Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007
A Inactividas das Esquadras Oceânicas Alemãs

A valentia e espírito de iniciativa do almirante Suchon contrastou com a total inactividade da imensa frota alemã, estacionada predominantemente em Kiel, de onde podia passar para o bem protegido Mar Báltico pelo canal de Kiel, cujo alargamento para conter os novos super-dreadnoughts tinha sido completado umas semanas antes de iniciado o conflito.

Para além disso, a Hochseeflotte, como lhe chamavam os alemães, frota de alto mar, estava ao abrigo de qualquer ataque por via das poderosas baterias instaladas na Ilha de Helgoland, frente à Baía Alemã e dos campos de minas que tornava perigosa a navegação de navios inimigos em águas alemãs.

 

A passividade da marinha germânica permitiu aos ingleses atravessarem o Canal da Mancha sem qualquer incómodo, enquanto o grosso da esquadra britânica se refugiava ao norte, na Escócia, e na Orcadas, em Scapa Flow, de onde bloqueava o acesso de qualquer navio mercante com destino aos portos do inimigo. Os alemães estavam tão convencidos de uma rápida vitória em França que não se preocuparam muito com os primeiros 160 mil britânicos que foram reforçar as tropas francesas. Eram aparentemente poucos, quando comparados com os milhões de homens entretanto mobilizados, mas eram soldados altamente profissionalizados com um treino de tiro dos mais intensos que se tinha praticado no Mundo; cada um dos Royal Fusilliers era capaz de disparar 15 tiros de alta precisão por minuto com as suas excelentes Lee-Enfield Mark III que não ficavam atrás das Mausers germânicas, podendo ainda acompanhar o tiro de espingarda com as mortíferas rajadas das suas metralhadoras Lewis e Vickers e com as granadas disparadas pelos canhões de tiro rápido Ordnance de 13, 15, 18 e 60 libras, além do obus australiano de 114 mm.

Causaram pois uma desagradável surpresa aos alemães quando os tiveram de enfrentar pela primeira vez em Mons, na Bélgica, tanto mais que a táctica alemã consistiu no ataque em massa com utilização logo de início das reservas mobilizáveis, o que era considerado um contra-senso pela doutrina militar de então, já que aos reservistas faltava treino e até juventude.

 

 A Alemanha tinha a vantagem de possuir a melhor rede de caminhos-de-ferro da Europa, toda pensado no objectivo militar, pelo que colocava em qualquer ponto das suas fronteiras um número superior de tropas. A partir do 6 de Agosto, passaram pelas pontes do Reno 550 comboios por dia e uma semana depois, um milhão e meio de homens estavam já na frente belga e francesa.

 

A travessia do Canal da Mancha pelas tropas britânicas em segurança representou um êxito para a Navy, mas é certo que a marinha alemã pouco ou nada fez para o impedir. O almirante Jellicoe, o supremo comandante da Grand Fleet, disponibilizou para o efeito alguns dos couraçados mais antigos, ditos pré-dreadnoughts, e só a 28 e 29 de Agosto é que enviou o esquadrão de cinco cruzadores de batalha do almirante Beatty mais os cinco cruzadores ligeiros do comodoro Goodenaugh e a flotilha de destrutores do comodoro Reginald Thyrwhitt liderada pelos dois cruzadores ligeiros e muito rápidos Arethusa e Fearless para fazerem uma incursão na baía de Helgoland.

 Os submarinos do comodoro Roger Keyes já se tinham postado nas imediações para apanhar os navios alemães caso se fizessem ao mar. Acabou tudo numa frenética luta de torpedeiros e cruzadores ligeiros alemães com a poderosa força britânica, tendo os alemães perdido os cruzadores Koeln e Ariadne. Apesar dos grandes navios alemães terem permanecido nos portos, o Almirantado britânico sentiu que se arriscou demasiado; mesmo com peças de 102 mm o tiro germânico era excessivamente certeiro, pelo que ficou desencorajado e não repetiu a proeza.

