Aqui o autor - Dieter Dellinger - ex-redator da Revista de Marinha - dedica-se à História Náutica, aos Navios e Marinha e apresenta o seu livro "Um Século de Guerra no Mar"

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007
Começo da I. Guerra Mundial

 

 

 Cruzador de Batalha "Goeben"

 

 

 

Muito cedo, ainda de madrugada, ao raiar da primeira luz solar do dia 4 de Agosto de 1914, o cruzador de batalha alemão Goeben aproxima-se lentamente do porto argelino de Philipeville com a bandeira russa hasteada. Na ponte, o comandante e o almirante germânico Suchon observam de binóculo. Viram o faroleiro interromper o seu pequeno-almoço e olhar descansado para a cruz de Santo André no pendão da marinha militar russa; deverá ter pensado: um navio aliado, aqui.

 

Subitamente, a bandeira russa é arriada e hasteada a alemã. Antes que esta tivesse chegado ao topo do mastro, já as peças de 150 mm tinham iniciado os seus disparos contra os cais e demais instalações portuárias daquele porto colonial francês.

Para o efeito não foi utilizada a artilharia mais poderosa constituída por 10 peças de 280 mm.

 

O poderoso Goeben de 25.300 toneladas de deslocamento máximo iniciava as primeiras hostilidades daquela imensa tragédia que foi a I. Guerra Mundial, poucas horas antes das forças alemãs forçarem a fronteira da Bélgica para darem cumprimento ao Plano Schlieffen de invasão da França através da Flandres e das Ardenhas.

 

 

O cruzador ligeiro Breslau de 4.570 toneladas bombardeava ao mesmo tempo com as suas 12 peças de 105 mm o porto próximo de Bonne, também no intuito de perturbar a vinda do exército colonial francês para a Metrópole que já esperava os navios que o iria levar a Marselha.

 

Ambos os navios formavam o esquadrão do almirante Suchon , o único que o então Império Alemão mantinha no Mediterrâneo e que, entretanto, conseguira receber ordens pela TSF para rumar aos Dardanelos e convencer os turcos a deixar passar para o Mar Negro, a fim de aí iniciarem a guerra naval contra o Império Russo, já que no Mediterrâneo não teriam qualquer possibilidade de sobrevivência perante as enormes esquadras inglesa e francesa.

 

Algumas horas depois do ataque aos portos argelinos, os dois navios alemães passam pelos cruzadores de batalha da esquadra do almirante Milne, o Indomitable e o Indefatigable, ambos armados com peças bem mais poderosas de 305 mm, se bem que fossem navios ligeiramente mais pequenos e menos rápidos. Passaram a oito mil metros uns dos outros, mas não dispararam nem fizeram as saudações típicas da etiqueta naval; a Grã-Bretanha ainda não tinha apresentado a sua declaração de guerra formal contra a Alemanha, o que só seria feito quando expirasse o ultimato que o embaixador do Império Britânico apresentou nas primeiras horas da manhã ao ministro dos Negócios Estrangeiros Bethmann-Holweg em Berlim.

Todavia, Milne que estava em Malta a bordo do seu navio-chefe, o Inflexible, armado com 8 peças de 305 mm, tinha já ordens do Primeiro Lorde do Almirantado para não deixar escapar o Goeben e provocar a sua destruição logo que as hostilidades começassem oficialmente.

 

Entretanto, os britânicos mudavam de curso, a fim de seguirem discretamente os dois vasos de guerra em vias de se tornarem inimigos. No dia 1 de Agosto, a Alemanha entrara em guerra com a Rússia e a 3 com a França, mas só quase à meia-noite do dia seguinte é que a Grã-Bretanha declarava guerra à Alemanha e o almirante Milne deveria então cumprir a ordem de destruir as duas unidades da marinha de guerra alemã.

 

Contudo, Suchon não estava preocupado com os britânicos. O Goeben , apesar de ser um navio novo, só com dois anos de incorporação, recebera semanas antes na base naval austríaca de Pola, no Adriático, mais de quatro mil tubos novos para as suas 24 caldeiras Schulz-Thornycroft, pelo que fazia bem os seus 25,5 nós com as turbinas a vapor Parsons e a força dos seus 52 mil cavalos-vapor transmitida a quatro veios e hélices.

