Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006
Batalha do Atlântico - II
Audacity.jpg

Pequeno porta-aviões de escolta Audacity que levava 4 Martlets (F4F-3 Wildcats) para protecção dos comboios aliados. Foi o primeiro neste tipo de missão. Deslocava 11600t e resultou da transformação do navio de carga alemão Hannover capturado pelos britânicos. Foi afundado por dois torpedos lançados pelo U-751.

A batalha do comboio HG76 foi a primeira em que a aviação actuou com sucesso porque em número suficiente, mesmo que de apenas 4 unidades, mas bem diferente dos únicos aviões lançados de navios mercantes que depois tinham de amarar em condições de autodestruição. Saliente-se, contudo, que os britânicos em 1941 não tinham ainda percebido a vantagem do avião na escolta aos comboios de navios mercantes. Os quatro Martlets estavam aí para enfrentar os quadrimotores alemães Focke Wulf que a partir das suas bases em França procuravam atacar os comboios de navios vindos ou destinados ao Mediterrâneo com tropas e material para enfrentar o Afrika Korps alemão que no deserto líbio combatia os britânicos de Alexander e Montegomery.

Efectivamente, pelas 11.57 do dia 18 de Dezembro, dois caças do Audacity conseguiram pôr em fuga os FW 200 que tentavam observar os movimentos do comboio HG76. A seguir, foi a vez do U-434 ser detectado pelo destroyer Stanley quando surgiu à superfície. A presença do inimigo das profundidades foi prontamente reportada ao comandante Walker. Este ordenou o ataque simultâneo por aquele navio e outros três destroyers. A batalha foi furiosa, o U-434 do com. Heyda disparou um torpedo contra o Stanley que avançava a 24 nós, mas não acertou, e, logo de seguida, mergulhou para acabar por ser rodeado pelos destroyers que lançavam grupos de 14 cargas de profundidade ajustadas para explodirem a 50 e 100 metros de profundidade. O U-434 é atingido, a escotilha da torre é destruída e a câmara de comando inundada enquanto o sistema eléctrico sofre graves avarias. Ao fim de 40 minutos de resistência, o U-434 emerge para permitir o abandono por parte dos membros da guarnição.

Nos quatro primeiros dias da batalha do HG76, o grupo de ataque “piratas” perde três submarinos, mas os restantes não desistiram de travar a luta até ao fim. Pelas 2 da madrugada, o U-574 (Com. Gengelbach) aproxima-se do comboio e, ao luar, vislumbra o aviso Stork e o destroyer Stanley que se lança de imediato ao ataque, enquanto o submarino dispara dois torpedos. Na ponte de comando do Stanley viram os torpedos, mas julgaram que não seriam atingidos. Erro de visão, um dos torpedos atinge o destroyer, provocando uma violenta explosão seguida de incêndio e rápido afundamento do navio.

Walker ordena de imediato o ataque conjunto ao U-574 que mergulha rapidamente, mas sem se safar do contacto asdic, pelo que é avariado depois de sujeito a uma tempestade de cargas de profundidade. Este emerge e à superfície sofre a tentativa de abalroamento pelo Stork que navegava a 180 metros de distância. Com uma rapidez incrível, a tripulação do U-574 consegue fazer arrancar os motores diesel e a alta velocidade evitar a colisão, enquanto os restantes destroyers abrem fogo com resposta alemã. O combate trava-se a uma distância tão curta que um dos atacantes consegue atingir com metralhadoras Lewis o pessoal da torre do submarino. O capitão-tenente Gengelbach acaba por ordenar a evacuação do submarino que se afunda a seguir. Só sobreviveram 16 dos 44 homens da guarnição do U-574 da classe VIIC de 749/851 tons. O próprio Gengelbach pereceu na refrega.

