador Hitler que desconfiava da marinha. Temia sempre a repetição de uma revolta como a de 1918 pelo que a dada altura disse que preferia ver os seus marinheiros no fundo do mar. Os almirantes, por seu lado, queriam demonstrar a importância da arma naval para atingir o objectivo político de conseguir uma paz negociada com a Grã-Bretanha primeiro, e depois impedir o reabastecimento da União Soviética após o início da operação “Barbarossa” destinada a destruir a URSS e conquistar o espaço geográfico para um grande Império Germânico.


Os dois couraçados Scharnhorst e Gneisenau acabaram por não poder sair por terem sofrido avarias por via dos bombardeamentos levados a cabo pela RAF ao porto francês de Berst. O reaparelhamento do Prinz Eugen, avariado por uma mina magnética, levou mais tempo que o previsto, pelo que a operação acabou por não ter tido lugar em Abril, mas em Maio de 1941. O vice-almirante Lütjens tinha pressa pois confiava no mau tempo do Atlântico Norte para se proteger de eventuais ataques aéreos e navais. Também contava com as noites ainda não demasiado curtas para evitar surpresas.
Antes de levantarem ferros no fiorde Grimstadfjorden, a sul de Bergen, o Bismarck e o Prinz Eugen foram fotografados por um “Spitfire” de reconhecimento. Mesmo assim, já depois de os dois navios terem saído daquele local, bombardeiros ingleses lançaram sucessivamente bombas no fiorde sem saberem que os alvos não estavam lá.


O almirante Tovey, comandante da “Royal Navy”, quando soube que o Bismarck e o Prinz Eugen estavam no mar concluiu que os alemães deveriam querer alcançar o Atlântico Norte. Assim, mandou vigiar as duas passagens possíveis. No estreito da Dinamarca, entre a Islândia e a Groenlândia, posicionou o cruzador Suffolk provido de um excelente radar que cobria bem as quarenta milhas de largura do estreito naquela época do ano. O couraçado Hood, tido como o navio mais poderoso e maior do mundo, e o novíssimo couraçado Prince of Wales, além de seis contratorpedeiros, foram enviados para as águas irlandesas, a fim de intervirem rapidamente para Oeste ou Leste consoante o rumo que os germânicos decidirem seguir.


Em Scapa Flow, o almirante Tovey esperou pela hora de actuar a bordo do seu navio-chefe, o couraçado King George, com cinco cruzadores e cinco destroyers. Ao mesmo tempo, Tovey ordenava ao porta-aviões Victorious e ao cruzador de batalha Repulse que suspendessem as suas tarefas de escolta para se juntarem a ele quando saísse para o Atlântico à caça do Bismarck. Pouco tempo depois, Tovey ordena a saída dos seus navios para controlar a passagem entre as ilhas Shetland e a Islândia.


O vice-almirante Lütjens não escondeu aos seus colaboradores e ao comandante do Bismarck, Grinemann, o seu pessimismo. Despediu-se dos seus subordinados não embarcados, dizendo: “Não voltarei. Dada a superioridade britânica, a sobrevivência é improvável”. Preferia seguir com o Scharnhorst e Gneisenau a esperar que o Tirpiz estivesse operacional. Lütjens achava o cruzador pesado Prinz Eugen pouco adequado para a operação em curso. O seu raio de acção não seria suficiente.


A operação fora preparada em segredo pelo almirante Raeder sem consultar o ditador. Só o informou quando os navios já tinham levantado os seus ferros ao largo de Bergen e foi necessário pedir autorização para continuar. O “Führer” acabou por dar o seu aval à operação, mas mostrou o seu descontentamento com a “infidelidade” da marinha, tanto mais que tinha visitado poucos dias antes o Bismarck sem que os almirantes tivessem revelado os seus planos para a utilização operacional do navio. De resto, o fim de Raeder estava selado, acabou por ser substituído por Doenitz, o “U-Boot Führer”, o ditador dos submarinos.


O Bismarck e o Prinz Eugen chegaram rapidamente ao estreito da Dinamarca e só aí é que foram detectados pelo cruzador Suffolk equipado com radar. O almirante Holland foi assim informado da presença dos dois navios alemães naquelas paragens. Com o seu esquadrão que incluía o Hood e o Prince of Wales foi-lhes no encalço, rumando a norte, enquanto os germânicos navegavam para o sul. Ambas as formações aproximaram-se a 60 nós de velocidade relativa entre si, enquanto as unidades sob o comando directo do almirante Tovey navegavam a 600 milhas para sudeste. Os britânicos temiam pela sorte de onze comboios de navios que atravessavam naquela ocasião o Atlântico, entre eles um com 22 mil soldados canadianos.



publicado por DD às 00:11
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