Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"

Domingo, 14 de Janeiro de 2007
A Batalha das Falklands

O pessoal do CIC da fragata britânica Sheffield estava extenuado depois de 40 dias de mar e horas de vigilância aérea. O comandante James Salt retirara-se para a ponte e só teve tempo para gritar “take cover”, quando viu o engenho voar a dois metros de altitude e quase à velocidade do som. Depois do silvo medonho, ouviu-se um estrondo seguido de um cheiro acre. Um míssil atravessou as paredes das ligeiras superstruturas do navio e penetrou no próprio compartimento da CIC. A guarnição do centro de informação e comando entregou a alma aos céus ou aos infernos, enquanto o navio começava a arder a partir do interior, o combustível do míssil ajudou a propagar o fogo e o pessoal do sector de limitação de avarias mal podia deslocar-se no convés, tão quente estavam as respectivas chapas. Os isolamentos baratos em PVC da cablagem eléctrica do navio ajudaram muito a propagar as chamas.

A fragata Sheffield, tipo 42, de 4.100 toneladas inaugurava, na qualidade de vítima, o poder letal do míssil francês “Exocet AM39” lançado segundos antes por um “Super Etandard” da Força Aérea Argentina. A umas quarenta milhas de distância, o piloto argentino detectou o alvo e introduziu no computador de bordo as respectivas coordenadas e disparou. Voava a menos de mil metros de altitude sem que tivesse sido detectado pelo pessoal da Sheffield que, por isso, não accionou os mísseis anti-aéreos “Sea Dart”, cuja serventia não deveria ser muita, dado serem destinados a derrubarem aviões voando a grande altitude e relativamente próximos do navio.

O evento ocorreu na fria manhã do dia 4 de Maio de 1982, ao largo das ilhas Falklands;  quase um mês depois de as forças ao serviço do ditador argentino  terem  invadido aquele arquipélago austral .

A Sheffield não se afundou de imediato mas ficou com todo o sistema de comando e direcção electromecânico avariado. Apesar dos manuais britânicos dizerem que se um navio não se afunda na primeira meia hora do impacto é recuperável, a fragilidade da fragata não permitiu, contudo, recuperar parte dos 50 milhões de dólares nela investidos, postos em causa por um míssil de 40 mil dólares.

Naquele episódio da Guerra das Falklands, os argentinos vingavam o inglório afundamento do velho cruzador General Belgrano, o antigo Phoenix da marinha norte-americana e sobrevivente de Pearl Harbor, verificado 48 horas antes quando navegava ao largo da costa argentina.

Foi o submarino nuclear de ataque Conqueror o autor da façanha ao disparar a curta distância dois torpedos “Mk 8” quase tão velhos como o cruzador; provavelmente fabricados nos anos trinta ou durante a II. Guerra Mundial. Na altura e depois, os britânicos deixaram que fosse dito que o afundamento se deveu aos modernos torpedos “Tigerfish” filo-guiados numa parte da sua trajectória e auto-guiados na parte final por um Sonar instalado na respectiva cabeça. Esses torpedos ainda não faziam parte da dotação dos navios britânicos. Tal fantasia serviu primeiro para amedrontar a armada argentina e depois para promover a venda do “Tigerfish”. O Conqueror era então uma excelente unidade de ataque de 4400/4900 toneladas capaz de navegar a 28 nós em imersão e orientar-se por cinco poderosos sonares, entre os quais o famoso 2020 de longa distância, contrastando com a inoperância anti-submarina do cruzador e das duas pequenas corvetas que o acompanhavam.

O Conqueror vigiou o cruzador argentino durante três dias sem ser detectado e o seu comandante só decidiu torpedear o navio inimigo depois da Royal Navy receber a respectiva autorização da Senhora Tatcher através do comandante da força britânica nas águas das Falklands, almirante Sandy Woodward. Provavelmente, o disparo terá sido feito com base nas coordenadas dadas pelos sonares sem recurso à visão periscópica. 

As duas tragédias causaram 388 vítimas mortais naquelas águas frias do Atlântico austral que não permitem a sobrevivência dos náufragos por mais do que alguns minutos. Os argentinos ficaram furiosos com o ataque ao seu cruzador, perpetrado fora da zona de exclusão determinada pelos britânicos. Tacticamente isso provocou a fixação da marinha argentina às suas bases. Por essa razão, os argentinos ficaram limitados à utilização dos seus aviões “Skyhawk”, “Mirage” e “Super Etandard” a partir das suas bases terrestres no continente e ao disparo dos cinco únicos mísseis “Exocet” que possuíam, dos quais só um atingiu um navio mercante que transportava helicópteros, além do que explodiu na Shefield.

A distância não permitia aos aviões argentinos executar proveitosas patrulhas de combate e quando tiveram de se bater com os “Harrier” de descolagem vertical tiveram de o fazer a velocidades da ordem das 400 milhas horárias para não gastar o combustível necessário ao regresso à base do Rio Galegos, a 550 milhas das Falklands.