 

No fim de 1914, mais de um milhão de soldados britânicos tinham atravessado a Mancha, dos quais uns 200 mil já estavam enterrados nos gigantescos cemitérios franceses, sem que a Marinha Alemã se tivesse decidido atacar. Na verdade, os navios eram o brinquedo do Imperador e do seu secretário de Estado predilecto, o almirante Von Tirpiz. Foi o Kaiser que inventou uma Alemanha naval e Tirpiz o homem que a concretizou, mas que estava derrotada frente aos britânicos quando eclodiu o conflito, pois tinha-se atrasado na grande revolução naval operada pelo enérgico Almirante Sir John Fisher (depois Lorde Fisher de Kilverstone) com a construção em 1906 do primeiro Dreadnought. Era então o navio mais poderoso do Mundo e obliterava tudo o que existia em termos de capacidade bélica flutuante, armado como estava com 10 peças de 305 mm, enquanto todos os outros couraçados existentes só possuíam 4 canhões desse calibre. Além disso, o Dreadnought foi o primeiro grande navio propulsionado pelas então novíssimas turbinas a vapor Parsons a accionar 4 veios, o que permitia uma velocidade máxima de 21 nós, além de uma economia em peso de mais de mil toneladas relativamente às então vulgares máquinas a vapor de cilindros de tríplice expansão, permitindo assim muito mais armamento homogéneo e de grande calibre num navio que não arqueava mais tonelagem que os seus antecessores. As 18 caldeiras Babcock & Wilcox tanto podiam queimar carvão como óleo.

 

O Dreadnought não surge como uma lição da batalha de Tsushima, em que as peças de grande calibre não se revelaram muito eficientes por não estarem em número suficiente nos respectivos navios; já estava planeado antes, em resultado das experiências feitas com novos directores de tiros montados nos couraçados Venerable e Victorious, nomeadamente pela associação do telémetro e visor de azimute ao alvo com a trajectória mais tensa das granadas disparadas pelas peças de grande calibre. Com os telémetros e as máquinas de calcular analógicas, as peças de 305 mm podiam atingir com precisão alvos a mais de 10 mil metros de distância. Além disso, apresentavam um desenho de casco mais simplificado com uma hidrodinâmica correcta, tudo à base de chapas já pré-fabricadas, permitindo a construção no então tempo recorde de 14 meses e depois uma utilização mais simplificada e mais barata que os congéneres então existentes. O Dreadnought, ainda com alguns defeitos, e as classes que se lhe seguiram, os Bellerophon e St. Vicent tornaram obsoletos todos os couraçados do primeiro plano naval germânico; construídos graças aos esforços do Kaiser e de Von Tirpiz que para isso tiveram de mobilizar toda a nação alemã. Industriais como Alfred Krupp e outros, além de políticos e pessoas de todas as profissões criaram associações de apoio à marinha em todas as cidades alemãs, lançando uma intensa propaganda naval, dirigida principalmente à juventude e, até, introduziram a moda de vestir as criancinhas de marinheiro.

 

Não foi difícil mobilizar a Alemanha nem conseguir os meios financeiros necessários, já que a Alemanha era então uma nação relativamente próspera, formada em 1871 a partir da unificação de 25 reinos e principados independentes, aclamada na Sala dos Espelhos de Versalhes, depois da vitória da Prússia na guerra contra a França. A Alemanha de 1914, já altamente industrializada, tinha 60 milhões de habitantes, entre os quais se contavam 30 mil milionários, e muitos mais pobres, claro. As burguesias cada vez mais dominantes sentiam profundamente como um insulto diário a arrogância dos oficiais do exército, tradicionalmente recrutados entre a nobreza.

 

A marinha, pelo contrário, como arma nova, foi buscar os seus graduados aos melhores alunos dos liceus, geralmente oriundos das classes médias. Na Alemanha, com a industrialização e a política educativa para todos de Bismarck, iniciara-se a grande revolução social do Século XX, a que levou à lenta transformação de parte do proletariado em membros das classes médias, o que não era ainda sentido como tal quando da I. Guerra Mundial. As burguesias alemãs queriam o alargamento do comércio internacional e um império ultramarino, orgulhando-se imenso das suas possessões no Pacífico, nomeadamente do atol de Bikini, das ilhas Marshal e Samoa, bem como das Marianas e Carolinas adquiridas à Espanha por 16 milhões de marcos ouro. Mas, como acontecia com outros impérios coloniais, também o alemão só servia para gastar dinheiro, daí surgirem tendências favoráveis a uma expansão para Leste à custa do Império Russo, tido como doente em termos de desenvolvimento.

