Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"
Domingo, 14 de Dezembro de 2014
Dieter Dellinger: A Rota do Ártico

 

 

No passado verão, 412 navios navegaram de portos chineses e japoneses para o Norte da Europa pela rota nordeste do Oceano Glacial Ártico cada vez mais livre dos gelos da calote polar e vice-versa, além de alguns demandarem portos russos das costas siberianas. O número de passagens de navios atingiu os 600, sendo que quase 40% foram de navegação costeira entre Murmansk e portos siberianos. Este ano deverão ser ainda em maior número os navios a navegarem no Oceano Glacial Ártico, cada vez menos glacial.

Segundo os especialistas em climatologia, entre 2050 e 2080 o próprio Polo Norte estará livre de gelos nos meses de verão devido ao aquecimento global que se verifica de ano para ano. Em 2005 o mar junto às costas siberianas ficou liberto dos gelos no verão que voltaram em 2006 e depois de 2007 o degelo estival verificou-se todos os anos até 2013, permitindo a navegação ao longo da costa siberiana da Federação Russa. A calote polar sofreu uma redução para um mínimo recorde de 1,32 milhões de milhas quadradas, menos 300 mil milhas que o mínimo anterior, correspondendo a uma redução de 50% em relação à média verificada entre os anos de 1979 e 2000 e prevê-se para 2040 a 2050 um recuo de uns 30 a 40% mais. O degelo mais rápido e completo de sempre foi verificado na primeira quinzena do mês de Julho de 2013, mas a calote em Setembro é que atinge o seu tamanho mínimo. Assim, durante, pelo menos, três meses do ano de Julho a Setembro com possível prolongamento pelo mês de Outubro, a rota ártica estará aberta a toda a navegação.

O processo aquecimento da Terra tem sido contínuo, mas oscilatório. O pico máximo da última glaciação (Wurm III) verificou-se há uns 18 a 20 mil anos atrás e os grandes glaciares do Norte da Europa, Canadá, EUA e Rússia com a imensa calote gelada do Antártico que cobria a zona do Cabo na África do Sul, a Patagónia e a Nova Zelândia com pedaços da Austrália despareceram praticamente há uns 8 mil anos, já no início das primeiras civilizações como a de Meroé no Alto Egipto. Mas isto não quer dizer que não se possam verificar anos muito frios, dado que naquelas regiões se surgirem períodos sem vento e nuvens, portanto, com céu claro, as temperaturas podem descer imenso e chegar aos -93ºC como foi medido por satélite numa região costeira da Sibéria. Todo o calor solar será refletido para o espaço e à superfície a temperatura desce.

Russos e chineses sentem-se cada vez mais satisfeitos com o aparente aquecimento global do Oceano Glacial Ártico. Para os chineses, a rota do Ártico resolve em parte o problema do Estreito de Malaca, sempre “engarrafado de navios” e enublado pelas nuvens de “smog” provenientes das queimadas feitas pelos barões do óleo de Palma na ilha de Sumatra. Os chineses da gigantesca Cosco Shipping Company pensam não só na navegação para a Europa, mas também para os EUA, pelas rotas de noroeste e nordeste, havendo ainda a chamada rota central mais distante da costa siberiana, mas só aberta em Agosto e mais suscetível de encontrar alguns blocos grandes de gelo. No passado verão, um navio concebido para vários tipos de cargas de 19.461 toneladas navegou do porto chinês de Dalian para Rotterdam em 33 dias. Percorreu 7.600 milhas ou 14 mil quilómetros. A rota ártica propriamente dita ao longo das costas siberianas tem 2.936 milhas náuticas (5.435 km). De acordo com os chineses, a nova rota vai desenvolver os portos do Norte da China, nomeadamente da Manchúria onde existem cidades industriais em grande número. Saliente-se que 90% das exportações chinesas utilizam a via marítima

Os navios navegam perto de costas de permafrost desabitadas contendo debaixo da terra gelada os maiores reservatórios do Mundo de gás natural, cerca de 237 biliões de toneladas de gás e mais de 66 mil biliões europeus de barris de petróleo.