O Breslau, por sua vez, sendo um cruzador ligeiro de 4.570 toneladas, armado com 12 peças de tiro rápido de 105 mm, representava então uma revolução no desenho e construção do casco, pois era a primeira unidade do género com uma cintura blindada de 60 mm em aço níquel que cobria 80 porcento do costado. Para aguentar tal peso em navio pequeno, o casco foi desenhado de uma forma inovadora, baseada numa estrutura longitudinal. Hidrodinamicamente também, o desenho era revolucionário, o que permitia tirar mais proveito da potência das suas turbinas AEG-Vulkan de 33.450 cavalos-vapor e quatro veios, accionados pelo vapor de 11 caldeiras, para fazer igualmente 25 nós ao longo de quase 900 milhas náuticas.

 

Os dois navios escaparam facilmente à perseguição dos cruzadores de batalha ingleses, mas o pessoal livre foi todo para a casa das caldeiras manejar a pá e o esborralhador e quem não estava de serviço na ponte ou nos canhões estava no carvão, sargentos e oficiais incluídos. O ruído e o calor eram infernais; a 25 nós, o Goeben vibrava rumo ao Estreito de Messina, deixando para trás o Indomitable e o Indefatigable que não fizeram justiça aos seus nomes. Só o cruzador Gloucester estava perto daquele estreito a vigiar.

 

A corrida consumiu os stocks de carvão dos navios de Suchon , mas em Messina encontravam-se já o paquete alemão General e alguns navios carvoeiros para reabastecer, o que foi prontamente feito, mesmo sem que o almirante soubesse ao certo se a Itália iria permanecer neutra ou entrar na guerra a qualquer momento e ao lado de quem? O pessoal das caldeiras, apesar de esgotado, lançou-se com toda a energia na tarefa hercúlea de encher os depósitos de carvão; até oficiais superiores foram manejar a pá e içar as cestas de carvão. Aquele trabalho deixou a guarnição ainda mais esgotada.

 

 A Itália informa, entretanto, que é um país neutro e que o Goeben e o Breslau têm de sair no espaço de 24 horas. O almirante alemão foi enérgico, considerou só o prazo a partir do momento em que foi informado, o que lhe deu tempo suficiente para se reabastecer convenientemente. Milne, ao saber da presença dos navios de Suchon em Messina, posicionou-se à entrada do Adriático, julgando que os alemães iriam refugiar-se num porto austríaco, na costa daquilo que é hoje a Croácia e parte da Itália, enquanto mantinha dois cruzadores de batalha a Ocidente na rota para Marselha, a fim de defender os navios que transportavam os contingentes africanos da França para os campos de batalha europeus.

 

O Goeben e o Breslau fingiram que seguiam para o Adriático, mas mudaram rapidamente de curso e acabaram por ir ao encontro do esquadrão de cinco cruzadores protegidos e alguns destroyers do vice-almirante Troubridge, embarcado a bordo do Defence, um cruzador-couraçado de 14.600 toneladas armado com 4 peças de 233,7 mm e 10 de 190 mm. Este ainda se tinha decidido a atacar os navios alemães, mas, quando a ocasião se proporcionou, resolveu mudar de rumo para sul e deixar passar o Goeben e o Breslau a 25 nós, convencido da superioridade do tiro alemão, relativamente ao dos seus cruzadores, o que só parcialmente seria verdade.

 

O Breslau que seguia bastante para trás do Goeben ainda trocou umas salvas com o cruzador Gloucester, encaixando um impacto que poucos danos causou. O vice-almirante britânico foi deposto e levado a Conselho de Guerra onde se defendeu com algum sucesso por ter recebido uma ordem do comandante-em-chefe para não entrar em combate com forças superiores. Não foi condenado, mas nunca mais recebeu algum comando. O almirante Milne foi deposto e igualmente não voltou a ter qualquer actividade na marinha real britânica. Os casos destes dois oficiais serviram de lição para o futuro. O Almirantado prefere oficiais desobedientes para enfrentar o inimigo do que o contrário. Enfim, os navios alemães puderam voltar a meter carvão ao largo da ilha grega Denusa, no Mar Egeu, para chegarem aos Dardanelos em estado de abrirem a "Sublime Porta" à força se necessário fosse. Não foi preciso; após um enervante compasso de espero surgiu um pequeno torpedeiro com o sinal de seguirem-no.

