Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"

Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Canhão e Couraça

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Os 8 canhões de 350 mm do cruzador de batalha alemão "Machensen" de 1917,  um dos navios mais poderosos navios da I. Guerra Mundial com os seus três irmãos de classe.

Deslocamento em carga máxima de 36.000 toneladas e era capaz de navegar a 28 nós movido por 4 turbinas a vapor do tipo "Parsons" que acoplavam 4 veios e hélices respectivas. O vapor era aquecido por 32 caldeiras, desenvolvendo tudo uma potência de 90 mil cavalos-vapor. Estava protegido por um cintura couraçada de 100 a 300 mm de espessura.

 

 EVOLUÇÃO DO CANHÃO E DA COURAÇA

 

 No dealbar do Século XX, as marinhas bélicas eram já herdeiras de uma profunda revolução técnica que começou com a máquina a vapor e continuou com a introdução de novos e poderosos armamentos, cada vez mais em corrida com as blindagens de aço e tonelagem dos navios e, como tal, com o preço dos mesmos.

 

Fragata Couraçada La Gloire

 

 

A competição entre a couraça e o calibre do canhão começou desde que, por volta de 1859, surge a fragata francesa couraçada La Gloire, o primeiro navio protegido por uma couraça em ferro forjado de 120 mm de espessura, intercalada entre madeira de teca e compostos adequados para proporcionarem um maior coeficiente de restituição e resistência à fragmentação das balas de canhão.

Provocou uma grande sensação nos meios navais, este primeiro navio couraçado com máquina a vapor e velame. Deslocava 5.618 toneladas e armava 36 canhões nas cobertas. O seu tipo de blindagem manteve-se até 1880, data em que se começou a cobrir parte dos cascos dos navios de guerra com chapas duplas de 305 mm em ferro fundido e encostadas umas às outras. Mas, os canhões foram evoluindo, ou antes, aumentaram de calibre e, portanto de peso, Por isso, deixaram de estar instalados ao longo do costado por cima da coberta e no convés para serem colocados em barbetas rotativas, pois com o aumento do peso da artilharia diminuía o número de peças. Também com o aumento da espessura das couraças reduzia-se a altura dos costados. Os primeiros monitores couraçados costeiros tinham o convés quase a rasar a água, o que dava origem a más condições de navegabilidade e quando se pretendia aumentar a altura do costado tinha de reduzir-se a espessura da protecção, pelo que a couraça propriamente dita limitava-se muitas vezes a cinturas verticais nalgumas zonas do navio para evitar os tiros de trajectória direita disparados a curtas distâncias.

 

O decénio de 1880 a 1990 foi, sem dúvida, o da metalurgia: a blindagem composta evoluiu. Utilizou-se então ferro revestido de um aço mais duro, vazado, moldado ou laminado a quente para obter um composto que poderia ser trabalhado posteriormente a quente no laminador.

 

Este novo sistema combinava as qualidades do aço com a dureza do ferro, mas a face mais dura tinha a tendência a separar-se das restantes camadas na zona do impacto. Entretanto aparecem os obuses perfurantes de ogiva oca que penetravam com facilidade nas blindagens então vigentes. Por isso, já no fim da referida década, surgem as chapas carbonizadas de aço-níquel temperadas e recozidas para aumentar ainda mais a respectiva dureza. Eram as chapas de aço cementado Krupp; extremamente duras, mas com uma certa tendência para estalarem no interior quando recebiam o impacto de um obus pesado. As fábricas Krupp resolveram o problema; acrescentaram crómio à liga para devolver à chapa a sua dureza inicial após um impacto.

 

A artilharia progredia em simultâneo com as blindagens. Os especialistas em balística sabiam que tinham de aumentar a energia cinética dos projécteis e que esta era proporcional à massa e à velocidade inicial (Ec=1/2mv2);  tinham pois de aumentar o calibre para fazer crescer a massa e o comprimento do tubo do canhão, medido em número de vezes o calibre, para obter uma maior velocidade à custa do propulsante então inventado, a cordite. Este, em vez de provocar uma detonação explosiva como acontecia com a pólvora, produzia sim uma aceleração do projéctil pela dilatação muito rápida dos gases formados pela combustão da Cordite, um derivado da Balistite, inventada por Nobel, mas de melhor composição, ou seja, 58% de nitroglicerina, 37% de nitrocelulose gelatinosa e 5% de vaselina. A velocidade inicial dependia do comprimento dos tubos, já que quanto mais longos fossem, mais prolongado seria o efeito de aceleração provocado pela dilatação dos gases. Tudo isto revolucionou a construção do próprio canhão. O comprimento obrigou a inventar a culatra movida hidraulicamente, dado o seu enorme peso. O engenheiro alemão Boehle construiu mesmo sistemas de abertura muito rápida. Assim, nos navios da classe Kaiser, construídos por volta de 1900; um só homem podia abrir e fechar dez vezes por minuto a culatra de 650 quilos do canhão de calibre 240 mm.

Na última década do Século XIX, a peça mais comum dos grandes navios de linha britânicos era a de 305 mm com 40 calibres de comprimento (12,20 metros). A velocidade inicial do projéctil tinha passado dos 640 para os 792 metros por segundo com um peso de 440 quilos e uma carga explosiva de 12,5 quilos de melinite, um derivado do trinitrofenol ou ácido pícrico. A pressão exercida pela carga no momento do tiro excedia 2.600 quilogramas por centímetro quadrado. A uma distância de 6 mil metros, o projéctil atravessava as chapas de aço mais resistentes da época, ou seja, as de 350 milímetros em ângulos de incidência até 20 graus. Tornava-se pois possível destruir cientificamente o inimigo a grandes distâncias, desde que todo o sistema de pontaria e equilíbrio da peça fosse melhorado.

 

Mais tarde, já em pleno Século XX, a eficácia da peça de longo alcance melhorou acentuadamente com o aparecimento do director de tiro telemétrico.

 

 

 



publicado por DD às 09:20
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