 

As duas teses conduziram os alemães a guerras de duas frentes, altamente prejudiciais e anti-patrióticas como são todas as guerras perdidas. Apesar de terem chegado aos mares do Planeta com cinco séculos de atraso relativamente aos portugueses, os alemães obtiveram na Conferência de Berlim, alguns territórios relativamente vastos mas pobres em África e parte das citadas ilhas no Pacífico, incluindo a Nova Guiné. Depois enfureceram-se quando viram os britânicos apoderarem-se do Transval e Orange com as suas ricas minas de ouro e diamantes.

 

O mais eminente historiador e pensador militar do nosso Século, o britânico capitão Liddel Hart, critica o excesso colonialista britânico na sua História da I. Guerra Mundial, publicada vinte anos antes de o anti-colonialismo ser moda. Mas desculpa os ingleses pelo hábito de quase três séculos de colonização do chamado mundo não civilizado.

 

Incapaz de elaborar uma política externa clara e coerente, a Alemanha do Kaiser tornou-se no contrário da de Bismarck que teceu uma série de alianças que poderiam ter garantido mais de um século de Paz. Chegou a estabelecer a chamada aliança do três imperadores com a Austria-Hungria e a Rússia, enquanto mantinha boas relações com a Grã-Bretanha. Com a subida ao poder do Imperador Frederico Guilherme II, na intimidade Fritz, neto da Rainha Vitória, um homem cheio de complexos de inferioridade e com um profundo ódio à mãe inglesa que o diminuía aos olhos de toda a gente devido a um defeito físico que o fazia sofrer sempre que queria comportar-se como um grande cavaleiro e militar. O Kaiser foi, sem dúvida, um dos grandes obreiros das desgraças europeias do Século, se bem que não fosse o único e nada tinha daquela personalidade sinistra que vinte anos depois ordenou o ataque à Polónia que levou à declaração de guerra à Alemanha por parte da França e da Inglaterra.

 

Os alemães foram livremente para a guerra por causa do assassinato em Serajevo do príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro por sérvios que assim protestavam contra a anexação da Bósnia-Herzegovina pelos austro-húngaros uns anos antes. A Áustria aproveita o evento para declarar guerra à Sérvia e apoderar-se de tudo o que se tornou depois na Jugoslávia, enquanto a Rússia mobiliza a suas tropas para defender a Sérvia, eslava como a Rússia e aliada. A Alemanha, por sua vez, aproveita a sua condição de aliada da Austria-Hungria para declarar guerra à Rússia e depois à França porque este país não respondeu atempadamente se desejava ficar neutro no conflito então em início. E a Inglaterra declara guerra à Alemanha no dia seguinte não se sabe bem porquê. No fundo, toda a gente queria a guerra. Os movimentos do operariado e das pequenas burguesias republicanas estavam em vias de varrer as monarquias do poder, e não só, pelo que os partidos da guerra viam no conflito uma forma de desviar as atenções e com a vitória adquirir suficiente prestígio para se manterem no poder por muitas décadas mais. Talvez vissem mais ainda; a morte de milhões de proletários para diminuir a pressão social que se começava a sentir com o crescimento das populações.

 

A guerra não apanhou nenhum dos beligerantes sem planos de combate, sistemas de mobilização em massa, armamentos e linhas de caminho-de-ferro suficientes. No mar, os alemães partem derrotados, é certo, mas acalentavam a esperança de ganhar primeiro em terra e depois conseguir uma batalha decisiva no mar, pensando que os ingleses não podiam concentrar todas as suas imensas forças navais num único teatro de guerra.

 

A Inglaterra foi para a guerra em 1914 com 40 couraçados pré-Dreadnought, 22 Dreadnought, acrescidos de 3 requisitados e mais 10 em construção. Contra esta gigantesca armada, o almirante Von Tirpiz não dispunha de mais do que 20 pré-Dreadnought e 14 Dreadnought mais pequenos que os britânicos e menos artilhados. Só que para a Alemanha, a marinha não era tão vital como para a Grã-Bretanha. Assim, se logo nas primeiras horas do conflito, Tirpiz tivesse tido a determinação de Suchon, o pessoal e material britânico que estava a chegar em 80 composições ferroviárias por dia a Southampton não embarcava numa gigantesca frota de navios de transporte e poderia ter deixado o Canal da Mancha completamente minado e intransitável. Mesmo que se perdessem alguns brinquedos do Kaiser não teria grande importância em termos de defesa da Alemanha, praticamente invulnerável a qualquer ataque pelo mar, pelas fortificações de Helgoland que fecham a chamada baía alemã.