 Nessas condições, os “Harriers” fizeram maravilhas e os pilotos mais bem treinados utilizavam a mudança de fluxo dos reactores do voo vertical para fazer descer rapidamente os seus aparelhos de modo a deixar os “Mirage” passar por cima e exporem-se com o seu jacto quente aos infravermelhos de direcção dos mísseis ar-ar “Sidewinder”, enquanto os mesmos mísseis dos argentinos eram confundidos pelas saídas laterais dos jactos do Harrier.

A guerra das Falklands/Malvinas durou 74 dias, tendo começado com a invasão daquele arquipélago britânico a 2 de Abril de 1982. A Argentina reivindicava e reivindica as ilhas Malvinas na base de uma noção geográfica muito própria. O arquipélago está mais próximo da Argentina que do Reino Unido, logo tem de ser argentino, apesar de a população ser britânica.

A guerra no Atlântico Sul foi, sem dúvida, a última guerra que opôs entre si forças aero-navais. Nas Falklands, o carácter insular do território disputado determinava a prévia conquista ou interdição do espaço marítimo por forças navais. Assim, primeiro os argentinos desembarcam cerca de 5 mil homens nas Malvinas/Falklands sem que os 72 fuzileiros britânicos aí estacionados tivessem podido resistir e conquistam as ilhas da Georgia do Sul, ainda mais distante para o Sul. Depois, numa atitude determinada e corajosa, o governo britânico da senhora Tatcher mobiliza uma importante força naval com o porta-aviões Hermes e o porta-aéreos Invencible acompanhados por 8 destroyers, 16 fragatas, 6 submarinos, dois navios anfíbios e alguns grandes mercantes, incluindo os paquetes Queen Elizabeth e o Camberra.

Aparentemente, os argentinos deveriam ter a supremacia aérea relativamente aos 20 “Sea Harriers” navais dos britânicos e a outros tantos de base terrestre que saltaram dum porta-contentores. O maior número de aviões argentinos não foi suficiente para interditar o espaço aéreo pelas razões expostas no início que não foram compensadas pelo limitado raio de acção dos “Harriers” que não voavam mais do que uns vinte a 30 minutos em cada acção de combate.

As suas forças navais foram como que derrotados pelos submarinos nucleares de ataque. Efectivamente, depois do afundamento do General Belgrano, os argentinos não se atreveram a sair para o mar, deixando assim os britânicos muito à vontade nas operações de desembarque do contingente militar e reconquista do arquipélago e sem conseguirem abastecer as suas tropas que nas Malvinas/Falklands enfrentaram os britânicos. Logo a 25 de Abril, os fuzileiros reais reconquistam a ilha da Geórgia do Sul sem registarem quaisquer baixas. Depois de enfraquecidas as posições argentinas nas Malvinas por via de bombardeamentos aéreos, a 3ª Brigada de Comandos britânica desembarca em San Carlos, na costa noroeste, a 50 milhas da capital, Stanley. Entretanto, os aviões argentinos atacam com grande coragem e espírito de sacrifício os navios britânicos.  A 21 de Maio atingem a fragata Ardent com roquetes, dois dias mais tarde a Antelop é avariada por duas bombas que não explodem, mas matam três tripulantes. Posteriormente, quando uma equipa anti-explosivos tenta retirar a bomba do navio, estas explode ruidosamente de modo a provocar um incêndio que levou ao abandono do navio.

 

Ambas as fragatas pertenciam à classe Amazon, tipo 21, talvez excessivamente ligeiras e pouco resistentes, aguentando mal as bombas e incendiando-se com facilidade. A altitude demasiado baixa em que voavam os argentinos não permitia armar todas as bombas que lançavam, pelo que muitas não explodiram.

As dificuldades dos argentinos foram aumentadas pela acção dos mísseis mar-ar e terra-ar britânicos “Sea Dart”, “Sea Sparrow”, “Sea Cat” e “Rapier”, os quais abateram muitos aviões, principalmente os mais antigos “A-4B Skyhawk”. Quando os mísseis não acertavam nos aviões atacantes, perturbavam muito a eficácia dos seus ataques, dado que os pilotos argentinos perante uma defesa eficaz perdiam a possibilidade de se aproximarem demasiado e de lançarem com precisão as suas bombas. Por isso, a partir dos primeiros desembarques, os britânicos alcançaram os seus objectivos sem uma forte resistência, a guerra tinha sido decidida no mar e no ar.

A guerra das Falklands/Malvinas foi, sem dúvida, o último conflito naval ou aero-naval do Século que findou. Isto, na medida em que a guerra do Golfo não pode ser considerada como um conflito naval propriamente dito, apesar de as forças navais de numerosos países terem intervindo. Primeiro como transportadores dos meios terrestres de ataque e depois como vectores do lançamento de aviões e de mísseis de cruzeiro.

 

 

 

 

 

 


 



publicado por DD às 20:35
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