 

O almirante Suchon tinha anunciado antes ao governo turco que os alemães estavam na disposição de fazerem uma venda simbólica dos navios à Turquia. O Goeben e o Breslau foram incorporados na marinha turca com os nomes de Jawus Sultan Selim e Midili; tal como a própria guarnição alemã que recebeu para o efeito o então tradicional fez de todos os militares turcos. A população turca manifestava-se nas ruas contra os ingleses; queria os já pagos "super-dreadnoughts"  Reshadih e Sultan Osman I, requisitados pela marinha britânica com os nomes de Erin e Agincourt, respectivamente, pois em Agosto de 1914 estavam praticamente concluídos e foram pagos por todo o povo turco através de uma taxa levantada sobre o preço do pão. O primeiro era um moderníssimo couraçado de 25.250 toneladas de deslocamento, armando 10 peças de 345 mm e o segundo deslocava 30.250 toneladas com 14 canhões de 305 mm, além da artilharia secundária. O Agincourt fora encomendado pelo Brasil para ser o Rio de Janeiro, mas foi vendido à Turquia quando ainda estava em construção por o governo brasileiro ter chegado à conclusão que o custo do navio era excessivo.

 

Ambos os navios fizeram a I. Guerra Mundial, mas foram muito cedo parar aos maçaricos dos sucateiros, em 1922, ao fim de 8 anos de serviço, graças ao Tratado de Washington sobre a limitação dos armamentos navais. O Goeben , ou antes, o Yawuz Sultan Selim, fez parte da marinha turca até 1960, apesar dos danos que as minas lhe causaram ao longo da I. Guerra Mundial; primeiro em 1914 num ataque feito aos portos russos do Mar Negro e depois em Janeiro de 1918 na sequência do ataque à base naval aliada de Moudros no Mar Egeu, o que foi bastante mais grave, no qual se perdeu o ex-Breslau e que desenrolou-se do seguinte modo: Logo que o Yawuz S. Selim e o Midili, nos primeiros dias do ano de 1918, dobraram o cabo de Seddul-Bahr afundaram de surpresa os dois monitores ingleses Raglan e M28, o primeiro armado com duas peças de 356 mm e o segundo com uma de 234 mm. Uma hora depois, o Midili abalroa uma mina e logo a seguir sucede o mesmo ao ex Goeben que tentava passar um cabo ao seu eterno acompanhante, que ainda faz explodir mais quatro minas, afundando-se rapidamente. O cruzador de batalha não se livra do mesmo azar e saltam sob o seu casco duas minas, mas consegue ser rebocado para Constantinopla. Foi por estar assim tão avariado que os ingleses não se apoderaram do navio quando terminaram as hostilidades, acabando por ser reparado e voltar ao serviço activo da Marinha da Turquia.

 

A atitude do Almirantado britânico ao requisitar os dois navios turcos em construção na Inglaterra, levou a que a chegada e oferta das duas unidades alemãs fosse o saltar da faísca.

 

 A Turquia entrou na guerra ao lado dos alemães, batendo-se com um heroísmo inenarrável quando os aliados quiseram depois desembarcar na península de Galipoli para forçar a entrada de uma grande esquadra pelos Dardanelos até ao Mar de Marmara, frente a Istambul, ou Constantinopla como se chamava então. Dezenas de milhares de súbditos do Império Britânico morreram aí e vários navios de linha foram afundados pela acção das minas e da artilharia de costa, causando prejuízos milhares de vezes superiores ao custo dos dois navios requisitados. O então Primeiro Lord do Almirantado Winston Churchill gizara o plano de forçar a entrada no chamado "ventre mole dos Impérios Centrais", a Turquia. Só que as contas saíram-lhe furadas. Os militares vindos de todos os cantos do Império Britânico conquistaram umas línguas de areia na Península de Galipoli e perderam dezenas de milhares de homens. Nunca chegaram aos fortes que defendiam a entrada para o Mar de Mármara, quando pensavam que podiam conquistar parte da Turquia e juntar-se ao exército russo para reforçar a frente oriental. Churchill, tal como muitos militares, não tinha ainda percebido que a infantaria armada de espingarda pouco pode fazer contra forças bem entrincheiradas com metralhadoras pesadas e a própria artilharia dos grandes navios é quase impotente contra fortalezas bem protegidas. Os britânicos e franceses utilizaram quase todos os seus couraçados pré-Dreadnought e perderam alguns pela acção dos submarinos alemães.

 

Der qualquer modo, os britânicos saíram largamente a ganhar no conflito com a Turquia porque se apoderaram da parte mais interessante do velho Império Turco, ou seja, as zonas produtoras de petróleo, ainda no começo, e que transformaram em nações semi-independentes como a Arábia Saudita, Kuwait, Emiratos Árabes, Iraque, etc. com o controlo dos recursos petrolíferos.



publicado por DD às 21:00
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