 

Os alemães podiam ter menos navios, mas eram de excelente qualidade. A artilharia britânica era em geral de maior calibre, mas a marinha germânica possuía excelentes sistemas de direcção de tiro, nomeadamente telémetros Zeiss de 3 metros que não necessitavam de um alvo muito nítido, ao contrário dos telémetros britânicos de coincidência Barr & Strout que obrigava a ver uma aresta nítida, o que se tornava difícil quando os navios estavam envoltos nos fumos da cordite e das suas próprias caldeiras ou com o tempo nublado. Os britânicos usavam em geral um único director de tiro rotativo no mastro principal com telémetro e visor de azimute, ou ângulo da linha navio-alvo com o eixo norte-sul, corrigido da respectiva paralaxe. Os alemães tendiam a multiplicar os directores de tiro, transmitindo também os respectivos dados às centrais de comando. Nos cruzadores de batalha alemães, o comandante de artilharia, a partir da sua casamata blindada, determinava o azimute por um periscópio com lentes Zeiss de ampliação de modo a que ao rodar o seu periscópio para um alvo, toda a artilharia principal o fazia quase simultâneamente. Comandava o tiro de 10 a 12 peças de 280 ou 305 mm quase como quem maneja uma simples metralhadora. As centrais de tiro britânicas eram equipadas com as mesas Dreyer Mark I até V com os calculadores Dumaresq, os mais longínquos antepassados dos computadores, enquanto nas alemãs estavam sistemas semelhantes de tipo analógico que davam pelo nome de "Entfernungs Unterscheids Peilschreiber" e que transmitiam os valores da alça aos oficiais apontadores nas torres de artilharia. A vantagem alemã consistia no facto de possuírem sistemas giroscópios que permitiam fazer o disparo automático na ocasião mais propícia relativamente ao movimento ondulatório do mar, já que a alça de uma peça de grande calibre não pode ser corrigida em função de estar ou não na crista da onda. Ambas as marinhas utilizavam bons relógios correctores da alça que permitiam uma correcção imediata em função da velocidade relativamente ao alvo. Para uma velocidade de 500 metros por minuto, por exemplo, o relógio determinava uma correcção de 5 hectómetros na graduação da alça.

 

A vantagem em artilharia dos britânicos ainda não era tão nítida em Agosto de 1914. Só em 1915 e 1916 é que entraram ao serviço os seis gigantescos Queen Elizabeth armados com 8 peças de 15 polegadas (381 mm). Nessa altura, os alemães só armavam no mar peças de 305 mm, enquanto que os britânicos já tinham canhões de 345 mm em 13 super-Dreadnoughts, mas nunca os iriam arriscar numa batalha em espaço estreito e susceptível de ser minado ou estar cheio de submarinos inimigos, além de uma poderosa esquadra.



publicado por DD às 20:00
link do post | comentar | favorito
 O que é? |  O que é?


mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

A Inactividas das Esquadr...

arquivos

Outubro 2017

Maio 2017

Abril 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Setembro 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Agosto 2015

Dezembro 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Agosto 2013

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Outubro 2011

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Dezembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Junho 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

tags

1900 - ano de paz

1904: guerra russo-japonesa

ártico

batalha da jutlândia

batalha das falklands

batalha de midway

batalha de tsushima

batalha do atlântico

batalha do mar amarelo

batalha naval na selva

bluecher

canhão e couraça

corrupção

couraçado lion

couraçado petropavlotch

couraçado queen elizabeth

couraçado scharnhorst

cruzador de batalha derflinger

cruzador vasco da gama

dieter dellinger

dieter dellinger - arquitetura naval

dieter dellinger - envc

dieter dellinger - história náutica

dieter dellinger - motores navais

dreadnought

guerra

guerra da coreia

guerra no mar

guerra russo-japonesa

guerra submarina

i guerra mundial

i. guerra mundial

i.guerra mundial

israel

kamikazes

marinha

nau

navios

paulo portas

petróleo iraniano

revista de marinha

revista de marinha - dieter dellinger

revista do mar

seydlitz

shipping

submarino borei

submarino gymnote

submarinos

submarinos u209pn

torpedo e submarino

u-9

world explorer.

todas as tags

links
contador
Contador de visita
Contador de visita
online
web counter
blogs SAPO
subscrever feeds