 

A meio caminha entre o Estreito de Behring e o norte da Noruega, os russos estão a investir 15 mil milhões de euros na construção do porto de Sabetta na península de Jamal para o embarque de gás natural liquefeito e exploração do mesmo. O gás natural é arrefecido a -160ºC, o que permite reduzir o seu volume para 1/600. Para já, a poderosa Gazprom contabilizou um gigantesco prejuízo devido à queda nos preços do gás natural, pois os EUA também descobriram grandes jazidas de gás natural e até de petróleo, estando também a exportar. Os preços dos navios de transporte de gás estão a subir muito e, bem assim, os respetivos fretes. Os novos navios em construção na China só vão navegar a partir de 2015.

Por isso, a navegação nas águas no Ártico tem também a ver com a exploração das terras costeiras por um lado e com o transporte de mercadorias da China e Japão para a Europa e EUA. Os chineses estão a construir dois potentes quebra-gelos para apoiarem a sua navegação, dado que os navios similares russos não aparecem a tempo quando chamados, mas Putin prometeu que nos próximos anos também o seu país terá na zona novos quebra-gelos.

A navegação nas águas do Ártico não é fácil nem demasiado barata. A menor distância é o seu principal trunfo, mas é preciso pedir licença à Administração Russa da Rota do Norte e pagar uma taxa. Este ano, a referida Administração já não exigiu que só naveguem navios com proas reforçadas, o que fez crescer o número de navios de transporte de carvão, adubos, minérios, etc.

Também se pode falar na navegação entre o Pacífico e o Atlântico descendo ao longo das costas do Alasca e Canadá, sendo uma navegação já experimentada, mas ainda cheia de escolhos que obriga os navios a passarem por um labirinto de 18 mil ilhas numa de várias derrotas de aproximadamente 3.200 milhas náuticas a variar em função do degelos de vários canais e sempre cercadas de águas profundamente geladas. As águas muito frias do enorme arquipélago do Norte do Canadá ajudam a manter a calote gelada por mais tempo, sendo mais curtos os períodos de degelo e não existem portos na região nem os canadianos possuem um número suficiente de quebra gelos para deixar canais abertos que são considerados águas interiores canadianas, o que originou algumas disputas desde que o petroleiro norte-americano “Manhatan” fez o percurso em 1969.

No ano passado, o navio tipo Panamax “Nordic Orion” com casco reforçado zarpou de Vancouver com 73,5 mil toneladas de carvão com para descarregar em Helsinquia. A viagem durou quatro dias menos que a rota pelo Canal do Panamá e carregou mais 15 mil toneladas de carvão por navegar em águas muito mais profundas que as do referido canal. O armador diz que poupou 400 mil dólares. Enfim, pensava-se que a rota canadiana só seria utilizável daqui a mais de vinte anos. De qualquer modo não parece que venha a ser muito utilizada dada a imprevisibilidade das condições de navegação.

 

A Militarização do Ártico

 

O degelo do Ártico e as já referidas reservas de gás e petróleo estão a provocar uma situação litigiosa entre a Federação Russa, o Canadá, os EUA e a Dinamarca (Groenlândia), pois os russos pretendem que são donos de quase toda plataforma continental até o Polo Norte e reocuparam militarmente a região, abandonada pela marinha de guerra soviética quando da queda do império moscovita.

 

Já em 2013, Putin decidiu retomar as patrulhas da marinha russa no Ártico e deslocar para aí alguns navios que tinham sido retirados com o fim da URSS.

O primeiro navio russo a ir para o Ártico foi o „Piotre Weliki“ (Pedro O Grande). Pela sua tonelagem, configuração e armamento é mais aquilo a que podemos designar de cruzador de batalha, portanto, algo que era considerado como uma tipologia desaparecida desde a II. Guerra Mundial. Com exceção dos grandes porta-aviões, todos os restantes navios militares de superfície são fragatas e corvetas ou cruzadores relativamente pequenos como os da classe americana “Ticandaroga”.

