Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Sábado, 18 de Fevereiro de 2006
Duelo de Gigantes: Bismarck afunda o Hood
Bismarck2.jpg



A salva do Bismarck que afundou o Hood



A ordem de fogo foi dada pelo almirante Holland às 05.53 do dia 24 de Maio de 1941 à distância de 24.115 metros. O Hood começou por disparar as suas 8 peças sobre o Prinz Eugen, o mesmo fez o Prince of Wales, ambos convencidos que estavam a atirar ao inimigo certo. Dois minutos depois, o Bismarck abriu fogo, a primeira salva caiu na água para vante da proa do navio, a segunda já perto da popa, a terceira explodiu muito próximo a envolver o Hood nas suas longas colunas de água e a quinta provocou um terrível ruído cavo, como que subindo lentamente das entranhas da terra para a superfície e que abafou o troar dos canhões. Aparentemente uma ou duas granadas terão penetrado no convés e explodido no interior do navio que ficou envolvido num gigantesco cogumelo de fumo negro salpicado de chamas de cor laranja e vermelha. Poucos segundos depois, um tripulante do Prince of Wales relatou que viu por baixo da nuvem de fumo a proa e a popa do gigantesco Hood na vertical a afundarem-se. O couraçado explodiu a partir das suas entranhas, partiu-se em dois e foi para o fundo em minutos, deixando apenas três sobreviventes da sua desditosa guarnição de 1419 homens. A batalha durou apenas seis minutos, dos quais o Bismarck não disparou durante mais do que quatro minutos.


Segundo estudos posteriores, as granadas precisas do Bismarck em trajectória curva penetraram no convés e explodiram num ou mais paióis. Alvitrou-se que os grandes causadores da destruição do navio terão sido os foguetões UP que o navio trazia armazenado. Uma espécie de mina aérea propulsionada por foguete para ser lançada para cima de bombardeiros de altitude; largada de pára-quedas deveria explodir quando estivesse próxima dos aviões. Como arma provou ser ineficiente e depois do afundamento do Hood foi retirada dos navios da “Royal Navy”.


O companheiro do Hood, o moderno e novo Prince of Wales não saiu incólume da refrega. Uma granada alemã caiu na ponte de comando e fez uma larga colheita de almas para os céus ou os infernos, outra avariou o director de tiro e ainda outras explodiram abaixo da linha de água e acima nas estruturas, colocando fora de acção algumas torres de artilharia.
O Bismarck não saiu totalmente ileso da contenda, já que uma granada de 381 mm do Hood provocou um pequeno rombo junto a um tanque de combustível que não se incendiou nem explodiu mas ficou a verter, permitindo a melhor visualização do navio a partir do ar e reduzindo o seu raio de acção por via da perda do precioso mazute. Para além disso, os danos provocados numa casa de bombagem tornou inacessível um dos tanques de combustível. Outra granada do Prince of Wales penetrou na blindagem por baixo da linha de água e destruiu uma das caldeiras. Todavia, a capacidade de manobra e combate do Bismarck quase não estavam afectadas e ainda fazia 29 nós.


Os comandantes, o do navio, Lindemann, e o do esquadrão, Lütjens, divergiam no que fazer a seguir. Lindemann queria ir no encalço do Prince of Wales e averbar mais uma vitória, enquanto Lütjens ordenou o contrário, navegar para sul em direcção ao porto francês de Brest e a saída do Prinz Eugen do esquadrão para atacar comboios britânicos. Navegação fatídica de um navio não apoiado frente a uma gigantesca esquadra com meios aéreos e navais suficientes para provocar a sua destruição.


O desaparecimento do Bismarck veio pôr um ponto final na euforia manifestada na Alemanha após o afundamento do Hood e fez renascer no espírito do ditador a sua desconfiança relativamente à marinha de superfície. Tanto mais que naquele mês de Maio, os submarinos germânicos afundavam 511.042 toneladas em navios britânicos e a “Luftwaffe” dominava literalmente o Mediterrâneo e conquistava a ilha de Creta, além de provocar importantes baixas na “Royal Navy”.


O êxito britânico no afundamento do Bismarck deveu-se muito à capacidade do seu serviço de descodificação das mensagens rádio alemãs, todas baseadas na sua máquina “Enigma” de discos rotativos que substituíam as letras das mensagens dactilografadas directamente na máquina. Os polacos conheciam bem a máquina que chegou a estar à venda em 1933 para fins comerciais, nomeadamente a utilizada pela “Luftwaffe”, enquanto em 1941 os serviços britânicos sedeados em Londres, no Bletchley Park, e como tal designados, começavam lentamente a descodificar a máquina da marinha alemã que tinha cinco discos para três posições e que eram trocados no âmbito de um sistema de codificação especial.


Primeiro os radio-goniómetro britânicos localizaram aproximadamente o Bismarck, mas com um erro de 200 milhas. Depois foram fazendo correcções, mas só quando tiveram conhecimento de uma mensagem dirigida ao general Hans Jeschonnek, vice-chefe de Estado-Maior da “Luftwaffe” a dizer que o navio se dirigia ao porto de Brest, é que conseguiram enfim traçar o rumo fatídico do couraçado. O general perguntou pelo destino do navio por razões pessoais, um seu filho estava embarcado no Bismarck. Os britânicos liam bem a máquina Enigma da Força Aérea Alemã enquanto que a da marinha era descodificada muito lentamente e só em parte; tinha mais dois discos. O tempo que Bletchley Park levava a ler as mensagens da marinha alemã não dava para servir de instrumento em operações navais. Deu sim para conhecer muitas operações de submarinos, cujas ordens eram dadas com um certo número de dias de antecedência.
Com o fim do Bismarck terminou a actividade da marinha de superfície alemã no Atlântico. Depois disso, continuaram os ataques, junto à costa norte da Noruega, aos comboios que levavam armas e alimentos para os soviéticos. Durante algum tempo, navios mercantes armados e disfarçados conseguiram atacar a navegação britânica em locais tão distantes como as costas do sul da Austrália. Uns entravam directamente no Atlântico pela Noruega e outros passavam pelo Oceano Glacial para penetrarem no Pacífico pelo Estreito de Behring que separa a Ásia da América. Nestas travessias, os soviéticos colocavam à disposição da marinha nazi os seus quebra gelos que, em segredo, abriam o caminho para os ataques àqueles que seriam em breve os seus aliados e salvadores, já que sem o apoio logístico das grandes democracias ocidentais a URSS teria sucumbido totalmente ao ímpeto nazi.


Na costa ocidental da Austrália, o mercante armado alemão Kormoran conseguiu mesmo afundar o cruzador australiano Sydney de 6830/7105 toneladas, armado com 8 peças de 152 mm, 8 tubos lança torpedos e muita artilharia menor. O cruzador desapareceu sem deixar rastro depois de ser visto a arder intensamente. Terá sido torpedeado pelo Kormoran e depois flagelado pelas peças de 150 mm do “raider” alemão, o ex-navio motor mercante Steiermark de 19.900 toneladas armado com 6 peças de 150 mm e outros tantos tubos lança torpedos disfarçados no casco acima e abaixo da linha de água. O corsário alemão também se afundou neste combate desigual, já que um navio mercante não é uma boa plataforma de armamento.


Sob todos os aspectos, os grandes navios de superfície tinham já sido ultrapassados pela aviação, nomeadamente a embarcada em porta-aviões. E, por outro lado, o submarino revelava uma eficácia bem superior. A Alemanha nazi iria concentrar todos os seus esforços navais na batalha dos submarinos.










publicado por DD às 23:05
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