Quase ao mesmo tempo em que se travou o combate com o U-574, o U-108 (Com. Scholtz) consegue torpedear o cargueiro Ruckinge de 2.869 tons., iluminado como estava pelas salvas e foguetes luminosos disparadas no decurso do combate anterior e que seguia na coluna de bombordo do comboio. Muito avariado, o navio acaba por ser abandonado e afundado pela tripulação. Minutos depois, o U-108 consegue torpedear outro navio mercante, sem o afundar. Pelas 9.00 da manhã, dois caças Martlets do Audacity conseguem interceptar dois quadrimotores Focke-Wulf e abater um deles, o que não foi difícil, dado tratar-se de um excelente avião civil, convertido para o ataque a longa distância e observação de alvos navais, mas desprovido de capacidade de resposta a ataques perpetrados por caças. Os alemães nunca tiveram bombardeiros quadrimotores nem aviões militares de longo raio de acção pelo que converteram o Focke Wulf 200 para os referidos fins, utilizando um número diminuto de aparelhos e praticamente só no mar.

Pouco depois, outros dois FW200 aproximam-se do comboio a baixa altitude e são atacados pelos F4F-3. No rodopio que se seguiu, um dos caças embate num FW que é abatido pelo seu companheiro. O F4F-3 a arder ainda consegue poisar na pista do Audacity. Apesar de já ter perdido quatro submarinos, do seu posto de comando em Lorient, o almirante Donitz ordena que os três submarinos U-71, o U567 e o U751 se juntem ao grupo Seeräuber, designando como alvo principal o porta-aviões de escolta Audacity.

Na noite de 21 para 22 de Dezembro, o U-567 consegue torpedear o cargueiro norueguês Annavore cheio de minério de ferro e que desaparece no espaço de um minuto. Pouco depois, aproveitando a confusão do combate nocturno dos navios de escolta contra os submarinos atacantes, o U-751 (Com. Bigalk) ouve nos seus hidrofones ruídos intensos que presume serem do comboio. Emerge e vislumbra a linha de destroyers e mais longe uma longa silhueta negra. Na torre, Bigalk julga ver um petroleiro, mas pouco depois verifica que se trata antes do Audacity que ziguezagueava. Aproxima-se mais um pouco à superfície, arriscando ser detectado pelos holofotes que pesquisavam toda a zona. Mas não, pelas 20.36 dispara quatro torpedos, um dos quais atinge o porta-aviões. Sem se perturbar com a pronta reacção da escolta, Bigalk ordena o rearmamento dos tubos, o que é feito em dez minutos, e lança-se de novo ao ataque por julgar que o Audacity não estava ferido de morte, mas que teria sido só atingido à ré nos lemes. Pelas 21.55, o U-751 aproxima-se do conjunto porta-aviões e escolta e dispara mais dois torpedos. Um deles acerta a meio do navio e provoca uma violenta explosão. Logo a seguir vê as corvetas Marigold e Convolvus lançarem-se de frente ao ataque, o U- 751 fez meia volta e a toda a velocidade consegue escapar à perseguição por parte das lentas corvetas da classe Flower.

Sorte igual não teve o U-567 (Com. Endrass) que imprudentemente se aproximou das escoltas do comboio na tentativa de atacar à superfície. Prontamente iluminado pelos holofotes dos destroyers Deptford e Stork imerge de súbito, para se tornar num alvo das cargas de profundidade. Pouco depois, uma violenta explosão submarina sinalizou o fim daquela unidade comandada por um dos mais experientes e condecorados oficiais da arma submarina alemã.

Na noite do dia 23 de Dezembro, o comboio chega às ilhas britânicas. Os combates travados em parte ao longo da costa portuguesa custaram cinco navios mercantes, um porta-aviões de escolta e um destroyer aos britânicos e 5 submarinos aos alemães.

A batalha do HG76 foi paradigmática dos violentos e mortíferos combates travados pelos submarinos alemães em torno dos gigantescos comboios que atravessavam o Atlântico ou navegavam para o Mediterrâneo ou para o Árctico levando material bélico para a defesa da União Soviética. Todavia, os submarinos do Reich preferiam o Atlântico central para o combate à navegação aliada e tinham como objectivo estratégico a interdição das águas britânicas aos navios oriundos dos EUA com armas e víveres e igualmente a interdição dos portos de Murmansk e Arcangel aos socorros materiais fornecidos pelos aliados ocidentais à URSS.



publicado por DD às 00:06
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