Os russos designam o “Piotr Weliki” (Pedro o Grande) de cruzador pesado atómico, sendo o único navio da classe “Kirow” a navegar e que deveria ser de cinco unidades, mas a mais recente foi desmantelada ainda nos estaleiros, um foi retirado de serviço na sequência de um acidente, mas ainda pode ser reparado, dois outros estão há muitos anos em vias de serem modernizados para entrarem em serviço por volta de 2015. Foram navios planeados ainda nos tempos da URSS para terem nomes de secretários-gerais do PCUS. O “Piotr Weliki” deveria ter sido o “Juri Andropov” e levou dez anos a ser construído. São os primeiros cruzadores lança-mísseis verticais da marinha russa, pois a classe anterior, a “Slawa”, ainda vinha com grandes mísseis laterais devido à dificuldade que os soviéticos tinham em construir sistemas eletrónicos de controlo miniaturizados.

Os navios da classe “Kirow” destinavam-se a combater com mísseis os grandes submarinos lança-mísseis balísticos nucleares americanos. O “Piotr Weliki” começou a ser construído em 1986, mas só em 1998 é que foi entregue à marinha russa depois de dois anos de testes e algumas modificações. Hoje, é o navio-chefe da esquadra russa do Norte (Ártico) com capacidade multiuso de combate contra meios aéreos, submarinos e navios de superfície. No fundo, trata-se de manter o poder naval russo no Ártico, região em que se espera poder explorar grandes riquezas submarinas e com o degelo de verão ser a já referida zona de navegação e reivindicar muito antes de tempo as pretensões russas a toda a plataforma marítima que se estende das costas siberianas ao Polo Norte. Saliente-se que um submarino russo colocou em pleno Polo Norte uma enorme bandeira russa no fundo do mar. A Rússia libertou-se do comunismo, mas não deixou a sua tendência expansionista. Só que não sabemos se os navios deslocados para o Ártico não terão de ir para o Mar Negro, a fim de apoiarem a pretensão russa à posse de toda a costa ucraniana, incluindo a cidade de Odessa.

Para além do “O Piotr Weliki” também foi enviado para o Ártico o submarino atómico "Juri Dolgoruki”. Ambos terão como base a cidade de Seweromorsk situada na Península de Kola ao Norte do Círculo Polar Ártico.

À exceção dos porta-aviões e navios de assalto, o “Piotr Weliki” é o maior navio bélico de superfície com o deslocamento máximo de 26.190 toneladas. O seu comprimento é de 251 metros e o calado máximo de 10,3 metros.

O “Piotr Weliki” tem uma curiosa motorização que consiste em dois reatores nucleares KN-3 de água pressurizada destinados a alimentar duas máquinas a vapor de 70 mil cv, permitindo atingir uma velocidade de 20 nós. Para atingir os 32 nós, o navio possui ainda duas outras caldeiras clássicas a vapor alimentadas a óleos que permitem também a navegação com os reatores nucleares desligados, os quais utilizam como combustível o Urânio enriquecido entre 55 a 90% de U-235. Trata-se pois de um sistema ultrapassado que a marinha americana deixou de utilizar há muitos anos, mas possível dadas as características volumétricas do navio.

O seu armamento consiste em mísseis lançados na vertical a partir de lançadores colocados no interior. Os mísseis serão os “Bulawa” acionados por um propulsor sólido e tidos até agora como inseguros e suscetíveis de perderem a direção, mas o governo russo declarou que não; são seguros e a marinha tem uma absoluta confiança nos mesmos. Como não é de esperar algum conflito armado, tanto faz. O pior é se num exercício algum desses mísseis vai parar a qualquer local indevido. Mas, esperemos que não e que, entretanto, alguns defeitos dos mesmos tenham sido corrigidos.

O grande objetivo do “O Piotr Weliki” é destruir navios de superfície inimigos e submarinos, pelo que está equipado com uma grande quantidade de torpedos anti-submarinos. Duvida-se que sejam opositores válidos dos notáveis submarinos americanos da classe “Los Angeles” capazes de lançarem mísseis a 2.400 km de distância guiados por radares e outros instrumentos capazes de procurarem os alvos.

Dada a fraqueza da marinha russa, Putin decidiu investir mais de 100 mil milhões de euros em novas construções para as quais terá o apoio dos estaleiros finlandeses, sendo que a maior parte das construções sejam feitas em S. Petersburg.

Publicado na Revista de Marinha Nr. 982 de Novem,bro/Dezembro de 2014. Preço 3,50.

 

 



publicado por DD às 17:57
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